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O ano das ruas

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MAC MARGOLIS – O Estado de S.Paulo

Consagrado pela revista Time, o título de personalidade do ano destaca a pessoa que mais marcou os 12 meses que se passaram. E a personalidade de 2014? Na América Latina, não resta dúvida: é o ano da rua.

Palpites valem o que pesam, mas não é exagero imaginar que o destino dos governantes sul-americanos dependa em boa dose do humor da musa que ronda a nossa praça pública.

Tranquila, ela não está. Passeatas, panelaços, greves, invasões de repartições públicas e black blocs. As principais metrópoles latinas reverberam, cada uma de seu jeito, com a desordem do dia. Até o rolezinho, que se inspira mais em Mamon que em Marx, não esconde seu lado desafiador.

Os mandatários já estão inquietos. Nos últimos dias, a Venezuela irrompeu em manifestações gigantes em que o alvo único era o governo acidentado de Nicolás Maduro. Três manifestantes morreram nos protestos e dezenas foram espancados pelos “coletivos”, como se chamam os truculentos asseclas do chavismo. A barbárie é o atestado de saúde da autoridade bolivariana, tão efêmera quanto o papel higiênico, que sumiu dos supermercados.

Maduro tem companhia. Na Argentina, com a inflação a 30%, toda semana traz um novo levante popular, entupindo a Praça de Maio e outros cartões postais portenhos. Enquanto os preços sobem, o peso despenca e o capital se vai, a presidente Cristina Kirchner se cala, convalescendo de uma neurocirurgia.

As pautas que mobilizam as massas latinas são das mais diversas e, muitas vezes, servem a interesses particulares. São os mineiros peruanos que reclamam um naco cada vez maior da já minguante receita de mineração.

Alguns protestos surgem tortos, nutridos por graves desequilíbrios sociais. Na Bolívia, em dezembro, um grupo de menores tentou incendiar a Assembleia Legislativa, onde os deputados tiveram a temeridade de vetar o trabalho de crianças (são 848 mil no país) com menos de 14 anos.

Outros cheiram a fascismo. Semana passada, familiares de Santiago Andrade enterraram o cinegrafista da Band, atingido na cabeça por um morteiro disparado por vândalos travestidos de manifestantes nas ruas do Rio de Janeiro.

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Há reivindicações que borram fronteiras ideológicas. Não foi o governo conservador de Sebastián Piñera que privatizou as universidades chilenas e insuflou os maiores protestos em três décadas. Fornido no regime do generalíssimo Augusto Pinochet, o modelo sobreviveu a 20 anos de governos da Concertação, coalizão do centro-esquerda. No entanto, foi ao pelourinho no primeiro mandato da socialista Michelle Bachelet e demoliu a credibilidade de seu sucessor, o “direitista” Piñera.

De volta ao poder, com um empurrão das ruas, Bachelet novamente virou vidraça. “Faremos questão de dificultar sua vida”, ameaçaram-na os hackers que invadiram o portal do Ministério da Educação. “O ano que vem será de manifestações.”

Para os mandatários latinos, como Bachelet, Kirchner e Dilma Rousseff, que surgiram de movimentos populares e se julgaram seus porta-vozes naturais, a reviravolta das ruas é surpreendente. Até traiçoeira. Afinal, as ditaduras se foram. Mas e os protestos?

De fato, a manifestação política ficou e mudou, assim como o mundo a sua volta. A pobreza caiu, o consumo se democratizou. A classe média é maioria. Quem subiu de degrau, contudo, enxerga mais. Inclusive o que ainda falta. E falta muito.

“As manifestações são movidas pela credibilidade baixa das instituições políticas existentes”, concluiu um estudo das manifestações latinas, encomendado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. Hoje, o inimigo não é mais a ditadura bruta, mais a democracia tosca.

Se o roncar do asfalto anuncia o tombo iminente dos franqueados do poder, ainda não se sabe. No nosso continente teflon, a indignação coletiva rapidamente se converte em desabafo de botequim. Os inquilinos do poder, porém, sabem que precisam decifrar a complicada mensagem que vem da rua para não acabar nela.

É COLUNISTA DO ‘ESTADO’,

CORRESPONDENTE DO SITE THE DAILY BEAST E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

FONTE: O Estado de S. Paulo

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É o ano dos vidraceiros isso sim.