domingo, outubro 24, 2021

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Um necessário retorno à geopolítica

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Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

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Oliveiros S. Ferreira

ClippingMuitos, como Hillary Clinton, compararam a crise na Ucrânia e a incorporação da Crimeia ao Estado russo à crise de 1938, quando Hitler avançou sobre a Checoslováquia. Esqueceram-se de que a Grande Política então se fazia por pactos e alianças e, sobretudo, de que não havia a arma nuclear. Um geopolítico crítico, da velha escola, lembraria que, hoje, a Grande Política se rege pela certeza, garantida, da destruição mútua (MAD), que torna a guerra de fato uma loucura. O que não o impede de observar que o Poder Marítimo, confiante na lucidez dos dirigentes, procura ganhar vantagem sobre o Poder Terrestre, e que a Otan é seu representante ativo. Enquanto estudiosos da geopolítica, devemos refletir sobre a política externa da ilha-continente: preocupada, desde 1898, como Pacífico e obrigada, a partir de 1939, a preocupar-se com a Europa. Em 1919, porém, já buscara impor aos vencedores de 1918 a Sociedade das Nações – da qual não participou. Antes de Pearl Harbour, na conferência do Atlântico, Roosevelt espantara Churchill ao propor que, finda a guerra, de que os EUA ainda não participavam, os povos anglo-saxões deveriam policiar o mundo para libertar os povos do jugo colonial e acabar com todas as guerras. Em 1944, descartando a Inglaterra, propõe que, na ONU, EUA e URSS mantivessem a paz internacional. Stalin aceita com a condição de que os membros permanentes do Conselho de Segurança tenham direito de veto. Em São Francisco, Truman consule novato na Grande Política e na Grande Estratégia, firma- se o grande pacto, cuja validade dependerá do acordo com Stalin, geopolítico à antiga. Como direito de veto, a Grande Política voltou a ser a dos pactos e acordos: Plano Marshall, Otan, Pacto de Bagdá, Pacto de Varsóvia, Otase.

Com o veto, no entanto, a ONU nasce morta enquanto instituição capaz de manter a paz. Continua representando, para os “pequenos” – e para George Bush (pai) durante algum tempo –, o ideal de uma ordem mundial pacífica e justa na distribuição do poder. Não na Europa. Isso se pôde ver na crise da Iugoslávia, quando o equilíbrio do poder ser estabeleceu com a intervenção da Otan e o menosprezo da ONU. Há quem, na Rússia, considere que BorisYeltsin foi uma gente consciente do Poder Marítimo. Representado pelos EUA, o Poder Marítimo buscaria negar à Rússia o livre acesso aos mares que em tese pretendeu isolar o antigo império e impedir a consolidação do Poder Terrestre – que não estaria preocupado com o domínio do “Coração da Terra” (Mackinder), mas com a construção do grande império euro-asiático e sua independência total do Poder Marítimo, cuja Esquadra murmurava a velha canção imperial guerreira de maneira diferente: Rule, America! America rules the waves. E houve quem comparasse Putin a Hitler em suas manobras nos Sudetos, em 1938. Houve também quem, lembrando a História, lembrasse a condenação de Churchill à ação de Chamberlain em Munique e citasse sua frase famosa: “Escolhemos a desonra e a guerra” – preconizando uma solução militar para crise na Ucrânia. Houve ainda quem consideras se Putin um louco. Um ex-comandante da Otan foi mais calmo: a Ucrânia não pertence à Otan e qualquer ação russa não exigirá a intervenção do Ocidente. A Rússia, acrescentou, usa o “poder inteligente”, a combinação do “poder duro” (armas) com o “poder suave” (diplomacia e pressão).

Os geopolíticos russos estão preocupados com a restauração do império. O impasse na Ucrânia reside em que a ONU não tem condições “estatutárias” de deter a ação russa. Os EUA e a Europa, cientes disso, buscam contrapor seu “poder inteligente” (sanções diplomáticas pessoais e econômico-financeiras) aos russos. Descarte- se qualquer referência a “poder duro”: 600 homens enviados aos países-membros da Otan na área são apenas uma satisfação que se dá aos mais inquietos. Para nossa tranqüilidade, MAD governa as ações e impõe a paz. Esquecendo Mackindere Mahan por breves instantes, diríamos que há um ano varealidade geopolítica, ainda que nas névoas da especulação. O Bric nasceu como “nada” – foi a reação à “boutade” de um economista norte-americano preocupado com o crescimento econômico global. Aceito, poucos prestaram atenção ao fato de que, pouco depois de constituído, acrescentou-se ao grupo a África do Sul e temos o Brics. Mais do que por sua população e seu território – e sua influência na África Negra–, a África do Sul é importante por sua posição geográfica. E, no grupo, o Brasil, que tem território, população e posição, não tem como transformar seu “poder suave” (se o tiver) em “inteligente”. Mas o Brics existe como realidade econômico – financeira em potencial e Rússia, Índia e China têm o que dizer caso julgarem necessário afirmar-se com o pacto capaz de se contrapor ao Poder Marítimo em expansão. Em julho, os chefes de Estado do Brics reunir- se – ao em Fortaleza para oficialmente, por enquanto, discutirem problemas relacionados à criação de um banco de desenvolvimento e a um fundo paralelo ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Observando a votação da Assembléia – Geral da ONU em que a anexação da Crimeia foi condenada, um detalhe deveria ter-nos chamado a atenção: os membros do Brics (Rússia à parte) abstiveram-se de condenar seu parceiro. O fato foi registrado por alguns sem preocupação geopolítica e ele passou despercebido – da mesma maneira que não se fala mais sobre a declaração do ministro da Defesa russo a respeito das negociações para a construção de base sem Cuba, Nicarágua e Venezuela. Será interessante ver como o Brasil, ponto de ligação entre a América Cisandina – para muitos, “bolivariana” – e os demais países do Brics, definirá posição diante da crise que, queiramos ou não, consagra o triunfo dos pactos e a falência da ONU. Professor da USP e da PUC- SP, é membro do Gabinete e Oficina de Livre Pensamento Estratégico.

FONTE: Estadão

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Pangloss
Pangloss
7 anos atrás

O autor tentou ser erudito durante todo o seu texto, mas só conseguiu ser pernóstico.
Uma pena. Foi um desperdício de conteúdo, por culto à (má) forma.
Mas a conclusão, ainda que óbvia, é válida: a ONU é uma instituição erguida em homenagem à ingenuidade, à impotência, ao otimismo patológico.

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