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O que resta da Primavera Árabe?

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Ayaan Hirsi Ali * – Global Viewpoint Network – O Estado de S.Paulo

vinheta-clipping-forte1Semanas após o golpe que derrubou o governo democraticamente eleito de Mohamed Morsi, o massacre tornou-se parte da nova normalidade no Cairo. Em 2011, o Egito parecia ter chegado a uma virada histórica – mas acabou fazendo um giro de 360 graus. Voltamos à lei marcial “temporária”, que provavelmente durará anos.

No Oriente Médio como um todo, a história revolucionária está longe de se considerar concluída. Na Síria, grassa uma guerra civil de caráter cada vez mais sectário. Na Tunísia, crescem os protestos contra o governo islamista depois de mais um assassinato de um político secularista. Na Líbia, a violência entre milícias rivais está ganhando intensidade. Assim como no Iraque, o que vemos no país são atentados com carros bomba e fugas em massa das prisões.

A violência jihadista alastra-se como uma epidemia e chega até o Mali e o Níger. O Iêmen tornou-se um país tão perigoso que, há duas semanas, Grã-Bretanha e EUA tiveram de abandonar suas embaixadas na capital, Sanaa. Somente nas ricas monarquias do Golfo persiste uma estabilidade irrequieta. Mas ela depende consideravelmente do preço elevado do petróleo, que permite às várias dinastias reais subornar suas populações para torná-las dóceis. Os monarcas menos ricos, como o rei da Jordânia, temem perder seu trono.

A Primavera Árabe deveria inaugurar uma ordem política mais democrática no Oriente Médio. Nos EUA, conservadores e liberais tripudiaram no início de 2011 com a perspectiva de um novo Egito governado por jovens executivos tranquilos apaixonados pelo Google. Essa deveria ser a revolução do Twitter.

O que não deu certo? Os protestos equivocadamente rotulados como Primavera Árabe expuseram os múltiplos conflitos entre os diferentes grupos. O que se revelou inicialmente foram os conflitos em torno de questões econômicas e das liberdades políticas. Desemprego dos jovens, alta dos preços dos alimentos e uma corrupção descontrolada foram as queixas que levaram à derrubada dos déspotas na Tunísia, Egito e Líbia. E elas continuam.

Ocorre que atualmente outras três formas de conflitos estão claramente visíveis. A primeira diz respeito à identidade: quem somos e como organizamos nossa sociedade? Neste caso, a fratura ocorre entre os que enfatizam a identidade nacional árabe e os que consideram mais importante a identidade religiosa islâmica. Essa divisão data da queda do Império Otomano. Observe-se que mesmo no interior desses grupos existem subdivisões. Alguns pan-arabistas são liberais, outros são socialistas, e outros ainda são descaradamente militaristas. Alguns são favoráveis à rígida separação de Igreja e Estado. Outros concederiam algum controle aos líderes e às instituições religiosas. Os pan-islamistas estão unidos em sua tentativa de aplicar a sharia, mas discordam quanto ao momento mais adequado e quanto a sua aplicação literal.

A segunda divisão se dá entre o ambiente urbano e o rural. Os habitantes das cidades da região tendem a ser menos religiosos e a adotar atitudes mais ocidentais. Os que vivem no interior são mais conservadores e desconfiam profundamente do Ocidente.

A terceira ruptura, que é anterior a esses problemas recentes, é o sectarismo, acima de tudo a rivalidade entre os ramos sunita e xiita do Islã, que se espalha por toda a região. Mais cedo ou mais tarde, argumentam agora os pessimistas, os países da Primavera Árabe retornarão aos velhos governos de caráter autoritário exercidos por ditadores.

Estratégias.

Para permanecer no poder nessas culturas em que imperam a vergonha e a ordem, como David Pryce-Jones descreveu há mais de 20 anos no livro O Círculo Fechado, um líder precisa: gerar uma aura de medo, eliminar impiedosamente os adversários, nomear amigos de confiança para comandar o Exército e os serviços de segurança, usar alianças externas em benefício próprio e – evidentemente – colocar bustos, retratos e estátuas de si mesmo em todos os espaços públicos. Alguns observadores já se perguntam quanto tempo levará para que o atual governante de facto do Egito, o general Abdel Fattah al-Sisi, ponha em prática tudo isso.

Não sou pessimista a ponto de prever uma completa restauração da antiga ordem. Aparentemente, a Primavera Árabe pode ter fracassado, mas em muitos aspectos fundamentais é o mundo árabe que mudou de maneira irrevogável.

Em primeiro lugar, a instituição do tribalismo não é tão forte e coesa como costumava ser. Os membros de uma tribo ou de um clã cultivam outros tipos de fidelidade e desafiam as formas tradicionais de autoridade de maneiras impensáveis há uma geração. A combinação de fatores como urbanização, aumento da população jovem, refugiados e emigração acabarão minando ainda mais a fidelidade tribal e ao clã.

Em segundo lugar, o apelo do Islã radical começa a desaparecer. É uma tendência é paradoxal, porque os islamistas continuam desfrutando de uma considerável fidelidade das bases. Entretanto, depois de tudo o que as pessoas experimentaram em países nos quais os islamistas subiram ao poder – principalmente no Irã do aiatolá Khomeini e no Afeganistão do Taleban – já não é tão evidente que a sharia seja a resposta aos problemas da modernidade. Esse é o fator básico da reação contra os islamistas que vimos no Egito, Tunísia e em outros países. Os islamistas prosperam na oposição e no caos, mas fracassam tristemente no governo.

Em terceiro lugar, os efeitos da globalização modificaram as atitudes em relação ao Ocidente. Graças à migração e às telecomunicações, os árabes em particular e os muçulmanos em geral estão conectados física e virtualmente com a Europa e os EUA como jamais estiveram. Talvez não aprovem tudo o que veem no Ocidente, mas eles se dão conta de que as instituições políticas ocidentais funcionam de fato.

Em quarto lugar, o surgimento de grupos de interesse até o momento oprimidos não poderá ser interrompido. As mulheres, as minorias religiosas e até mesmo os homossexuais continuam extremamente vulneráveis no Oriente Médio e no norte da África. Mas esses grupos estão ganhando força graças à organização. Se você é uma mulher que foi violentada, melhor será que procure a ajuda de um grupo feminino do que a do déspota local.

Finalmente, as atitudes dos americanos e dos europeus mudaram. No passado, todo déspota da região que se prezasse sabia como apresentar-se como elemento estrategicamente vital para os interesse ocidentais. Os governantes que não podem reivindicar uma legitimidade popular já não podem contar com a ajuda de Washington, Londres ou Paris. É significativo que o regime militar restaurado no Egito busque agora a ajuda dos países do Golfo, e não o financiamento dos EUA.

Na quinta-feira, o presidente Barack Obama interrompeu suas férias para fazer um discurso no qual anunciou o cancelamento das manobras militares dos EUA com o Egito. A minoria dos americanos que ainda se preocupam com a Primavera Árabe sugere que ele vá mais longe. Mas mesmo que ele corte a ajuda americana ao Egito, isso não fará muita diferença. Os sauditas e os emirados têm condições de compensar amplamente o corte.

A colisão entre as rupturas tradicionais da região e essas novas tendências e divisões será tudo menos pacífica. Essa foi de fato uma virada histórica – mesmo que o mundo árabe tenha tomado uma direção que poucos comentaristas ocidentais poderiam prever há dois anos.

*Ayaan Hirsi Ali é pesquisador da Kennedy School em Harvard, professor visitante no American Enterprise Institute e autor da Infidel e Nomad.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

FONTE: O Estado de S. Paulo

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