segunda-feira, agosto 2, 2021

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O Ocidente caiu com as torres

Destaques

Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

Arnaldo Jabor

Enquanto o ex-presidente Bill Clinton fazia seu discurso histórico na Convenção democrática, senti-me em uma viagem no tempo – parecia que estávamos antes do 11 de Setembro, com os EUA em superávit, com uma visão multilateral do mundo, antes da brutal recessão que o boçal do Bush causou com sua política para milionários e Wall Street. Há muito tempo eu não era tão feliz. Pude esquecer por uma hora as caras dos republicanos: homens com fuças de bandidos violentos e mulheres com seus cabelos louros de “chapinha”, com o sorriso fixo de peruas imbecis.

Clinton explicou com destreza literária e estratégica como os republicanos provocaram o horror atual da economia, como impediram no Congresso que Obama fizesse correções na “herança maldita” que deixaram e agora querem voltar para errar mais, num momento delicadíssimo da agenda internacional. Emocionou-me a dignidade daqueles dois, o preto bonito e o branco bonito, homens de bem, cultos, contrastando com os animais que pululavam na convenção republicana, com o fascista Clint Eastwood fazendo piadinhas e desonrando o fim de sua vida. Nunca mais vejo filme dele.

A crise econômica de 2008 começou em 2001, no 11 de Setembro. O ataque do Osama às torres dissimulou a estupidez do governo Bush (lembram de sua cara abestalhada quando soube do atentado?) Naquela cara estava traçado nosso destino dos últimos dez anos. Como um “presidente de guerra”, a desregulação das finanças foi escancarada, ninguém prestava atenção a nada, a não ser o “Cheney-Oil” (que passou a mandar) e os “mestres do universo”, como os moleques de Wall Street se chamavam.

Logo depois do 11/9, o “patriotic act” que Bush assinou justificou qualquer loucura, qualquer gasto para combater o terror. Não teríamos uma crise tão forte, se os EUA não estivessem gastando cerca de um trilhão por ano no Iraque e Afeganistão. O dinheiro rolava em cachoeira com baixos juros e a bolha imobiliária cresceu, os “derivativos” e alavancagens criaram para os americanos um consumo fictício compensatório, que acabou estourando, como as minas que matavam jovens nos desertos do Oriente.

Bin Laden armou uma armadilha infalível: obrigou os EUA ao contra-ataque e, com isso, uniu o Islã.

Além disso, Bin Laden produziu a grande ressurreição do século 21: Deus. Ressurgiu Alá para eles e o fundamentalismo cristão na América. Alá e Jesus, ambos armados. Bin Laden “islamizou” a América. Hoje há cerca de 40 milhões de evangélicos nos EUA, que acham que Deus criou o mundo em sete dias, 6 mil anos atrás, e que o Islã tem de ser arrasado com bombas nucleares. Barack Obama pode ser derrotado por milhões de ignorantes religiosos. Bin Laden nos jogou na Idade Média, numa era pré-política. Os nazistas queriam um milênio ariano, os comunas queriam construir um paraíso sem classes, os fanáticos do Islã não querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Já vivem na eternidade. Querem apenas destruir o demônio – que somos nós. A guerra é assimétrica – a América tem uma ideologia. Eles têm a teologia. O Islã quer o imóvel, a verdade incontestável. O Islã transcendeu a história há muito tempo. Suas multidões jazem na miséria, conformados, perfazendo um ritual obsessivo cotidiano que os libertou da dúvida. Sua obediência ao Alcorão lhes ensina tudo, desde como cortar as unhas até como matar “cães infiéis”. Como disse o mulah Muhammad Omar, com desdém: “Nós amamos a morte; vocês sempre gostaram de viver…”

Em um discurso que fez nas cavernas do Afeganistão, Bin Laden citou o tratado de Sèvres, quando o Ocidente acabou com o Império Otomano e com o sonho de unidade árabe, em 1920. Depois, declarou: “Nunca mais seremos humilhados como na Andaluzia”. Ou seja, eles se vingam da expulsão da Península Ibérica em 1492. Osama nos odeia há 500 anos.

Osama Bin Laden inventou a única arma possível para os miseráveis: a loucura suicida. Queremos desesperadamente explicar Osama à luz da ciência ou da razão, mas ele se mantém imune a interpretações. Finalmente, entendi a velha frase de Camus: “O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo”. Mas, não o suicídio raivoso de Mersault (v. O Estrangeiro) contra o mundo “absurdo”. Não mais o suicídio da “náusea”, mas o suicídio como manifestação de vida contra a dúvida e a diferença. Ai, que loucura!: o suicídio como esperança.

Além de incendiar a crise da economia, o ataque de 11/9 acabou com a fama de infalibilidade dos EUA. Acabou com a ideia de “finalidade”, de “projeto”. Acabou com a ideia de solução, com a ideia de vitória.

Ele trouxe de volta o que estava faltando ao Ocidente, desde o fim da guerra fria: o medo, a pulsão de morte que andava escondida, sublimada nos filmes, nos “hambúrgueres”, na gargalhada infinita do entertainment. Acaba o happy end, a simetria, o princípio, o meio e o fim.

A arte revolucionária de Osama foi ter criado um fato. Hoje em dia não temos mais fatos; só expectativas. E ele nos trouxe um acontecimento em 2001, intempestivamente. E se o intempestivo acontece, Bin Laden atualizou a ideia do contemporâneo que, como disse Agamben, está dada numa relação de desconexão e dissociação com o tempo presente. E, para ele, “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele ver não as luzes, mas o escuro”. Bin Laden provou a morte das grandes narrativas e explicações. Pode estar pintando um horror à mudança, um tempo de conformismo deprimido. Ficaremos mais minimalistas, afirmando singularidades. Como disse Baudrillard: “O universal acabou; só resta o singular contra o mundial”.

E depois de criar milhões de “jihadistas” americanos, com os “tea parties” fascistas, com um Deus vingativo e reacionário, Bin Laden está no fundo do oceano. E pode ser que chegue agora sua vingança contra Barack Obama: do abismo gelado do mar, entre peixes luminosos, Bin Laden pode eleger o Mitt Romney em novembro.

FONTE: O Estado de São Paulo

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glaison
glaison
8 anos atrás

Como Conto, é um bom texto .
Bin Laden morto. Não acredito mesmo.

Blind Man's Bluff
Blind Man's Bluff
8 anos atrás

Morto ou vivo, não importa. Desde 2001 esse monstro virou um mito, uma lenda.

“…do abismo gelado do mar, entre peixes luminosos, Bin Laden pode eleger o Mitt Romney em novembro.”

Mas Arnaldo errou ao citar: “Clinton explicou com destreza literária e estratégica como os republicanos provocaram o horror atual da economia, como impediram no Congresso que Obama fizesse correções na “herança maldita”,

Pois foi justamente esse presidente democrata, que vendeu a economia aos agiotas de wall street.

Vader
8 anos atrás

Esse texto do Arnaldo Jabor é a prova mais perfeita que já li de como se fazer uma trama formalmente correta embasando-se em premissas materialmente erradas. O cidadão, notadamente esquerdista, só se “esquece” de dizer que tanto a farra de Wall Street com os derivativos quanto o aumento brutal da dívida americana foram resultados não das tais guerras que ele menciona, mas de políticas econômicas e de desregulamentação de mercado implementadas durante o que ele acredita serem os “anos dourados” do governo democrata de Bill Clinton!!! Ainda, com notória má-fé, se “esquece” de dizer que o democrata Barack Obama teve… Read more »

rsbacchi
rsbacchi
8 anos atrás

Vader, parabens!!!

Nota 10.

Bacchi

Luiz Paulo
Luiz Paulo
8 anos atrás

Ótima texto do Vader, muito bom.

Quando vejo um texto do Jabor bate uma tristeza por lembrar que o tipo de raciocínio desse cara, infelizmente, é regra na nossa mídia de massa/formadores de opinião a 20 anos.

É triste lembrar que a nossa ‘direita’ se inspira nos Democratas dos EUA.

É engraçado ver a esquerdeopatia chamando a mídia de PIG ou reacionária, com tantos ‘jabores’ de exemplo.

E no fim, é triste lembrar que as coisas não vão mudar tão cedo.

Giordani
Giordani
8 anos atrás

Esse texto do jabor deve estar emoldurado e numa parede bem visível do itamaravilha…

Jabor é só um exemplo dos boçais de fala macia e vida mansa…

hamadjr
hamadjr
8 anos atrás

A tese de Desregulamentar Mercado iniciou antes de Bill, foi patrocinado pela Margaret e por Reagan, onde o mercado regularia tudo e com isso se estabeleceria uma nova relação econômica, ou neo-liberalismo, coisa da direita sectária e conservadora que entende o mundo apenas como comércio e o dia que o Jabor for esquerda Bakunin será budiosta.

Daglian
Daglian
8 anos atrás

Vader,

Concordo plenamente. Na minha opinião, um texto horrível.

Vader
8 anos atrás

hamadjr disse: 12 de setembro de 2012 às 11:47 O que a esquerda radical, decadente e apátrida atual não fala, ou não quer falar, é que a desregulamentação de mercados funcionou tremendamente bem por mais de 20 anos, gerando riqueza e conquistas públicas e sociais estratosféricas para os países que a adotaram decisivamente em meados dos anos 80. Além de ter sepultado de vez a URSS, dando fim à mais perigosa doutrina político-ideológica que o mundo já viu. O que a esquerda radical, decadente e apátrida atual não fala é que, se tivemos uma década de bem-aventurança econômica da qual… Read more »

hamadjr
hamadjr
8 anos atrás

Caro Vader A algum tempo não muito distante, também tinha aqueles que trabalhavam na produção de cana e nem almoço tinha, se um dia eu filiado ao PT, fui e me orgulho, hoje não sou mais por uma razão simples, FHC soube fazer escola tão bem que o PT continua a reproduzir seus fundamentos na econômia, inclusive na incapacidade de comprar 36 teco-tecos. O que a direita não tem e nunca terá é um projeto de nação, não porque seja burra, é porque é estúpida e míope, se sustenta olhando para fora, discursa modernidade mas é atrasada. Você fala em… Read more »

Vader
8 anos atrás

hamadjr disse: 12 de setembro de 2012 às 15:45 Meu caro, eu não acho nada e para mim, particularmente, a saída para o Brasil é o aeroporto. Preferencialmente de sala VIP e primeira classe. Quanto à “direita”, a qual delas você se refere? Àquela que “nom ecxiste” neste país ou à “esquerda festiva” que só os teleguiados da esquerda radical, decadente e apátrida chamam de “direita”? Mas você mirou no saci e acertou a mula-sem-cabeça, de modo que sou obrigado a concordar contigo: a direita não tem projeto de nação, e por um motivo simples: NÃO EXISTE direita no Brasil.… Read more »

Marine
8 anos atrás

Sem brincadeira, mas porque o blog perdeu o tempo de publicar uma asneira de artigo desse.

Sem querer ser chato mas Galante nao entendi essa…

Rogério
Rogério
8 anos atrás

Vader disse:
12 de setembro de 2012 às 9:35

Vader disse:
12 de setembro de 2012 às 16:25

Dois excelentes textos, é isso mesmo Vader, parabéns.

[]s

andreluizsilvacorreia
andreluizsilvacorreia
8 anos atrás

Gostei da parte em que ele tirou onda com os lunáticos criacionistas do bible belt e com os fundamentalistas islamicos

O resto é bobagem mesmo

Augusto
Augusto
8 anos atrás

O sujeito que escreveu o texto é dramaturgo, cineasta e trabalha com teatro e o que está nas linhas é apenas isso: um grande teatro pastelão. Esse sujeito tem afinidade com as artes e tenta imprimir drama e aventura em um mundo que não permite isso, que é o da análise política. Nem me dou ao trabalho de comentar esse tipo de tentativa de concatenar bobagens por meio da fala.

Requena
Requena
8 anos atrás

O Jabor é um mala.
Deixaram ele fazer editoriais da Globo e ele se acha o maior intelectual do país.
Mas na grande maioria dos casos só fala M.
Esse texto é prova disso.

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