quarta-feira, outubro 5, 2022

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Grupo ‘Brave’ e o Batalhão ‘Somália’ na Guerra do Leste Europeu

Destaques

Redação Forças de Defesa
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redacao@fordefesa.com.br

Por Rodolfo Queiroz Laterza*

Embora a tática russa nas batalhas de Donbass se concentre em promover cercos graduais a determinados assentamentos levando em consideração fatores diversos como concentração de tropas ucraniana, rotas logísticas e fortificações estabelecidas em pontos de implantação permanente ou temporária, com emprego do menor efetivo possível e empregando o máximo de sistemas de artilharia.

As forças russas e seus aliados separatistas têm empregado nos avanços em diferentes áreas ao longo front de Donbass algumas unidades que têm sido determinantes para as capturas de assentamentos e cidades. São as unidades que compõem os intitulados “Grupo Brave” e “Batalhão Somália”, cada qual com peculiaridades na formação e atuação nos diferentes combates verificados na Guerra da Ucrânia

Não será analisado neste artigo detalhes políticos ou ideológicos que envolvem o emprego destas unidades russas no conflito militar da Ucrânia, atendo-se à análise ao aspecto estritamente militar e suas consequências no teatro de operações.

O ENIGMÁTICO “GRUPO BRAVE”

Associado ao signo tático-militar da letra “O”, as unidades russas assim marcadas participaram do conflito militar na Ucrânia desde o início em 24/02, mas permaneceram nas sombras, operando furtivamente até o início de maio. Sob este signo tático e rotulado como Brave, opera o agrupamento de reconhecimento, sabotagem e operações especiais do Distrito Militar Central, que, como resultado da redistribuição no início de maio Brave foi transferido para a região de Kharkov para conter a contra-ofensiva ucraniana naquela mesma época. Essas forças bloquearam a frente na direção de Kharkov, impedindo as forças ucranianas de levantar reservas para ajudar o grupamento Donbass das Forças Armadas da Ucrânia.

Desde o final de maio, após a consolidação das forças russas no eixo de Izium, o Grupo Brave está conduzindo uma ofensiva na área de Donbass, sendo empregado em batalhas urbanas e foi essencial nos combates que culminaram nas capturas de Yampol e Krasny Liman em maio, visando cercar a aglomeração Slavyansk-Kramatorsk do nordeste. Também participaram da batalha pelo controle do assentamento de Lozovoe, na região de Donetsk, rompendo as complexas linhas de defesa ucranianas.

Em 10 de julho, o grupo “Brave” capturou grande efetivo de militares ucranianos em Lisichansk, além de grande quantidade de armas antitanque de origem ocidental. As forças especiais do Grupo Brave também conseguiram destruir um grande grupo de sabotagem das Forças Armadas da Ucrânia e vários esconderijos com armas da OTAN na área de Volcheyarovka.

Embora atuem com foco no reconhecimento, sabotagem e ações de comandos atrás das linhas inimigas, as habilidades dos membros do Brave incluem assaltos aeromóveis com helicópteros como Mi-28N e Ka-52 e coordenação de vários tipos de operações. O “Brave”, além de atuarem como uma força de elite, também opera como um BTG e tem equipamento, bases logísticas e de apoio próprios. Em meados de maio, os integrantes do grupo “Brave” estavam entre as primeiras unidades a receber BMPT Terminator.

Uma parte significativa do trabalho de combate do grupo “Brave” é a busca e captura de militares ucranianos que tenham acesso direto a documentos secretos das Forças Armadas da Ucrânia, planos de comando e outras informações importantes. O grupo Brave” é considerado um dos líderes informais em termos de número de prisioneiros, especialmente de unidades como a 79ª Brigada de Assalto Aeroterrestre das Forças Armadas da Ucrânia. Desde o início do conflito, com o apoio do grupo “Brave”, 274 combatentes foram capturadas daquela unidade ucraniana, incluindo várias dezenas de oficiais.

O grupo “Brave” também possui uma inovação – a tática de “cunhas de tiro”, quando as tropas ucranianas em retirada são cercadas pelo flanco e são destruídos os restos de veículos blindados. Essa tática acabou sendo especialmente eficaz durante a operação de limpeza de Lisichansk e Severodonetsk, quando as unidades em retirada das Forças Armadas da Ucrânia foram cortadas em duas por um golpe repentino, que, para maior eficiência, foi desferido ao amanhecer, quando havia fuga.

Pelas ações empreendidas com êxito, em 5 de julho, o Ministério da Defesa da Federação Russa publicou imagens da premiação de militares do grupo “Brave”. Os prêmios foram entregues pelo coronel-general Alexander Lapin, sob cujo comando este agrupamento se destacou em várias operações importantes, dentre as quais as citadas acima.

BATALHÃO “SOMALIA”

Em 24 de fevereiro de 2014, no início dos conflitos em Donbass, foram organizadas unidades armadas, uma mais imprudente que a outra. Cidadãos, mineiros e metalúrgicos, se armaram e varreram a região em diferentes partes do front. Uma destas divisões veio a ser o futuro batalhão infantaria motorizado de guardas separados, a unidade militar 08828, posteriormente, integrante das Forças Armadas da entidade estatal (internacionalmente não reconhecida) República Popular de Donetsk, vindo a ser conhecido como “Somalia”, por situação inusitada: em Ilovaisk, os integrantes desta unidade eram comparados a piratas somalis africanos por trajarem vestimentas sujas de combustível e lubrificantes, armados com metralhadoras capturadas e correrem para a batalha aos gritos.

Durante as batalhas ocorridas em Donbass, durante o ano de 2014, o batalhão “Somali”, teve dois comandantes polêmicos, bem conhecidos nas redes sociais , conhecidos como “Givi” e “Motorola” (posteriormente mortos em ações de sabotagem até hoje não esclarecidas), que participaram de várias ações: a tomada da cidade de Ilovaisk, romperam o bloqueio entre Gorlovka e Donetsk, limparam a vila de Nizhnyaya Krynka e participaram da difícil e longa Batalha do Aeroporto de Donetsk. Depois que os combates pelo aeroporto de Donetsk diminuíram, os Somalis foram transferidos para o sul da RPD para realizar tarefas de defesa nas fronteiras do sul.

Mais tarde, quando a unidade se glorificou nas batalhas pelo aeroporto de Donetsk, voluntários da Rússia e de outras regiões da Ucrânia (principalmente de Kharkov) aderiram ao Batalhão “Somalia”, além de cidadãos das repúblicas da Ásia Central e da Crimeia. Outra característica é que muitas mulheres serviram no batalhão. A maioria delas trabalhava na retaguarda, nos postos de comando, atuando em patrulha ou em postos de controle.

O batalhão conta com blindados de combate T-64 e T-72 , BMP-1 , BTR-70 , MT-LB e BRDM-2 , além de artilharia auxiliar, morteiros e veículos de transporte. Parte está permanentemente implantada em Donetsk e Makeevka.

O atual comandante é Timur Kurilkin.

Na guerra da Ucrânia, o batalhão de Donetsk “Somália” participou do cerco e assalto à zona industrial “Azovstal”, em Mariupol, sendo transferido no final de abril para a região de Donetsk, onde participa ativamente das batalhas pela liberação de Marynka Pesky e Avdiivka, grandes fortificações ucranianas subjacentes à cidade de Donetsk.

Suas ações táticas envolvem manobras de cerco para ruptura posterior e gradativa das linhas de defesa ucranianas após maciços bombardeios prévios com sistemas de artilharia. É desconhecido seu efetivo real, porém bem superior ao número de soldados de um BTG típico russo, que possui em torno de 600 combatentes.


Delegado de Polícia, historiador, pesquisador de temas ligados a conflitos armados e geopolítica, Mestre em Segurança Pública

FONTES CONSULTADAS:

  • www.life.ru
  • www.politik.su
  • www.newsland.com
  • https://www.donetsk.kp.ru/daily/27374.5/4567430/
  • Šmíd, Tomáš & Šmídová, Alexandra. (2021). Anti-government Non-state Armed Actors in the Conflict in Eastern Ukraine. Czech Journal of International Relations, Volume 56, Issue 2. pp.45-46.
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Nilton L Junior
Nilton L Junior
1 mês atrás

E tinha uns nazobots comentando que os Russos são amadores.

Patrício
Patrício
Reply to  Nilton L Junior
1 mês atrás

Batalhão Somália derrotou Azov em Mariupol.
Brave estão devastando os ucranianos.
Menções especiais ao Grupo Wagner e aos chechenos.

Nilton L Junior
Nilton L Junior
Reply to  Patrício
1 mês atrás

É isso mesmo Patrício, eu jah mencionei em outros postagem, as forças armadas Russas e Chechênia vão sair desse conflito com um outro patamar de aprendizagem e também o que sobrar das forças ucras.

Andre
Reply to  Patrício
1 mês atrás

O avanço para trás em Kharkiv, onde estava o brave foi realizado com maestria. Os 2 meses para tomar uma fábrica a 50km da fronteira russa tbm.

Esses russos são imparáveis, mesmo estando parados no Donbass.

Neural
Neural
Reply to  Patrício
1 mês atrás

São combatentes excelentes. E tem as divisões mais tecnológicas, a divisão “O” são os reis artilharia e os paraquedistas da divisão “V” são super bem armados e treinados

Paulo Brics
Reply to  Nilton L Junior
1 mês atrás

Os russos são casca grossa e sempre tiveram preferência por combater em terra e sob quaisquer condições, diferente do exército de playboys de óculos sport que só entram se tiverem domínio aéreo total limpando o terreno.

Um ex instrutor do CIGS conta como um navy seal grandalhão arregou e colapsou na Amazônia, não conseguindo completar o curso:

https://m.youtube.com/watch?v=y3SdQi_xw8c

Nilton L Junior
Nilton L Junior
Reply to  Paulo Brics
1 mês atrás

Massa Paulo vc tmb assiste o Glauber kkk

Andre
Reply to  Paulo Brics
1 mês atrás

Não sei prq os russos não acatam de lanças e espadas. Ficar usando armas de fogo é coisa de playboy.

Paulo Brics
Reply to  Andre
1 mês atrás

É porque os russos estão lutando contra sua própria raça, os ucranianos, mesmo DNA, tudo casca grossa. É barra pesada.

Se fosse contra os playboys posers de óculos sport, que em 20 anos de combates não conseguiram derrotar magrelos subnutridos e esfarrapados de sandálias e ak-47, talvez lanças e espadas fossem suficientes.

Felipe Morais
Felipe Morais
Reply to  Paulo Brics
1 mês atrás

Os russos tbm não conseguiram derrotar os magrelos subnutridos. E aí?

Mercenário
Mercenário
Reply to  Felipe Morais
1 mês atrás

Felipe,

E vale lembrar que no Afeganistão não eram apenas os russos apanhando, mas também os ucranianos e outros que formavam a URSS.

Memória seletiva.

E vale lembrar que o à época Império Russo já levou surra na Guerra da Crimeia no Sec. XIX também.

Andre
Reply to  Paulo Brics
1 mês atrás

Então eles poderiam usar as lanças e espadas para cumprir as ameaças que fizeram contra os finlandeses e suecos.

Marcos10
Marcos10
Reply to  Nilton L Junior
1 mês atrás

E Albert Einstein tinha razão!!!
A guerra na Ucrânia demonstra que de fato o tecido espaço/tempo está se expandido: a guerra que era para durar três dias já dura 165 dias. É a famosa expansão do universo.
Também fica demonstrado que existem outros Universos. Depois de a Força Aérea ucraniana ter sido desmantelada, o Exército ucraniano ter colapsado, os combates continuam. Os soldados devem estar vindo de outra dimensão, por isso da necessidade de complementar o Exército russo de 150 mil homens com 25 mil chechenos, 60 mil sírios e agora 100 mil norte coreanos.

Nilton L Junior
Nilton L Junior
Reply to  Marcos10
1 mês atrás

falou falou falou e Z bate sem pressa em U.

Marcos10
Marcos10
Reply to  Nilton L Junior
1 mês atrás

Nilton, o menino que sonha em morar na Coreia do Norte.
Confessa! Você queria ter ido na Disney e não foi. Dai tua raiva.

Marcos10
Marcos10
Reply to  Nilton L Junior
1 mês atrás

Uia!
Parece que U também anda batendo em Z, e em X.

Andre
Reply to  Nilton L Junior
1 mês atrás

Pior é o pessoal de chapéu de alumínio que acredita que o Moska afundou….m

Nilton L Junior
Nilton L Junior
Reply to  Andre
1 mês atrás

Melhor é a turma que não aceita a realidade né, tipo os Russos foram derrotados e expulsos do Donbas e a Criméia agora é da Ucrânia, ah tudo isso graça a grande mega hiper ofensiva ucra.

Andre
Reply to  Nilton L Junior
1 mês atrás

Tem um exemplo de alguém que disse isso?

Eu lembro bem de alguém negando o afundamento do Moska….

Hcosta
Hcosta
Reply to  Nilton L Junior
1 mês atrás

E não é isso que está escrito no artigo?

Batalhão Somália formado por cidadãos armados? Se isto não são amadores não sei o que são…

E o senhor não foi um daqueles que criticou armar cidadãos, como a Ucrânia fez?

Digo
Digo
1 mês atrás

tem algumas unidades das milícias separatistas russa que já estão com equipamento de nível pessoal melhor do que as forças armadas brasileiras….

Nilton L Junior
Nilton L Junior
Reply to  Digo
1 mês atrás

Não exagera

Pavoc
Pavoc
1 mês atrás

Os vips, profissionais, tem sua vida de reconhecimento e descanso. Enquanto recrutas sao aprisionados em trincheiras sem descanso

Andre
1 mês atrás

Todo dia os russos massacram o exército ucraniano e avançam uns 10 ou 15 cm.

Já devem ter morrido uns 150 milhões de ucranianos e os russos ainda não saíram do Donbass.

Devem ser as duas semanas mais longas da história.

Felipe Morais
Felipe Morais
Reply to  Andre
1 mês atrás

Você tá sendo muito irônico com o avanço retroativo tático e estratégico plus 1.6 turbo dos russos.

Daqui 130 anos eles chegam a Lisboa, como vislumbrado pela torcida daqui, mas pelo Atlântico.

Mateus Gonçalo
Mateus Gonçalo
Reply to  Andre
1 mês atrás

Vou rir até amanhã. E sabe porquê?
Porque sei que tu tá se comendo por dentro, uma vez que o Zelinho perdeu mais de 30% do país. Que desastre, cara.
Rindo e rindo que se farta. A tua cara não esconde a dor.

Hcosta
Hcosta
Reply to  Mateus Gonçalo
1 mês atrás

Mas para quem queria conquistar 100%, 30% não me parece uma grande vitória…
Talvez se contratar os Norte Coreanos eles façam um melhor trabalho…

Mas continue a rir, é uma ótima terapia para se distrair da realidade…

Last edited 1 mês atrás by Hcosta
Mateus Gonçalo
Mateus Gonçalo
Reply to  Hcosta
1 mês atrás

É normal que para você não seja. Tá falando de onde? Da cama, do sofá, do WC?

Andre
Reply to  Mateus Gonçalo
1 mês atrás

“se eu quiser, tomo kiev em 2 semanas” Putin, V.

Velho Alfredo
Velho Alfredo
Reply to  Mateus Gonçalo
1 mês atrás

30%??????

20% de território separatista, totalmente pró-russia….. ou seja….. nesse tempo todo avançaram 10%?

oooxxxxxaaaaaa são bons mesmo…..

Andre
Reply to  Velho Alfredo
1 mês atrás

Não esqueça a Criméia, invadida em 2014.

Andre
Reply to  Mateus Gonçalo
1 mês atrás

Mais de 30%?? Inventou essa hoje de manhã?

Deve estar muito chateado que seus amados russos não conseguem ir além dos territórios que já estavam em conflito desde 2014, e que onde tentaram, como Kiev, forram surrados.

Heinz
Heinz
1 mês atrás

Os próprios soldados ucranianos admitem que lutar contra os separatistas é muito mais difícil que lutar contra os chechenos e os soldados russos regulares.
Tem um vídeo no YT, que um sargento fuzileiro ucraniano afirma, “anos lutando contra a gente, eles aprenderam a lutar contra nós, muitas vezes utilizam táticas que também utilizamos, o que torna a luta mais difícil” .
Realmente, essas tropas, principalmente o batalhão Somália possui soldados bem preparados e experientes, digamos que é o Azov ou kraken dos russos.
Matéria muito boa, por sinal.
Espero mais matérias de outras unidades russas e ucranianas.

Eromaster
Eromaster
1 mês atrás

Esse batalhão é bem eficiente. Conseguiram segurar as Forças Ucranianas desde 2014 até o fevereiro desse ano em Luganks e Donetsk.

Neural
Neural
Reply to  Eromaster
1 mês atrás

O que o Putin é numa guerra assim, desgastante aos poucos. Ele não vão mobilizar 1 milhão de homens, dezenas de divisões ao mesmo tempo, isso seria ruim em termos de gastos e de imagem pra Rússia.

Renato B.
Renato B.
1 mês atrás

Parabéns Rodolfo, seus textos estão enriquecendo o blog.

Uma coisa que me deixou curioso é a camuflagem dos uniformes: Eles não estão usando o padrão do exército russo, talvez para disfarçar o patrocinador. Mas o padrão da primeira foto me lembrou o dos soldados da USAF.

Outro ponto: como podemos considerar esses batalhões atualmente? Parte de uma milícia, de um exército não reconhecido ou uma divisão do exército russo?

Renato B.
Renato B.
Reply to  Renato B.
1 mês atrás

Desculpe, depois que eu entendi que são parte dessa não-reconhecida entidade chamada exército de Donetsk.

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