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‘Black Hawk Down’: o depoimento de um sobrevivente

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Não é fácil para um veterano de guerra narrar suas histórias. Mesmo que o tempo separe o presente dos acontecimentos vividos em quase duas décadas a dor e o sofrimento permanecem.

Para o americano Mike Durant não é diferente. Mas no seu caso a tragédia pessoal ganhou fama pelo mundo através dos cinemas. Sua maior e mais trágica experiência de vida foi narrada no filme “Black Hawk down” (Falcão Negro abatido – Columbia Pictures 2001).

Durant hoje está na reserva, mas continua contando suas histórias para plateias sempre interessadas em ouvi-lo. Na última sexta-feira não foi diferente. No complexo Redstone Arsenal (Alabama) do Exército dos EUA, o subtenente da reserva Mike Durantdeu a sua versão dos fatos.

A batalha de Mogadício

No início de outubro de 1993 uma força composta por elementos do Exército , Marinha e Força Aérea dos EUA foi enviada ao centro de Mogadíscio, da capital da Somália, para capturar o General Muhammed Farah Aideed, líder de uma das facções políticas que estava em luta na Somália.

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No decorrer da ação um helicóptero MH-60 Black Hawk, “Super 61” na fonia, que estava dando cobertura foi atingido por um RPG e caiu a três quarteirões da área do alvo. Logo após a tentativa de resgate dos sobreviventes do Super 61, outros dois MH-60 foram atingidos, sendo que um deles conseguiu retornar para base. O “Super 64”, pilotado pelo subtenente Michael Durant, caiu a cerca de 1.5 Km do “Super 61”.

A multidão foi para o local, e a despeito da heróica defesa, matou todos os tripulantes com exceção de Durant, que foi pego como refém. Durante o seu tempo de prisioneiro, Durant conheceu os 11 dias mais longos e penosos de sua vida.

Em 14 de outubro de 1993, depois de intensas negociações, Aideed libertou Durant, piloto e único sobrevivente da queda do “Super 64” e um soldado nigeriano das forças da ONU, capturado anteriormente, como um gesto de “boa vontade”.

A narrativa pessoal

Depois de 17 anos Durant dividiu com os ouvintes de Redstone a “experiência que mudou a sua vida”.

“Foi um ato de boa vontade da nossa parte”, disse o subtenente. “Não havia petróleo. Não havia interesse estratégico. Mas haviam pessoas sofrendo, muitas pessoas”. Era sim uma missão de paz da ONU. A operação” Restore Hope” tinha como objetivo trazer estabilidade ao país para que a ajuda humanitária pudesse chegar.

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No outono de 1993 as forças militares dos EUA obtiveram sucesso no estabelecimento de uma certa estabilidade à capital Mogadíscio. Mas no início de outubro a situação mudou. “74 soldados foram atingidos, cinco Black Hawk derrubados, 18 homens mortos e eu caí nas mãos do inimigo.” completou Durant.

Seu helicóptero foi atingido por um RPG no rotor de cauda a baixa altura e acabou colidindo com o solo. Ele e a sua tripulação de três homens sobreviveram à queda. Durant ficou inconciente e os demais ficaram bastante feridos. Dois franco-atiradores do Força Delta voluntariaram-se para defender a posição do helicóptero abatido. O número de rebeldes era muito grande e em um deteminado momento a munição acabou. Todo o grupo foi morto, com exceção de Durant.

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“Quando retomei a consciência, tinha um ferimento nas costas, uma perna quebrada e alguns ossos da face também quebrados. “Meus ferimentos me levariam à morte em 35 ou 40 dias”.

Sua libertação ocorreu depois de 11 dias de cativeiro, sendo enviado para um hospital nos EUA para tratamento médico. “Percebi que haviam partes físicas e psicológicas a serem recuperadas”.

“O Exército iria me ‘groundear’. Não me deixariam voar mais. Quando dizem a você que você não será mais capaz de fazer aquilo que você quer mais acima de qualquer outra coisa, você não aceita. Queremos lutar contra esta situação”.

“Eu era um piloto lutando para ter de volta a parte da minha vida e minha identidade.”

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Durant estava determinado a provar que a decisão do Exército não era a mais correta e que sua forma física estava intacta. Somente 11 meses após deixar o gesso, o subtenente foi participar da prova de maratona dos Fuzileiros Navais.

“Eu quase me qualifiquei para a Maratona de Boston”, disse Durant após cruzar a linha de chegada com o tempo de 3:37h. “Mas a autoridade que iria me dar baixa não poderia dizer ‘não’ ao meu desejo de continuar servindo. Depois da corrida ele me manteve na força e eu voei por mais cinco anos”.

Depois de dar um jeito nas questões físicas e profissionais, Durant levou um bom tempo até se recuperar dos danos psicológicos. “Se eu começar a falar da Somália vou chorar”, disse. “Perdi minha tripulação. Metade do meu pelotão também desapareceu. É algo difícil de comentar”.

Seu lado espiritual foi rejuvenescido. “Orei mais naqueles 11 dias do que toda a minha vida. E por tudo o que Ele fez por mim , Ele não pediu nada em troca”. “Sinto-me abençoado. Me sinto melhor hoje sobre quem eu sou e sobre as coisas que aconteceram 17 anos atrás”.

Baseado nas suas experiências de vida Durant escreveu dois livros: “In the Company of Heroes” e “The Night Stalkers.” Suas narrativas formaram a base do roteiro do filme “Black Hawk Down.”

Com informações do site do Exército dos EUA

FOTOS: Columbia Pictures e US Army

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Wolfpack
Wolfpack
10 anos atrás

Para quem viu o filme e sabe que tudo aquilo foi real, é difícil se colocar no lugar daqueles que lutaram naquele dia. Os caras lutaram até a morte. O que mais me chamou a atenção naquele evento foi a incapacidade dos Marines de resolverem aquela situação. O apoio era fraco, e foram alvejados por armas consideradas leves. Mesmo assim seguiram para as Guerras do Golfo dentro dos Hunvees mal blindados e equipados. Ainda nesta semana um artigo mostra a enificiência do armamento Americano no T.O. Afeganistão. Se gasta muito com Classe Los Angeles e F35 Lightning II mas esquecem… Read more »

Marine
10 anos atrás

Wolfpack, Concordo que se gasta demais com sistemas “sexy” como F-35 e SSN mas nao e tambem isso que o pessoal do proprio blog so quer falar sobre? Super-Trunfo e ficha tecnica? FX-2? Mas ninguem quer falar sobre os radios ou municao do infante que falta….Entao isso e no mundo todo. Agora algumas confusoes suas: 1- Aqueles nao foram Marines. Os Marines chegaram primeiro a Somalia com 20 mil fuzileiros e distribuiram os suprimentos como lhes foi dada a missao. Nao tiveram maiores problemas e ate receberam o apelido de “mangas brancas” pela milicia porque evitavam confrontos com os soldados… Read more »

Felipe Cps
Felipe Cps
10 anos atrás

Caro Wolfpack, seja bem vindo ao ForTe: O 3rd Ranger Battalion do 75th Ranger Regiment pertence ao United States Army, não ao US Marine Corps. Isto posto, morreram aproximadamente 1.000 guerrilheiros somalis, para um provável número de 4.000 feridos. Do lado americano, morreram 20 soldados e houve 91 feridos. Fazendo as contas, dá 50 guerrilheiros somalis mortos para cada americano. E 43 guerrilheiros feridos para cada americano. Não sei se o amigo tem alguma formação militar, mas o exército brasileiro por exemplo trabalha com uma taxa de baixas (em operação regular de ataque) de no mínimo 3 para 1. Ou… Read more »

Felipe Cps
Felipe Cps
10 anos atrás

Hehehe, Marine corrigiu a tempo, rsrs…

Aristeu lemes
Aristeu lemes
4 anos atrás

Senhores eu pode assistir alguns especialistas avaliarem a Operação em Mogadício e quase todos eles e eu também concordamos em uma coisa foi uma Operação que já havia sido feita ou seja repetiram.
O exercito americano já havia feito esse tipo de ação na Somália existem depoimentos de soldados americanos que participaram da ação dizendo que os somalis jamais reagiriam com tanta agressividade e que seria fácil , subestimaram a capacidade deles qualquer comandante militar sabe que uma guerra urbana é extremamente difícil .
Toda operação tem que ter o fator surpresa e planejamento alternativo .