domingo, dezembro 4, 2022

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Impressões de um oficial do US Army sobre os exércitos da Rússia e da Ucrânia antes da guerra – PARTE III

Destaques

Guilherme Poggio
Guilherme Poggiohttp://www.forte.jor.br
Editor da Revista Forças de Defesa

por Mark Hertling (*)

Depois do meu tempo

O Coronel-General Vorobyov e eu perdemos contato depois que me aposentei em 2013 e ele se aposentou em 2014. Mas recebi uma nota do embaixador da Ucrânia me dizendo que meu amigo havia defendido uma tese de doutorado intitulada “Criação e Desenvolvimento das Forças Terrestres das Forças Armadas da Ucrânia”. Seu documento foi a base para o livro branco do governo ucraniano sobre o futuro do exército ucraniano. Um ano após sua aposentadoria, Henadii foi chamado de volta ao serviço para ser o presidente da Universidade de Defesa Nacional da Ucrânia (sua escola de guerra, para coronéis seniores e generais juniores), e serviu lá por mais de um ano. Ele morreu de ataque cardíaco em 11 de fevereiro de 2017, e ouvi recentemente que a Ucrânia o homenageou dando o nome dele à rua em frente ao colégio de guerra.

O Centro de Treinamento Ucraniano em Yavoriv também passou por grandes mudanças a partir de 2014, provavelmente impulsionadas tanto pela invasão russa da Crimeia e do Donbas quanto pela visão de Vorobyov. Em abril de 2015, elementos da 173ª Brigada Aerotransportada estacionada na Itália foram novamente enviados para Yavoriv e lá estabeleceram um programa operacional contínuo chamado “Fearless Guardian”. O programa era progressivo, treinando desde habilidades individuais de soldados até operações de batalhão, tudo baseado nas lições aprendidas nas zonas de combate do leste e do sul da Ucrânia. A energia crescente em Yavoriv mostrou a necessidade de um centro de treinamento aprimorado permanente, inspirado nos programas de treinamento do Exército dos EUA nos Estados Unidos e na Alemanha. Em dezembro de 2015, o Exército dos EUA na Europa estabeleceu formalmente o Joint Multinational Training Group – Ucrânia ( JMTG-U), onde uma equipe multinacional de americanos, poloneses, canadenses, lituanos e britânicos começou a treinar batalhões ucranianos como equipes de armas combinadas. O sargento-mor Davenport me enviou uma nota há alguns anos dizendo que a Ucrânia havia estabelecido formalmente um corpo de suboficiais, com treinamento padronizado e requisitos de liderança. A visão de Henadii tornou-se realidade, acelerada pelas urgências da ameaça existencial russa.

Quanto aos russos, seus recentes fracassos no campo de batalha – suas manobras encenadas, falta de desenvolvimento de liderança, ausência de um plano logístico para apoiar as operações, incapacidade de coordenar e conduzir operações conjuntas ar-terra-mar e uso contínuo de soldados conscritos em missões críticas – todos indicam uma falha maior em modernizar seu exército. Assim como a Rússia e a Ucrânia seguiram rumos políticos diferentes nos últimos 30 anos, seus exércitos também tomaram direções distintas. Enquanto a democracia da Ucrânia ainda está tratando de questões de corrupção do governo, essas violações empalidecem em significado e alcance para o desfalque, suborno e corrupção do ministro da Defesa russo Sergei Shoigu, seu antecessor Anatoly Serdyukov e o próprio Vladimir Putin. O coronel-general Chirkin provou que estava agindo de acordo com os modelos de sua liderança sênior.

Minhas experiências com os exércitos russo e ucraniano ao longo de duas décadas me fizeram lembrar de uma passagem de Os Centuriões de Jean Larteguy . Em um momento de frustração, um oficial francês resume os dois propósitos que um exército pode servir:

Eu gostaria que [a França] tivesse dois exércitos: um para exibição com lindas armas, tanques, soldadinhos, bastões, generais distintos e trôpegos, e queridos pequenos oficiais de regimento que estariam profundamente preocupados com os movimentos intestinais de seu general ou as pilhas de seu coronel , um exército que seria exibido por uma taxa modesta em todas as feiras do país. A outra seria a verdadeira, composta inteiramente por jovens entusiastas em uniformes camuflados, que não seriam exibidos, mas de quem seriam exigidos esforços impossíveis e a quem seriam ensinados todos os tipos de truques. Esse é o exército no qual eu gostaria de lutar.

Apesar de toda a sua retórica belicosa e desfiles do Dia da Vitória na Praça Vermelha, às vezes me pergunto se Putin e Shoygu sabem a diferença entre os dois tipos de exércitos. Os ucranianos com certeza sabem.

(*) o texto acima foi extraído de uma matéria publicada em março deste ano no site The Bulwark, Mark Hetling foi comandante da Forças Norte-americanas na Europa.

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Zé lesqui
Zé lesqui
1 mês atrás

Um exército é apenas reflexo da sua sociedade de origem. A Rússia e …outras nações por aí, não evoluiu seu pensamento. Putin é uma falácia, é uma volta ao passado da URSS, onde o Povo vivia enganado e explorado, exatamente como agora vlad faz. A Ucrânia parece que optou por se livrar do seu passado socialista soviético e está pagando com sangue o preço dessa decisão. Outros preferem voltar para a mentira ….e através de eleições, limpas ou não.

Nativo
Nativo
Reply to  Zé lesqui
1 mês atrás

A Ucrânia optou pelo quê? Democracia e seriedade política? Precisa conhecer mais desse país. O que vale tanto para lá, como cá.

tadeu54
1 mês atrás

Está sequência de artigos diz muito sobre a Guerra da Ucrânia, e traz conclusões lógicas sobre o que virá a seguir.

Sincero Kings
Sincero Kings
Reply to  tadeu54
1 mês atrás

A chegada dos novos recrutas “ZERO” só irá aumentar a humilhação russa. Eles estão muito, mas muito longe mesmo de serem competentes na guerra moderna. O mito alimentado por alguns fanáticos caiu por terra. A constante repetição das ameaças nucleares é o sinal mais claro da derrota militar na Ucrânia, um recado de fraqueza.

Sagaz
Sagaz
1 mês atrás

Agora fica a questão, as FA brasileiras pendem mais para qual lado? Eficiência ou pose?

Wellington Jr
Wellington Jr
Reply to  Sagaz
1 mês atrás

Eficiência, visto que não fazemos tantos desfiles nem pomposidades e quando o fazemos a demonstração é sempre de doutrina e liderança, não d exibição de armas. Realizamos exercícios com vários países e sempre somos elogiados pela nossa conduta e liderança conseguindo alguns feitos muito elogiados.

Carlos Gallani
Carlos Gallani
Reply to  Wellington Jr
1 mês atrás

Não fazemos desfiles pq não tem com o que desfilar, aquele tanque fumacento na explanada ainda está fresco na memória!

Wilson Look
Wilson Look
Reply to  Carlos Gallani
1 mês atrás

O que teve no 7 de setembro, foi o que?

Foi bonito de ver.

juggerbr
juggerbr
Reply to  Sagaz
1 mês atrás

Nem um, nem outro… Uma vida de conforte e regalias certamente.

Lucena
Lucena
Reply to  Sagaz
1 mês atrás

Que OM nunca passou por um banho de loja, horas de treinamento de ordem unida e faxina para visita de um general? Não estrangeiro, como no exemplo do artigo, mas de dentro de casa?

No Brasil – e, arrisco dizer, em quase toda Força em tempos de paz – a forma é mais importante que a função. Quantos não usam o fato do batalhão ter banda própria como critério pra escolher o próximo comando?

Basta ver a diferença brutal entre OMs mais operacionais e outros quartéis.

BVR
BVR
1 mês atrás

O Brasil tem buscado a ampliação do profissionalismo nas suas tropas, acredito eu que desde o resultado das Falklands. Aí mais de 40 anos depois dessa guerra finalmente estamos ampliando o numero de unidades com capacidade expedicionária para além dos fuzileiros e paraquedistas. A força de cavalaria tem sido alvo (nos últimos 20 anos desses 40) também de um aumento nas suas capacidades. Este é o ideal ? Não, não é. Mas estamos caminhando, ainda que lentamente.
Falando em tropa paraquedista, guerra na Ucrânia e capacidade expedicionária…a tropa paraquedista russa tem encaixe perfeito no cerne da matéria apresentada.

Henrique
Henrique
Reply to  BVR
1 mês atrás

O que dificulta nosso caso é que não há perspectiva e nem experiência em combate de alta intensidade. O que há é GLO ou missão de paz no exterior, isso cria dificuldades institucionais para criar uma força de combate realmente capaz, além de uma força policial.

BVR
BVR
Reply to  Henrique
1 mês atrás

Olá Henrique !
Acho que a expressão “nada além de uma força policial” não descreve com exatidão as capacidades das forças.
Não que sejamos o suprassumo de alguma coisa aqui na AL; mas também não estamos em nível tão simplório assim de resposta ao cenário que seja de emprego.
Infelizmente, ou felizmente, os cenários de emprego tem sido manutenção paz e GLO. Talvez, num cenário mais quente (imposição de paz) surja a oportunidade para transformar opiniões sobre as capacidades das forças.
Forte abraço.

Marcelo
Marcelo
Reply to  BVR
1 mês atrás

O Brasil não precisa ser uma potência militar, uma vez que a nossa posição geográfica no mundo nos afasta das zonas de conflito e temos boas relações com todos os nossos vizinhos sul americanos. Nossa diplomacia também é, historicamente, eficiente e nos ajuda a manter boas relações com todos os países do mundo. Mas como o seguro morreu de velho, temos obrigação de controlar nossas fronteiras terrestres e marítimas e ter domínio sobre o nosso espaço aéreo. Parece … e sublinho parece … que as forças armadas brasileiras vem aprimorando, dentro de suas possibilidades orçamentárias, suas capacidades. O Exército, a… Read more »

BVR
BVR
Reply to  Marcelo
1 mês atrás

Olá Marcelo !!
Sim, o ponto importante, tanto na sua quanto na minha opinião, é que as forças não estacionaram no tempo como o texto fala dos russos.
Forte abraço

Wellington Jr
Wellington Jr
1 mês atrás

O texto deixa claro que a Guerra da Ucrânia vai ser o maior vexame militar Russo desde a guerra do Afeganistão. O maior problema apresentado no texto é que a força russa é só de desfile pois quando colocada a teste desmorona devido a falhas infantis que não deveriam existir em um exército moderno. Temo que as constantes derrotas faça Adolf Putin se cercar de lunáticos como como o chefe checheno e outros loucos que vagueiam esperando uma brecha para se enfiar na liderança russa e coloca seus sonhos mais podres em ação.. Há imagens de centenas de soldados recém… Read more »

LUIZ
LUIZ
Reply to  Wellington Jr
1 mês atrás

Tem até um vídeo de uma rendição de soldados russos e depois se descobriu ser uma encenação grotesca encenada pelos próprios ucranianos. E não foi so esse vídeo. Tem que ter muito cuidado com o que é veiculado na internet.

Wellington Jr
Wellington Jr
Reply to  LUIZ
1 mês atrás

O cabeça de vento o vídeo que você tá citando é o vídeo de propaganda para que os soldados russos entreguem veículos em troca de dinheiro e rendição digna. O vídeo que estou falando o soldado russo está com o braço em início de necrose com muita larva viva consumindo o ferimento. Não tem como encenar isso e qual a utilidade de encenar isso? Outra coisa os vídeos que mais tem é de soldado russo rendido e como forma de provar mostram os documentos dos mesmos. Quem tem de ter cuidado é você com sua crença de que o exército… Read more »

LUIZ
LUIZ
Reply to  Wellington Jr
1 mês atrás

Também tem muitos vídeos de soldados ucranianos se rendendo cabeça oca.

LUIZ
LUIZ
Reply to  Wellington Jr
1 mês atrás

Tem esse aqui de um soldado ucraniano com o braço ferido cheio de larvas.
https://youtu.be/iSB66b3h3Gc

Victor Filipe
Victor Filipe
Reply to  LUIZ
1 mês atrás

Era um Russo. esse uniforme não é ucraniano nem aqui nem em Moscou. ainda pra ver pela bandeira no braço de quem ta tratando ele que o medico é Ucraniano.

Marcelo
Marcelo
1 mês atrás

Independência se constrói com democracia, desenvolvimento social e crescimento econômico. Soberania se mantém com forças armadas bem treinadas e equipadas com materiais militares modernos com capacidade de identificar rapidamente qualquer ameaça na terra, no mar, no céu e no espaço sideral e com aptidão para se deslocar rapidamente, interceptar com precisão e neutralizar com segurança tal ameaça, bem como dissuadir qualquer tentativa futura de agressão. Parece que a Ucrânia, com apoio econômico e militar da OTAN e dos EUA, caminha nessa direção. Parece estar nascendo, com as devidas diferenças históricas, uma versão maior de Israel.

Plinio Jr
Plinio Jr
Reply to  Marcelo
1 mês atrás

Indiferente ao resultado do conflito é certo que os ucranianos não serão mais tão relapsos com suas defesas , tendo muito apoio da Comunidade Europeia e dos EUA , a Ucrania vai se tornar um osso duro de roer para as ambições russas em direção a Europa Ocidental …

Renato B.
Renato B.
1 mês atrás

Acho que exércitos são naturalmente conservadores, independente da ideologia, tem uma forte cultura organizacional e um ethos específico. Fazer mudanças culturais num grupo como esse é algo difícil, demanda gente habilidosa e leva tempo. Se os Ucranianos conseguiram fazer isso nos últimos anos estão de parabéns.

Willber Rodrigues
Willber Rodrigues
Reply to  Renato B.
1 mês atrás

Os ucranianos foram obrigados a mudar, na marra, por causa de uma invasão e de um inimigo mais poderoso do outro lado de suas fronteiras.
Quando não se tem isso, sobram desculpas de usar qualquer sorte de material ou doutrinas obsoletas, porque “pro nosso T.O. tá bom…”

Marcos
Marcos
1 mês atrás

General russo utilizando tecnologia de ponta no campo de batalha, totalmente digital, o que garante a mais alta taxa de consciência situacional nunca antes vista. Isso mostra pq a Rússia é a segunda maior potência militar do mundo, imbatíveis.

Ontem foi divulgado que os ucranianos estão pintando seus blindados com a marca Z

Os russos sequer dispõem de sistema IFF para identificar amigos de inimigos. Os ucranianos penetraram fundo com a marquinha z em seus tanques. Que grande palhaçada é esse exército russo.

general russo.png
Willber Rodrigues
Willber Rodrigues
Reply to  Marcos
1 mês atrás

Essa foto fica ainda mais engraçada quando você lembra que, até ontem, os dois lados usavam equipamentos, armas e uniformes praticamente iguais.

LUIZ
LUIZ
Reply to  Willber Rodrigues
1 mês atrás

Teve um cidadão que falou os russos ainda usava tubos de raios catódicos nas telas dos radares das defesas antiaéreas. S-400,400 ou 500 kkk. O caras se valem de uma foto ou um video ninguém sabe qual data ou lugar pra fazer um julgamento.

Willber Rodrigues
Willber Rodrigues
Reply to  LUIZ
1 mês atrás

Concordo que não dá pra tirar conclusões por foto.
Mas a partir do momento que, passado meses de guerra, a Ucrânia continua tendo sistemas AA, centros de comando e controle, uma parte de sua força aérea ainda atuantes e ainda consegue fazer manobras ofensivas, e que a Russia ainda não tem controle aéreo sobre seus próprios territórios ocupados, é algo a se pensar…

LUIZ
LUIZ
Reply to  Willber Rodrigues
1 mês atrás

Até os próprios russos no Telegram acham essa guerra muito estranha.

LUIZ
LUIZ
Reply to  Willber Rodrigues
1 mês atrás

O que falta aos russos é se adequar as guerras modernas. Isso vai demorar muito tempo.

Andre
Andre
Reply to  Marcos
1 mês atrás

Como diria o Nilon, o Z bate..

Andre
Andre
1 mês atrás

Esta talvez seja a maior vantagem das FAs americanas: sua experiência continua. Depois da ww2, os EUA nunca ficaram muito tempo sem lutar, especialmente muito longe de casa.

Por mais bem treinados que os chineses possam estar, eles não têm a experiência americana, o conhecimento adquirido em campo, após tentativas e erros.

Jagdv#44
Jagdv#44
Reply to  Andre
1 mês atrás

Nesse contexto, a USN é imbatível.

naval762
naval762
1 mês atrás

“Eu gostaria que [a França] tivesse dois exércitos: um para exibição com lindas armas, tanques, soldadinhos, bastões, generais distintos e trôpegos, e queridos pequenos oficiais de regimento que estariam profundamente preocupados com os movimentos intestinais de seu general ou as pilhas de seu coronel , um exército que seria exibido por uma taxa modesta em todas as feiras do país. A outra seria a verdadeira, composta inteiramente por jovens entusiastas em uniformes camuflados, que não seriam exibidos, mas de quem seriam exigidos esforços impossíveis e a quem seriam ensinados todos os tipos de truques. Esse é o exército no qual… Read more »

Rafael
Rafael
1 mês atrás

Grupo Wagner recrutando na América Latina. Hora de mostrar a força do temível soldado brasileiro aos imperialistas da OTAN e auxiliar o aliado estratégico dos BRICS que tanto nos agracia com seus fertilizantes.

Incutir medo no inimigo que quer roubar nossas riquezas naturais e acelerar a nova ordem mundial multipolar. Oportunidade única de um ganha-ganha.

Nacionalistas tupiniquins, eis o momento da glória!

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