quarta-feira, agosto 4, 2021

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Combates na Líbia: a questão estratégica

Destaques

Guilherme Poggiohttp://www.forte.jor.br
Editor da Revista Forças de Defesa

Quando ligamos a TV, lemos o jornal ou abrimos uma página com noticiários na internet somos bombardeados com informações sobre combates entre o governo líbio e rebeldes. Nomes como Brega, Ras Lanuf e Zawiyah são apresentados para o leitor sem que os mesmos tenham a menor noção do que isso representa, onde se localizam e qual a sua importância.

O site da Forças Terrestres, com o propósito de clarear a situação, preparou um texto mostrando a importância estratégica dos locais onde ocorrem os atuais combates e porque eles fazem a diferença para o desenrolar do conflito.

O petróleo na Líbia

Durante as décadas de 1920 e 1930 geólogos italianos levantaram dados e estudaram a região, mas não fizeram descobertas de campos de óleo e gás de caráter comercial. No pós-guerra, com o emprego de novas tecnologias e estudos mais detalhados, italianos, britânicos e norte-americanos identificaram áreas com possíveis ocorrências de hidrocarbonetos.

No início da década de 1950 ocorrências economicamente exploráveis foram identificadas na vizinha Argélia, então sob domínio francês. A notícia deu novo ânimo às pesquisas na Líbia. Em 1956 a companhia norte-americana Esso deu início à campanha de exploração do campo de Zelten (Bacia de Sirte), localizado a cerca de 170 km ao sul da cidade portuária de Brega. Os resultados indicaram existência de um campo gigante com aproximadamente 2,5 bilhões de barris de óleo leve. A produção de Zelten, renomeado Nasser, começou em 1961 e continua até os dias de hoje.

Deste então outras companhias também pesquisaram a região da Bacia de Sidra e encontraram os campos de Amal, Serir, Waha, Defa e Beda com óleo de excelente qualidade. Com a evolução das pesquisas geológicas em outras bacias sedimentares da Líbia, hidrocarbonetos economicamente exploráveis também foram encontrados no leste do país ( Bacias Ghadamis e Muruzq). Porém, os campos de petróleo do não possuem a mesma importância dos campos da Bacia de Sidra.

Junto com as descobertas foram construídos terminais para a exportação de petróleo e derivados, refinarias, oleodutos e instalações de apoio à indústria petrolífera. Atualmente, com um consumo interno baixo a produção anual de 1,8 milhões de barris/dia segue quase toda para o mercado externo.

Os principais terminais para exportação estão localizados ao sul do Golfo de Sidra (Al Sidrah, Ras Lanuf, Al Baryqah, Zawiyah e Al Haruqa) e a oeste de Trípoli (Zawiyah). Existem cinco refinarias, sendo uma em Zawiyah e as demais na região oeste.

Com uma reserva estimada em 41,5 bilhões de barris, a Líbia é o primeiro país do ranking africano em volume e o nono no mundo. Membro da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) desde 1962, o país beneficiou-se muito dos preços praticados na década de 1970, mas foi fortemente prejudicado na década de 1990.

A importância dos locais onde ocorrem os combates

Atualmente os principais combates entre as tropas do governo líbio e os rebeldes concentram-se ao sul do Golfo de Sidra, entre as cidades de Brega e Sirt, e na região oeste da capital Trípoli, principalmente na região urbana de Zawiyah. Com base no exposto acima, fica evidente a importância estratégica destas regiões. Até o ínicio desta semana as grandes refinarias do país (Zawiyah e Ras Lanuf) estavam nas mãos dos rebeldes e quase todos os terminais de exportação de petróleo também.

Há poucos dias o governo líbio realizou um enorme esforço para retomar a cidade de Zawiyah, ocupada pelos rebeldes. Esta cidade, próxima à capital e único porto exportador dos campos petrolíferos do leste do país e possui a segunda maior refinaria. Era vital para a sobrevivência do governo de Kadafi o controle desta importante região. “Porém, está muito longe de representar o ‘momento da virada”.

O domínio dos rebeldes sobre as reservas petrolíferas da Bacia de Sidra é vital para a economia do país. A região responde por 80% das reservas e é responsável por 90% da exportação de petróleo. Enquanto os rebeldes dominarem a região do sul do Golfo de Sidra, a falta de exportação de petróleo e seus derivados estrangularão a economia da Líbia, enfraquecendo o governo central. Portanto, para que o atual governo sobreviva é vital que retome o controle da região do sul do Golfo de Sidra e suas importantes instalações petrolíferas.

Do outro lado do problema

Por outro lado, quem mais sofre com a interrupção da importação de petróleo de origem líbia são os europeus (ver gráfico ao lado). De acordo com estudos ela US EIA, realizados em 2009, a Itália importa cerca de um terço do petróleo líbio. Alemanha, França e Espanha respondem por outro terço. Outros países europeus consomem perto de 14% do petróleo exportado.

E, ao contrário do que muitos podem pensar, somente 5% do petróleo seguem para os EUA, metade do que a China continental importa da Líbia. Não muito longe dos EUA está o Brasil, que consome 3% da produção.

FOTO: DTN News

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Observador
Observador
10 anos atrás

Não sei, me parece estranho que a população tenha se armado e se organizado a ponto de expulsar os partidários de Kadafi. A Líbia está muito diferente do Egito. Lá não são protestos, mas uma verdadeira guerra civil. Para mim, os rebeldes estão recebendo dinheiro, e, talvez, até treinamento, armamento e combatentes do exterior. De onde vem o dinheiro? Por mais patriota que o soldado/civil combatente seja, ele tem que comer. A lista de “bons samaritanos” é de arrepiar os cabelos: Irã, Hezbollah, talvez a Al-Qaeda. Pelo lado do Kadafi, ele tem muito mais condições de vencer se a guerra… Read more »

Vader
10 anos atrás

Realmente, tá muito estranho essa resistência toda dos rebeldes. De onde surgiram todas essas armas? E o monte de nego atirando pro alto e gritando “Alahu Akhbar” a todo momento?

Muito, muito estranho. Quem teria armado, organizado, treinado e suprido os rebeldes em tão pouco tempo, e tão bem?

Ivan
Ivan
10 anos atrás

Poggio,

Excelente matéria, e com mapas ainda melhores. 🙂

Parabéns!

Sds,
Ivan.

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