A História Militar e o Cinema: ‘Rambo – Programado para Matar’ (1982)

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Sérgio Vieira Reale
Capitão-de-Fragata (RM1)

“Eles derramaram sangue primeiro, não eu!”

As adaptações audiovisuais de livros fazem parte da história do cinema. Em 1982, o filme “Rambo: Programado para Matar” foi baseado no livro “First Blood” do escritor canadense David Morrell, que foi publicado em 1972.

Neste livro, um veterano da Guerra do Vietnã (1959-1975) quando retorna aos Estados Unidos da América (EUA) não consegue se readaptar à sociedade. Ele recebe um tratamento hostil, é deprezado, não consegue emprego e possui um ressentimento por não ser reconhecido em seu próprio país.

Ao mesmo tempo carrega o passado traumático da guerra, problemas e feridas abertas de natureza psiológica que seriam abordadas no filme.

O sucesso do livro, que é um retrato muito contundente das consequências da Guerra do Vietnã sobre a sociedade norte-americana, despertou o interesse de produtores para fazer a adaptação para o cinema. Fato que só ocorreria dez anos após o lançamento do livro, que foi traduzido para 26 idiomas.

Cabe mencionar que foi um dos primeiros romances a tratar do transtorno de estresse pós-traumático. No livro, Rambo é um psicopata que atira para matar. No filme, o personagem tem um outro perfil.

Segundo Francis Vanoye e Anne Goliot-Lété no livro “Ensaio sobre a análise fílmica”. Papirus, 1994. p. 55: “Em um filme, qualquer que seja seu projeto (descrever, distrair, criticar, denunciar, militar), a sociedade não é propriamente mostrada, é encenada.

Em outras palavras, o filme opera escolhas, organiza elementos entre si, decupa no real e no imaginário, constrói um mundo possível que mantém relações complexas com o mundo real: pode ser em parte seu reflexo, mas também pode ser sua recusa”.

O filme, lançado em 1982 e filmado no  Canadá, foi um sucesso. Vários atores (Clint Eastwood, Robert de Niro, Al Pacino e Steve McQueen) haviam sido selecionados para o papel de John Rambo. O personagem, que acabou sendo interpretado por Sylvester Stallone, foi inspirado em James Gordon, militar das forças especiais norte-americanas conhecido como Go Britz. Ele, assim como seu personagem, também foi condecorado com a Medalha de Honra.

Rambo é um ex-boina verde e veterano solitário da Guerra do Vietnã. Após sete anos do término da guerra, ele chega numa casa em busca de um amigo que esteve com ele na guerra.

Ao tomar conhecimento da morte do amigo, motivado por um câncer causado pela guerra química trazida do Vietnã, ele continua vagando por uma estrada e entra na cidade de Hope, no Estado de Washington. Ele é uma vítima da sociedade que ele tentou defender no Vietnã. Logo na chegada, ele é interceptado pelo Xerife Will Teasle, principal antagonista de Rambo, que considera a presença dele indesejável na cidade.

Desse modo, ele acaba sendo injustamente preso sob acusações de vadiagem, resistência à prisão e posse ilegal de arma (faca). Quando está na delegacia lembranças da guerra voltam a sua mente até que ele reage a prisão. Assim sendo, após lutar com vários policiais, consegue fugir da delegacia utilizando uma moto e se refugia numa floresta. A partir daquele momento, começa uma grande caçada pelas forças de segurança para prendê-lo.

Na floresta, Rambo utiliza técnicas de guerra na selva contra os policiais que o perseguem.

Nesse sentido, os mesmos começam a ficar psicologicamente afetados e descobrem que estão enfrentando um militar das forças especiais. Desta forma, um bom exemplo é a “Estaca Punji”. Armadilha de origem asiática camuflada na relva com bambus perfurantes que podem possuir agentes infecciosos para atingir os pés ou as pernas do combatente inimigo.

O Coronel Samuel Trautman (Richard Crenna), mentor de Rambo, teve um papel muito importante na mediação entre o combatente e as forças de segurança.

Naquele período, o governo dos Estados Unidos da América (EUA) estava tendo que lidar com a situação dos veteranos do Vietnã. Consta que muitos ativistas naquela época eram contra a guerra e discriminavam os militares que haviam combatido no Vietnã.

O filme é dinâmico e tem duração de 90 minutos. Durante as filmagens os atores sofreram várias lesões. Na delegacia, um ator teve o nariz quebrado na briga com Stallone, que fraturou uma costela na queda do penhasco.

Finalmente, livro e filme tinham finais diferentes. O filme em sua versão original terminava com o suicídio do combatente. Os produtores decidiram que talvez haveria uma continuação e eliminaram a cena, fazendo com que John Rambo tivesse outro destino.

O filme traz uma mensagem crítica a sociedade norte-americana considerando a forma como os veteranos foram tratados após a Guerra do Vietnã.

  • Filme: Rambo – Programado para Matar (1982)
  • Diretor: Ted Kotcheff
  • Atores Principais: Sylvester Stallone, Richard Crenna e Brian Dennehy
  • Disponível em: Amazon Prime Video / Canal You Tube

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E SITES CONSULTADOS

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José 001
José 001
15 dias atrás

Lembrei de quando ia em locadora alugar fitas de vídeo VHS.
Muitos nem vão saber do que estou falando.

Last edited 15 dias atrás by Alexandre Galante
Camargoer.
Camargoer.
Reply to  José 001
15 dias atrás

Pois é.. a biblioteca resiste, mas a videolocadora sumiu…

LUIZ
LUIZ
Reply to  José 001
15 dias atrás

Assisti no SBT em 1987 no Cinema em Casa. TV preto e branco que lotava na sala pra assistir filmes. No ano seguinte a Globo exibiu Rambo 2. O melhor dos 3 filmes Rambo dos anos 80 foi o 3.

Sulamericano
Sulamericano
Reply to  LUIZ
14 dias atrás

O Rambo 3, na minha opinião, é o terceiro pior filme da série.
O primeiro é um grande filme e o segundo bem mais ou menos.

Além disso, a mensagem no final do 3° filme não envelheceu muito bem…

Sergio
Sergio
Reply to  José 001
14 dias atrás

Eu lembro e como.

Até o cheiro das caixinhas aonde vinham as fitas.

Panasonic G9 na veia!

Ps: Junto aos rambos, sexta feiras 13 e
Quetais sempre vinha um ” intruso”…rs

Willber Rodrigues
Willber Rodrigues
15 dias atrás

O primeiro Rambo é atemporal, filmaço, que mostra bem como os veteranos do Vietã foram “abandonados” pelo governo e sociedade.
Destaque também pra dublagem original BR.

Uma pena que os outros Rambos ficaram genéricos e deixaram esses questões de lado….

Leandro Costa
Leandro Costa
15 dias atrás

A cena com o final original foi filmada e é possível encontrá-la no YouTube. Mas o final original, em audiências ‘teste’ não foi bem aceita. Daí a mudança para a prisão de Rambo.

O Rambo original é um bom filme.

Camargoer.
Camargoer.
Reply to  Leandro Costa
15 dias atrás

Olá Leandro. Também considero o final do libro mais apropriado.. Hollywood tem certa dificuldade em fazer filmes com finais “down”. Lembro do final de “Chinatown” e “Perdidos na noite” e a “Noite dos desesperados” como excelentes exemplos de finais “down”. Sou fã de “Rambo, programado para matar”. Também sou fã de “Rock um lutador” (as continuações são muto fracas). Uma das melhores partes do filme é quando o Xerife critica Rambo por usar uma jaqueta com “bandeiras” (no caso, é um jaqueta militar com a bandeira dos EUA). Filmaço… vale assistir repetidas vezes. Curiosamente, Rambo não mata ninguém.. ainda que… Read more »

Leandro Costa
Leandro Costa
Reply to  Camargoer.
15 dias atrás

O primeiro Rocky é excelente. O segundo é como um repeteco do primeiro, ao invés de continuação. Mas confesso que também gostei de Rocky III apesar de ser mais fraco que o primeiro. Os outros não me interessaram.

Existe uma conexão entre Rambo, e Magnum, por incível que pareça. Rambo acabou sendo produzido porque Magnum estava fazendo sucesso. Foi a primeira série de TV à mostrar veteranos do Vietnã sendo pessoas produtivas, ainda que lidando com traumas de guerra.

Camargoer.
Camargoer.
Reply to  Leandro Costa
14 dias atrás

Olá Leandro.. são poucos os filmes cujas sequências são melhores ou tão boas quanto o primeiro…

a exceção são os casos nos quais as sequências foram pensadas desde o início, como no caso do Harry Potter.

Poderoso Chefão 2 e 3 são inferiores ao primeiro. A segunda e a terceira trilogia de StarWars são piores que a trilogia inicial.

Rambo, Rocky, etc etc.. todas as sequências são piores

Maurício.
Maurício.
15 dias atrás

Tenho até hoje o bonequinho do Rambo, da glasslite, tenho também as fotos do meu aniversário com o tema Rambo, faixa vermelha na cabeça e fuzil na mão! 😂
Pena que até para o Rambo o tempo é implacável, mas até que gostei do último filme, principalmente quando ele joga a cabeça do maluco no meio da estrada!

Sulamericano
Sulamericano
Reply to  Maurício.
14 dias atrás

Tem muita gente aqui no fórum que ainda se veste assim, mesmo depois de “adulto”.

Clésio Luiz
Clésio Luiz
15 dias atrás

Quando criança eu gostava mais do segundo filme, pois tinha mais ação que o primeiro.

Mas depois de adulto eu pude apreciar melhor a mensagem do primeiro filme. O final mostra que, dando uma chance, Stallone sabe atuar, não sendo um simples brutamontes (taí uma palavra que não se usa mais hoje…). A cena onde Rambo explode em frustração dizendo “no exército eu pilotava equipamentos de 1 milhão de dólares. Aqui fora eu não consigo um emprego estacionando carros” atinge forte, mesmo eu não tendo passado pela experiência.

Agora aprecio mais o primeiro que o segundo filme.

Marcelo Soares
Marcelo Soares
Reply to  Clésio Luiz
14 dias atrás

Perfeito comentário. O mesmo sentimento por aqui. Depois de adulto percebemos a mensagem de Rambo I. É um dos melhores filmes que eu já assisti, trazendo excelentes memórias da infância. Parabéns aos editores por essas matérias.

Wagner
Wagner
15 dias atrás

O filme passou uma mensagem sobre o abandono de veteranos. E nada mudou as ruas dos EUA estão cheia de veteranos de guerra implorando por esmolas.

Macgaren
Macgaren
15 dias atrás

Única da série que é bom, os outros viram porradaria dos anos 80.

Sempre lembro daquela cena do rambo curando a ferida com polvora hehe

Bispo de Guerra
Bispo de Guerra
14 dias atrás

O lado politico de hollywood … exaltando o herói americano , sempre lutando contra os poderosos “tirânicos”(no Vietnã quem foi o tirânico..rs)…antes era John Wayne contra os “malvados” índios(só esqueceram de retratar o porque dessa “maldade”) …ou um Lawrence da Arábia “eurocentricamente” liderando os estereotipados “árabes incultos”…(na ciência, medicina, matemática nortearam o saber)… 🙃

Camargoer.
Camargoer.
Reply to  Bispo de Guerra
14 dias atrás

Olá Bispo.

Rambo 2, 3… etc… são patriotadas… Rambo 1 é o contrário. É uma discussão sobre a violência policial, sobre o preconceito e intolerância, sobre uma violência velada da sociedade dos EUA…

Bispo de Guerra
Bispo de Guerra
Reply to  Camargoer.
14 dias atrás

Mais o “ex combatente do Vietnã” é o mote do enredo… aí que tem que “cutucar”.

É da cultura americana, sentimentalizar seus soldados …ex combatentes do Vietnã viraram heróis por lá… heróis do que ? Os EUA tomaram uma surra , de tirar 7 cores por lá, saíram com as calças arriadas …a maioria que sobreviveu, se mantinha a base de N tipos de drogas …

Camargoer.
Camargoer.
Reply to  Bispo de Guerra
13 dias atrás

Olá Bispo, Você tem razão… existam vários filmes que abordam a questão do veterano do Vietnã… Nascido em 4 de julho, O franco atirador, Amargo Regresso, Platoon, Apocalipse Now…. Em Rambo, a questão do veterano de guerra é o primeiro plano… existem outros planos, como a questão da corrupção e violência policial… uma coisa curiosa é o tamanho do “departamento de polícia” da cidadezinha pacata… É enorme. Outra questão discutida é o paralelo entre a violência da prisão no sudeste asiático com a violência dentro do sistema prisional dos EUA. Perceba que na pacata cidadezinha, todos os policiais são brancos… Read more »

Otto Lima
Reply to  Camargoer.
7 dias atrás

A propósito, na mesma época de “First Blood”, David Caruso atuou no filme “An Officer and a Gentleman” (A Força do Destino), com Richard Gere, Louis Gossett Jr. e Debra Winger.

Last edited 7 dias atrás by Otto Lima
Wellington Junior
Wellington Junior
Reply to  Bispo de Guerra
13 dias atrás

Desculpa, mas você ao menos estudou algo sobre a guerra do Vietnã? Fazer essa afirmação de que os EUA perderam a guerra do Vietnã é algo que só ouço de quem nunca estudou a guerra de fato.

Leandro Costa
Leandro Costa
Reply to  Wellington Junior
11 dias atrás

Não, ele não faz a menor idéia do que está falando. Certamente aprendeu assistindo filmes, ou coisa parecida e está papagaiando as lendas urbanas de sempre, pra variar. Mas eu sinceramente nem tento corrigir mais. Não vale à pena, Wellington.

Otto Lima
Reply to  Wellington Junior
7 dias atrás

Wellington, guerra no mundo real não é como em um jogo de videogame, onde ganha quem mata mais inimigos. Isso é papinho de aborrecente incel. No mundo real, ganha a guerra quem atinge seus objetivos estratégicos ou impede o inimigo de fazer isso. Os Estados Unidos PERDERAM a Guerra do Vietnã porque NÃO atingiram o seu objetivo, que era deter a expansão do socialismo no Sudeste Asiático. O Vietnã foi unificado sob um regime socialista e os vizinhos Camboja e Laos também passaram a ser governados por regimes socialistas.

Last edited 7 dias atrás by Otto Lima
Wilson Look
Wilson Look
Reply to  Otto Lima
7 dias atrás

Bom até onde eu sei, a guerra em si, terminou antes da unificação do Vietnã, sendo que nesse intervalo os EUA reduziram drasticamente a sua presença no Vietnã do Sul e o envio de equipamentos militares para eles, enquanto no norte continuou recebendo mais e mais equipamentos militares e assim lançaram uma nova invasão que o sul não tinha como resistir e os EUA não interviram devido a sua situação interna.

Leandro Costa
Leandro Costa
Reply to  Otto Lima
7 dias atrás

Sim, e não. Os EUA foram defender o Vietnã do Sul sob a premissa da Teoria do Dominó, que dizia que se um país no Sudeste Asiático caísse para o comunismo, o restante cairia, como se fossem uma fileira de dominós.

Os EUA perderam a guerra porque o Vietnã do Sul foi conquistado pelo norte, sendo reunificado pelo comunismo, mas ao mesmo tempo a Teoria do Dominó provou não ser verdadeira, visto que a Tailândia continuou de pé.

Orivaldo
Orivaldo
Reply to  Bispo de Guerra
14 dias atrás

Opa, não poderia faltar seu comentário sem sentido algum. Continue firme

Bispo de Guerra
Bispo de Guerra
Reply to  Orivaldo
14 dias atrás

Obrigado, fico feliz em ventilar mais uma cabeça cheia de monções ..🙃

Macgaren
Macgaren
Reply to  Bispo de Guerra
14 dias atrás

Mais 2 comentarios ruins + R$20 vc pode ganhar uma coca cola de 2 litros.

Groosp
Groosp
14 dias atrás

O livro é sobre uma disputa de egos entre o Rambo e o Xerife. O estopim foi um abuso de autoridade por parte do xerife que escalou.

Orivaldo
Orivaldo
14 dias atrás

Um dos melhores filmes que já assisti. Os próximos não gostei tanto

Rafaelvbv@hotmail.com
Rafaelvbv@hotmail.com
13 dias atrás

Trautman – “Quem você pensa que é decidindo quem vive ou morre? Você se acha Deus?”
Rambo- “Deus perdoa, Rambo não!”
Absolute cinema…

Nilton L Junior
Nilton L Junior
13 dias atrás

Depois da surra Russa nos ucras a indústria do cinema atlanticista, vai ter que ser muito criativo para criar uma retórica do fracasso com sucesso na Ucrânia.

Orivaldo
Orivaldo
Reply to  Nilton L Junior
13 dias atrás

que devaneio kkkkkkk

Nilton L Junior
Nilton L Junior
Reply to  Orivaldo
12 dias atrás

torcedor detect

Henrique
Henrique
Reply to  Nilton L Junior
10 dias atrás

23:59 “Depois da surra Russa nos ucras”
00:00 “torcedor detect”

se decide ai cara.. ou vc é torcedor ou ficarelinchando que os outros são.. os dois não da

Last edited 10 dias atrás by Henrique
Antonio Palhares
Antonio Palhares
12 dias atrás

A forma como uma sociedade doentia. Que acredita na propaganda de seus valores provinciais, trata aqueles que arriscam suas vidas para defendê-la . O primeiro Rambo chega a ser cativante.

Joli Le Chat
Joli Le Chat
10 dias atrás

Coronel James Braddock está pedindo para aparecer nesta série de história militar e cinema.