quinta-feira, outubro 28, 2021

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O Brasil na encruzilhada

Destaques

Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS

A economia não é uma ciência ideológica, como quer certa corrente política, nem uma ciência matemática, como pretendem os econometristas. É evidente que a matemática é um bom instrumental auxiliar, não mais que isso, enquanto a ideologia é um excelente complicador. A economia é, fundamentalmente, uma ciência psicossocial, que evolui de acordo com os impulsos dos interesses da sociedade, cabendo ao Estado garantir o desenvolvimento e o equilíbrio social, e não conduzi-la, pois, quando o faz, atrapalha.

Por outro lado, o interesse público, em todos os tempos históricos e períodos geográficos, se confunde, principalmente, com o interesse dos detentores do poder, políticos e burocratas, que, enquistados no aparato do Estado, querem estabilidade e bons proventos, sendo o serviço à sociedade mero efeito colateral (vide meu Uma Breve Teoria do Poder, Ed. RT). Por essa razão o tributo é o maior instrumento de domínio, sendo uma norma de rejeição social, porque todos sabem que o pagam mais para manter os privilégios dos governantes do que para o Estado prestar serviços públicos. A carga tributária é, pois, sempre desmedida, para atender aos dois objetivos.

Na superelite nacional, representada pelos governantes, o déficit previdenciário gerado para atender menos de 1 milhão de servidores aposentados foi superior a R$ 50 bilhões em 2011, enquanto para os cidadãos de segunda categoria – o povo – foi de pouco mais de R$ 40 bilhões, para atender 24 milhões de brasileiros! Numa arrecadação de quase R$ 1,5 trilhão – 35% do produto interno bruto (PIB) brasileiro -, foram destinados à decantada Bolsa-Família menos de R$ 20 bilhões! Em torno de 1% de toda a arrecadação! O grande eleitor do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff não custou praticamente nada aos erários da República.

O poder fascina! No Brasil há 29 partidos políticos. Mesmo consultando os grandes filósofos políticos desde a Antiguidade até o presente, não consegui encontrar 29 ideologias políticas diferentes, capazes de criar 29 sistemas políticos autênticos e diversos. Desde Sun Tzu, passando por indianos, pré-socráticos, pela trindade áurea da filosofia grega (Sócrates, Platão e Aristóteles), pelos árabes Alfarabi, Avicena e Averrois e pelos patrísticos e autores medievais, entre eles Agostinho e São Tomás, e entrando por Hobbes, Locke, Montesquieu, Hegel até Proudhon, Marx, Hannah Arendt, Rawls, Lijphart, Schmitt e muitos outros, não encontrei 29 sistemas políticos distintos.

Ora, 29 partidos políticos exigem de qualquer governo a acomodação de aliados e tal acomodação implica a criação de ministérios e encargos burocráticos e tributários para o contribuinte. O Brasil tem muito mais ministérios que os Estados Unidos. Por essa razão suporta uma carga tributária indecente e uma carga burocrática caótica para tentar sustentar um Estado em que a presidente Dilma não conseguiu reduzir o peso da administração sobre o sofrido cidadão. E os detentores do poder, num festival permanente de auto-outorga de benesses, insistem em aumentar seus privilégios, como ocorre neste fim de ano, com a pretendida contratação de mais 10 mil servidores e aumentos em cascata de seus vencimentos.

Acresce-se a esse quadro a ideológica postura de que os investidores no Brasil não devem ter lucro, ou devem tê-lo em níveis bem reduzidos. Resultado: México e Colômbia têm recebido investidores que viriam para o Brasil, pois tal preconceito ideológico inexiste nesses países.

A consequência é que, no governo Dilma, jamais os prognósticos deram certo. Têm seus ministros econômicos a notável especialidade de sempre errarem os seus prognósticos, o que dá insegurança aos agentes econômicos e desfigura o governo. Os 4,5% de crescimento do PIB para 2011 ficaram em torno de 2,5%. Os 4% prometidos para 2012 ficarão ainda pior, ou seja, pouco acima de 1%.

A política energética – em que o governo pretende que seja reduzido o preço da energia pelo sacrifício das empresas, e não pela redução de sua esclerosadíssima máquina pública – poderá levar à má qualidade de serviços e à desistência de algumas concessionárias de continuarem a prestá-los. A Petrobrás, por exemplo, para combater a inflação, provocada principalmente pela máquina pública, tem seus preços comprimidos. Nem mesmo a baixa de juros está permitindo combater a inflação, com o que terminaremos o ano com baixo PIB e inflação acima da meta.

Finalmente, a opção ideológica pelo alinhamento com governos como os da Venezuela, da Bolívia, do Equador e da Argentina tem feito o Brasil tornar-se o alvo preferencial dos descumprimentos de acordos e tratados por parte desses países, saindo sempre na posição de perdedor.

Muitas vezes tenho sido questionado em palestras por que o Brasil, com a dimensão continental que tem, em vez de se relacionar, em pé de igualdade, com as nações desenvolvidas, prefere relacionar-se com os países de menor desenvolvimento, tornando-se presa fácil de políticas estreitas, nas quais raramente leva a melhor. Tenho sugerido que perguntem à presidente Dilma.

Como a crise europeia não será solucionada em 2013, como os investidores estão se desinteressando pelo País, por força dessa aversão dos governantes brasileiros ao lucro, e como investimos em consumo, beneficiando, inclusive, a importação, e não a produção e o desenvolvimento de tecnologias próprias, chegamos a uma encruzilhada.

Bom seria se os ministros da área econômica deixassem de fazer previsões sempre equivocadas e a presidente Dilma procurasse saber por que os outros países estão recebendo investimentos e o Brasil, não. Como dizia Roberto Campos, no prefácio de meu livro Desenvolvimento Econômico e Segurança Nacional – Teoria do Limite Crítico, “a melhor forma de evitar a fatalidade é conhecer os fatos”.

* PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE MACKENZIE, DAS ESCOLAS DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME), SUPERIOR DE GUERRA (ESG) E DA MAGISTRATURA DO TRIBUNAL REGIOAL FEDERAL – 1ª REGIÃO

FONTE: Estadão

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Requena
Requena
8 anos atrás

Texto muito bom. O Brasil precisa de mais homens como o Dr. Ives Gandra da Silva Martins.

Vader
8 anos atrás

Dr. Ives Gandra, uma das cabeças mais lúcidas do Brasil. A verdade é que quem nos governa hoje não tem projeto de país, e sim projeto de poder, vale dizer: não tem um projeto para transformar o Brasil numa potência mundial, mas apenas um projeto para se perpetuar, indefinidamente aboletados, no poder, deixando vazar algumas migalhas que é para o povão não reclamar. O petismo naufragou em sua tôsca ideologia pseudo-socialista de araque. Quando Lula foi eleito, sua promessa era a de realizar as grandes reformas estruturais que FHC não conseguiu, por comodismo ou incompetência, realizar, e que o país… Read more »

Daglian
Daglian
8 anos atrás

Vader,

Ótimo comentário, como de costume. E a tendência é piorar, o que fará com que o país continue tendo crescimentos pífios e com seus problemas críticos sem solução: educação, infraestrutura, aeroportos, carga tributária excessiva (Custo Brasil).

O populismo destruiu a única oportunidade que o Brasil teve em muito tempo de progredir de maneira sólida, e agora estamos em um ciclo vicioso onde o país vai mal, mas os governantes (de um certo ParTido), como você bem disse, soltam migalhas para o povo, e este os reelege, induzindo nova piora na economia, e assim vamos…

Sds.

giltiger
giltiger
8 anos atrás

O Ives Gandra sempre com este argumento contra os servidores públicos… Comum a todos os pensadores NEOLIBERAIS. A evidente distorção apresentada nos valores pagos na previdência estatal e na previdência geral esconde uma astuta inversão de valores no intuito de diminuir os servidores estatais. Não se discute os altos valores pagos a deputados, senadores, presidente, ministros e indivíduos nomeados em cargo comissionados, mas esta “superelite ” como ele chama é uma minoria dentro da massa dos servidores de carreira. E seu discurso demagógico neoliberal põe os trabalhadores estatais no mesmo saco dos políticos, os trabalhadores estatais que tem seu emprego… Read more »

LuppusFurius
LuppusFurius
8 anos atrás

Vader….
Parabéns, melhor definição do pt que vi até hoje…!!!
Sr. Ives um dos poucos lúcidos do Brasil……

Giordani
Giordani
8 anos atrás

Excelente artigo! Simplesmente excelente! Infelizmente o cidadão de Bem está sendo vencido pelo cansaço. Não existe mais Direita nem Esquerda no brazil. O que existe é um grande empregador. Milhões e milhões de trabalhadores lançam-se diariamente na labuta para sustentar o topo de uma pirâmide. Vivemos uma total inversão de valores, aonde ser e ter retidão, seja moral ou profissional é motivo de chacota. A ideologia por estes defendida foi estuprada num falsa retórica que só serve para se manter no Poder. Eu não vejo perspectiva nenhuma no médio e curto prazo. Lula já avisou que pode voltar e voltará… Read more »

Mauricio R.
Mauricio R.
8 anos atrás

A sugestão, aliás mto pertinente, da “The Economist”, já foi dada:

“Fire, Mr. Manteiga!!!” (o erro foi proposital)

Mas a presidente do alto de uma empáfia absolutamente injustificada, pelo “Pibinho” de 0,6%, o menor por larga margem dentre os BRICS; insiste em se recusar a aceitar o óbvio.

Almeida
Almeida
8 anos atrás

Giltiger, já que você parece entender tanto do assunto, me explique duas coisas: Por que no Mundo inteiro quem quer estabilidade vai para o mercado público e quem quer ganhar bem vai para o mercado privado, mas apenas no Brasil os servidores públicos tem estabilidade E os melhores salários? E por que também tanto ódio, comum a todos os pensadores DE ESQUERDA, contra os empresários brasileiros, quem em sua grande maioria são MICRO e PEQUENOS EMPRESÁRIOS, que empregam a MAIORIA DA POPULAÇÃO, enquanto tem que arcar com os maiores CUSTOS TRABALHISTAS e IMPOSTOS do Mundo? Argumentação HIPÓCRITA por argumentação HIPÓCRITA,… Read more »

Almeida
Almeida
8 anos atrás

Se ao menos os esquerdistas soubessem como é difícil abrir e tocar um negócio nesse país de bosta, não falariam tantas asneiras por aí e se orgulhariam muito menos de terem passado em seus concursinhos públicos…

giltiger
giltiger
8 anos atrás

Almeida não conheces todas as formas de estabilidade do mundo. Cada país dá estabilidade aos seus servidores estatais (OU NÃO) de acordo com sua história, tradições e costumes. No amado EUA os servidores estatais tem muito pouca estabilidade, talvez porque lá é pátria da liberdade corporativa e de lobbys sobre o congresso. Onde o povo e o eleitor conta MUITO POUCO. No Japão não há estabilidade por lei mas mesmo no setor privado QUASE se pode dizer que todo o emprego é estável como o servidor público no Brasil. A estabilidade com concurso publico, no Brasil é fruto da nossa… Read more »

giltiger
giltiger
8 anos atrás

Os servidores de bosta estão aqui para proteger o cidadão não os empresários meu caro.

Almeida
Almeida
8 anos atrás

“massa eleitoral de direita” hahahaha, muito boa essa!

Mas que bom que falas do 1% dos empresários do topo da pirâmide, porque os demais trabalham mais que qualquer um de seus funcionários e tem que vender o carro mais do que usado pra poder pagar o 13o em dia… me sinto menos ofendido.

tpivatto
tpivatto
8 anos atrás

Giltiger:
Os Ives Granda (tanto pai como filho) não são iluminados, nem “iluminatti”. Na verdade, eles pertencem aos quadros da Opus Dei, o que já dá uma idéia do que esses senhores tem na cabeça.
A propósito: não teve um estudo da SRF/MF sobre tributos, por profissões, que indicou que os ditos “empresários” recolhem mais impostos que apenas os “estudantes”?
Sauds.

tpivatto
tpivatto
8 anos atrás

“A economia é, fundamentalmente, uma ciência psicossocial, que evolui de acordo com os impulsos dos interesses da sociedade, cabendo ao Estado garantir o desenvolvimento e o equilíbrio social, e não conduzi-la, pois, quando o faz, atrapalha.”
Para quem passou um bom tempo da(s) faculdade(s) estudando economia, esse foi um conceito inédito e que não encontro fundamento em doutrina econômica alguma: seja em Adam Smith, seja em Marx, seja em J. Maynard Keynes. Em que estudo científico será que se baseou o autor? O Roberto Campos já devia estar gagá, quando aceitou assinar o prefácio da obra desse senhor…

Groo
Groo
8 anos atrás

“Os servidores de bosta estão aqui para proteger o cidadão não os empresários meu caro.”

Proteger de quem?

Groo
Groo
8 anos atrás

50 bi de déficit para atender menos de um milhão de membros da casta superior e ainda tem funcionário público que fala de sua contribuição previdenciária como se ela fosse o suficiente.

MAD DOG
MAD DOG
8 anos atrás

Sempre que se toca no assunto dos “Funcionários Públicos e o seu CUSTO SOCIAL”, seja, sobre estabilidade de emprego, contribuição social, surgem da toca os “Vagabundos de plantão – Ops!!! – os COMUNAS de plantão, que insistem em se manter pré-adolescentes, muitos barbados e de cabelos grisalhos, sonhando em viver do “ESTADO” como se esse gerasse algum tipo de riqueza para o País!!! Rsrs… E claro, na sua maioria (os COMUNAS) são Funcionários Públicos – (O resto deles, não teve ainda capacidade para passar, ou passou num Concurso Público) – vivendo as custas dos pagamentos dos meus impostos e de… Read more »

Almeida
Almeida
8 anos atrás

Pois é, empreender e gerar emprego é crime, legal é mamar nas tetas do Estado.

giltiger
giltiger
8 anos atrás

Cachorro Maluco os índices sociais nos EUA são cada vez piores pois só tem atendimento médico quem tem plano de saúde e quem tem plano de saúde não consegue usá-lo quando precisa pois a legislação avançada americana é totalmente benéfica as empresas de saúde. Os eleitores brasileiros de direita existem e votam no PSDB, Democratas e outros partidos da direita, isto é uma democracia. Durante anos eles votaram em SP contra, na última eleição votaram a favor. Se você acha que os empresários vão cuidar dos interesses do povo e que a lei será respeitada sem a existência de servidores… Read more »

Vader
8 anos atrás

Querer explicar prum FP esquerdista como a banda toca é total perda de tempo…

MAD DOG
MAD DOG
8 anos atrás

“… Cachorro Maluco os índices sociais nos EUA são cada vez piores pois só tem atendimento médico quem tem plano de saúde e quem tem plano de saúde não consegue usá-lo quando precisa pois a legislação avançada americana é totalmente benéfica as empresas de saúde…” Caro, Sr. Pouca Prática! Realmente os EUA passam por um período de crise, filas de sopão, desemprego e todos os estragos que uma crise inflige (É só olhar a história em 29, mas a recuperação já esta acontecendo por lá), realmente o sistema de saúde nos EUA, sempre foi focado a iniciativa privada, e também… Read more »

MAD DOG
MAD DOG
8 anos atrás

Caros:

Na verdade, concordo com a observação do Vader, mas acredito que as vezes muitos “Pré-adolescentes” ou “Pouca Práticas”, se encantam com Sereias, e vale a tentativa de alertá-los!

Mas inssitir é burrice, sendo assim, prefiro discutir os temas que o site se propõe, aliás muito interessante a matéria sobre AV-TM 300.

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