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Estudo aponta também queda no número de inscritos em algumas escolas militares

Um levantamento realizado pelo Exército a pedido do G1 aponta que 2010 foi o ano com maior número de pedidos de desligamento de oficiais e sargentos do Exército em dez anos. Foram 105 pedidos de demissão no ano passado, em 2009 foram 88. Para se ter uma ideia, em 2000, apenas 44 militares de carreira pediram para ir para a reserva.

Os dados apontam, ainda, queda no número de inscritos em algumas escolas militares desde 2000. A variação na relação candidato/vaga é mais visível na Escola de Sargento das Armas (EsSA), que em 2000 tinha 97.685 inscritos para 1.500 vagas (65 candidatos/vaga), e no ano passado apresentou 42.850 candidatos para o concurso de 1.178 vagas (média de 36 candidatos/vaga).

Em nota, o Centro Comunicação Social do Exército disse que “o número de inscritos para o exame de seleção da Escola de Sargentos das Armas (EsSA) vem se mantendo dentro de uma média de, aproximadamente, 40.000 candidatos/ano”, mas que “observa-se uma redução ao longo dos últimos anos” devido a três fatores: a exigência, a partir de 2006, de que os candidatos tenham ensino médio completo, “o considerável crescimento do número de vestibulares no país” e “o elevado número de concursos públicos realizados nos últimos anos no Brasil”.

Demais unidades de ensino especializadas, como o Instituto Militar de Engenharia (IME), a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), que prepara os futuros oficiais, e a Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx), que seleciona e prepara profissionais já com curso superior, também apresentaram variação na procura durante a década, mas o número de inscritos voltou a subir em 2010, segundo o Exército.

“Eu amava o Exército, gostava de ser militar, mas infelizmente a remuneração não compensa. Desde que dei baixa, fiz concurso público e agora sou técnico judiciário em Jaraguá do Sul, em Santa Catarina”, disse ao G1 Heron Dias, de 32 anos. Ele era 2º sargento quando pediu desligamento em 2002. O salário dessa função atualmente é de R$ 2.748, segundo dados do Ministério da Defesa.

“Hoje, eu ganho o equivalente ao salário de um capitão”, afirmou Dias, cuja remuneração atual supera os R$ 5.340, que é o soldo de um capitão.

“Ser militar era um sonho de infância, e servi durante cinco anos no Rio de Janeiro, na Escola de Material Bélico e no Batalhão Logístico. Morava em frente ao Morro da Mangueira e vivenciava diariamente tiroteios. Vivia assustado, temendo, por ser militar, que me matassem quando fosse assaltado”, relembrou ele.

Já o sargento Glauber Rafael Vargas, de 29 anos, pediu demissão do Exército após nove anos de carreira, por outro motivo. Após atuar como militar no Rio de Janeiro, Amazonas e Acre, ele prestou concurso público e agora é agente da Polícia Rodoviária Federal em Mato Grosso. “No meio militar, a hierarquia e a disciplina, muitas vezes, se confudem com falta de respeito. Me estressava um bocado, era humilhado, trabalhava sempre sobre pressão, correndo risco de punição. Agora, me considero profissionalmente realizado”, afirmou.

Para o tenente Luiz Eugênio Bezerra Mergulhão Filho, presidente da Associação dos Oficiais da Reserva e Reformados das Forças Armadas, a remuneração é o principal fator que leva à debandada dos militares. “O mercado civil sempre pagou melhor que o militar. Ainda mais com os cortes no orçamento das Forças Armadas”, disse.

Segundo Mergulhão Filho, a decisão do desligamento “varia de pessoa para pessoa”. “A decisão entre quem sai e quem fica está no gostar do que faz. O militar que gosta nunca pensou em salário”, afirmou.

Já para o doutor em relações internacionais e especialista militar Gunther Rudzit, a economia é o principal fator para a mudança na procura da carreira militar. “Com o mercado aquecido, fica difícil reter nas Forças Armadas o profissional especializado. Acho que é só isso, não acredito que esteja havendo uma mudança na percepção da sociedade sobre as Forças Armadas”, afirmou.

Para o escritor Leonardo Trevisan, especialista na área, um dos fatores que provocam as demissões é que, “enquanto o oficial vislumbra uma carreira em que vai ganhar mais, o sargento não vê isso”. Ele afirmou que, pelas pesquisas de aptidão entre jovens, não percebe “alterações no apelo pela carreira militar”. “Ela é uma carreira que independe da economia, pois muitas vezes está ligada à vocação. Tanto que as Forças Armadas não precisam fazer anúncio na TV convocando os jovens para se alistar anualmente. A cada dois anos é suficiente”, disse.

Em nota, o Exército afirmou que o número de desligamentos da tropa no ano passado é “mínimo”, representando aproximadamente 0,42% do total de oficiais, hoje em 25 mil, segundo a corporação. “A Força entende que os números envolvidos na questão estão dentro dos padrões e coerentes com a série histórica no âmbito do Exército”, segundo o texto.

FONTE:
G1, via Notimp

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O presente artigo é uma tradução do texto originalmente postado no blog “IMINT & Analysis“, especializado em análises e interpretações de imagens de satélite. Decidimos traduzir o mesmo porque o estudo foi feito de forma bastante criteriosa e, muito provavelmente, chega bem próximo da realidade do sistema de defesa antiaéreo de caráter estratégico da Líbia.

Esperamos que os nossos leitores, ao final do texto, tenham uma visão mais clara de como funciona e como estão organizadas as defesas estratégicas da Líbia. Este texto também servirá de referência para muitos jornalistas não especializados que escrevem em veículos de grande circulação e carecem de fontes técnicas mais confiáveis para suas matérias.

Introdução

A Líbia possui uma das redes de defesa terra-ar mais robustas do continente africano, perdendo apenas para o Egito, em termos de cobertura e sistemas operacionais. A rede de sistemas de SAM (mísseis superfície-ar) estratégicos está basicamente localizada ao longo da costa, aparentemente defendendo a maior parte da população da Líbia e impedindo a incursão estrangeira no espaço aéreo a partir do mar.

A Força de SAM estratégicos

A rede de sistemas SAM estratégicos da Líbia está subordinada à Força de Defesa Aérea, que por sua vez, está subordinada à Força Aérea da Líbia. Atualmente, acredita-se que ela esteja dividida em cinco comandos regionais distintos e operando uma variedade de equipamentos da era soviética. Os seguintes sistemas SAM de caráter estratégico estão em uso na Força de Defesa Aérea da Líbia:

  • S-75 (SA-2 Guideline)
  • S-125 (SA-3 Goa)
  • S-200 (SA-5 Gammon)

Cobertura EW

Dezessete sites EW ativos e quatro EW inativos fornecem às defesas líbias uma cobertura de alerta radar antecipada, aquisição de alvos para os sistemas SAM e informações para o controle GCI (Ground Control Interceptors) das unidades de caça. Esses sites EW estão localizados principalmente ao longo das regiões costeiras ocidental e oriental, no monitoramento do espaço aéreo ao redor de Trípoli e Benghazi. Radares EW identificados na Líbia são predominantemente equipamentos da era soviética. Os seguintes sistemas foram identificados nas imagens disponíveis:

  • P-12/18 (Spoon Rest)
  • P-14 (Tall King)
  • P-35/37 (Bar Lock)
  • P-80 (Back Net)

Além disso, acredita-se que a Líbia tenha recebido cinco radares de busca aérea italianos modelo LPD-20 em 1983 e três radares EW soviéticos 5N69 (Big Back) entre 1984 e 1985. Nenhum desses sistemas foi identificado nas imagens disponíveis, mas isso não quer dizer que não existam.

A imagem a seguir mostra as localizações dos sítios de radares EW identificados na Líbia:

A imagem seguinte mostra um provável site EW da Líbia, situado perto de Sabha, na porção oeste do interior do país. Isso representa aproximadamente um terço dos sites EW da Líbia. Cinco desses sites são equipados apenas com radares da série P-12/18, com outros cinco equipados com sistemas múltiplos de radar. Os sites P-12/18 provavelmente servem para reforçar ou ampliar a cobertura, com os outros cinco contendo vários radares EW, possivelmente servindo como centros de comando para os comandos regionais.

Alguns sites de SAM estratégicos contém os seus próprios elementos orgânicos EW. Isto permite que eles realizem a aquisição de alvos de maneira independente, ou recebam informações de rastreamento a partir de centros regionais EW. Em sete sites SAM (quatro S-75 e três S-200) foram identificados elementos orgânicos de EW. Os sites de S-75 possuem radares P-12/18 e os sites com S-200 possuem radares P-14. Em nenhum dos sites de S-125 e dos sites restantes de S-75 e de S-200 foram identificados sistemas EW, mas isso é provavelmente devido à qualidade das imagens disponíveis, não por falta de recursos.

A imagem seguinte mostra um radar EW P-12/18 em um site de SAM S-75, perto de Trípoli:

Cobertura SAM

Existem atualmente trinta e um sites de SAM estratégicos ativos identificados na Líbia. A imagem seguinte mostra a localização desses sites.  Sites contendo SAM S-75 estão em vermelho, os que contém S-125 estão em azul claro, e os sites de S-200 em roxo. Como pode ser visto, a esmagadora maioria dos sites de SAM está localizada ao longo das mesmas regiões costeiras onde está presente a maioria dos radares EW.

A imagem seguinte mostra a cobertura geral dada pelos SAM estratégicos identificados na Líbia. Usando o mesmo esquema de cores aplicado anteriormente, os SA-2 cobrem as zonas vermelhas, os S-125 as zonas marcadas em azul, e os S-200 as zonas roxas.

S-75 (SA-2 Guideline)

Existem atualmente onze sites de S-75 no interior da Líbia, que constituem cerca de um terço da força de SAM estratégicos. Fontes russas afirmam que trinta e nove baterias S-75M Volkhov foram fornecidas para a Líbia entre 1974 e 1985. Outras fontes sugerem que a ordem inicial de dezoito baterias fornecidas entre 1974 e 1975 era constituída de sistemas S-75 Dvina. As baterias de S-75 são empregadas na proteção de centros populacionais e instalações militares, predominantemente ao longo da região costeira.

A imagem seguinte mostra a cobertura proporcionada pelas baterias de S-75 da Líbia:

S-125 (SA-3 Goa)

Existem atualmente dezesseis sites ativos com baterias S-125 na Líbia. Oito baterias estão situadas em antigos sites de S-75. O S-125 representa metade dos sistemas SAM estratégicos no país. A Líbia opera a variante Neva-M do S-75, sendo que trinta e três baterias foram fornecidas entre 1974 e 1976. Assim como ocorre com o S-75, as baterias de S-125 estão dispostas de forma a proteger a população e as principais instalações militares, predominantemente ao longo da região costeira.

A imagem seguinte mostra a cobertura proporcionada pelas baterias de S-125:

S-200 (SA-5 Gammon)

Existem atualmente quatro sites equipados com S-200 na Líbia, com duas baterias por site. O S-200 representa o sistema SAM estratégico de maior alcance no arsenal líbio. A proximidade dessas quatro localidades do litoral permite uma ampla cobertura sobre o Mediterrâneo, teoricamente fornecendo uma capacidade de engajamento ‘stand off’. Seis baterias de S-200 foram inicialmente fornecidas para a Líbia, entre 1985 e 1986, com mais cinco entregues em 1988. Existem dúvidas sobre qual variante a Líbia opera. Fontes russas referem-se aos sistemas entregues como sendo do tipo S-200VE, mas os registros do SIPRI mostram que estes são sistemas Angara, o que implica que o modelo S-200DE, de maior alcance, foi entregue.

A imagem seguinte mostra a cobertura proporcionada pelas baterias S-200 líbias. Foi utilizado o alcance da variante Angara, de 300km.

Sistemas táticos de SAM

O Exército líbio opera vários sistemas de SAM táticos que poderiam ser utilizados como arma de defesa de ponto e preencher lacunas na rede global de defesa aérea. Esses sistemas incluem o Kvadrat 2K12 (SA-6 Gainful), o 9K33 Osa (SA-8 Gecko), o 9K31 Strela-1 (SA-9 Gaskin), o 9K35 Strela-10 (SA-13 Gopher) e o Crotale. Embora o 9K33 seja o sistema mais numeroso, o 2K12 representa o sistema SAM tático mais capaz.

Sites Inativos

Foram localizados trinta sites de SAM estratégicos inativos na Líbia. Há quinze sites de S-75, onze de S-125 e quatro de S-200. Estes sites estão todos localizados próximos de áreas com baterias ativas de SAM. E como tal, eles podem representar locais disponíveis para reforçar as defesas de uma determinada região durante períodos de hostilidades ou podem representar locais de dispersão para a unificação posterior de SAM, ao longo do tempo.

Para dar suporte a esse último conceito, deve-se notar que cinco sites inativos (dois de S-75, um de S-125 e dois de S-200) já tiveram baterias operacionais instaladas em algum momento no passado. Além disso, três sites de S-125 e um de S-200 atualmente em operação já estiveram inativos anteriormente. Isto sugere que há uma política de redistribuição e reorganização das baterias. Militarmente, essa é uma boa estratégia, uma vez que dificulta o direcionamento dos armamentos por um agressor em potencial. Embora seja verdade que as localizações de novos sites possam ser deduzidas a partir de análises de imagens ou por ELINT, essa estratégia adiciona uma carga de trabalho a mais aos planejadores de um ataque.

A imagem a seguir mostra as localizações dos sites SAM estratégicos inativos na Líbia:

Instalações de Apoio

Onze instalações de apoio fornecem suporte logístico para a rede de SAM estratégicos. Dez dessas instalações possuem habitações para as guarnições, recargas de mísseis e um complexo de treinamento dedicado. Sete das instalações para guarnições de SAM são de apoio genérico para sistemas múltiplos. Com base na identificação dos componentes dos sistemas pelas imagens disponíveis, duas instalações parecem apenas apoiar o S-75, as demais apoiando o S-125. Todas as instalações de apoio estão localizadas nas proximidades dos locais de lançamento.

A imagem seguinte mostra uma complexa combinação de sistemas de apoio de S-75/125 perto de Trípoli:

A imagem abaixo mostra o complexo de treinamento de SAM da Líbia perto Misratah:

Capacidade estratégica da força de SAM

A rede de sistemas de SAM estratégicos da Líbia está organizada para proporcionar uma zona de defesa em camadas e com sobreposição de campos. As baterias de S-75 e S-125 estão localizadas próximas umas das outras para fornecer redundância e suporte, com o S-125 sendo mais capaz em altitudes mais baixas do que o S-75. O grande número de sites inativos sugere que a força foi reduzida ao longo do tempo. Isso pode ser devido ao término da vida útil dos equipamentos, falhas dos mesmos, razões financeiras ou utilização dos estoques de mísseis.

Cobertura Nacional do S-200

A primeira linha de defesa na rede estratégica da Líbia é o S-200. Posicionada ao longo do litoral, as quatro baterias ativas de S-200 fornecem uma dissuasão confiável para alvos com alto RCS, tais como plataformas ISR. As baterias de S-200 estão localizadas perto de Trípoli, Misratah, Surt e Benghazi.

Cobertura Costeira

Os sites de S-75 e S-125 estão concentrados principalmente ao longo da costa ocidental e oriental. Enquanto as baterias de S-200 estão dispostas para fornecer defesa de barreira do litoral do país, os sites de S-75 e S-125 estão posicionados para oferecer defesa de ponto das zonas críticas. De oeste para leste, esses sites são dispostos ao redor da base aérea de Ibn Nafa, Tripoli, Misratah, Benghazi, Bombah, e Adam. Embora a cobertura contígua da região costeira não seja fornecida por esses sites, cada local é defendido por nada menos do que três baterias. Ibn Nafa e Bombah são defendidas por uma bateria de S-75 e duas de S-125, Misratah é defendida por uma bateria de S-75 e três de S-125 e Benghazi e Adam são defendidas por duas baterias de S-75 e duas baterias de S-125.

A imagem seguinte mostra a cobertura do litoral da Líbia fornecida pelas baterias S-75 e S-125, com a localização das baterias de S-200 também marcada:

Curiosamente, enquanto Surt possui uma bateria ativa de S-200, todos os sites de S-75 e S-125 na área estão atualmente inativos. Isso deixa a costa no golfo de Sidra relativamente indefesa.

Tripoli é a cidade mais pesadamente defendida, contando com três baterias de S-75 e quatro baterias de S-125 e uma de S-200 posicionada ao sul da cidade.  Três guarnições de SAM e três instalações EW também estão presentes na área,assim como quatro sites de SAM inativos.

A imagem seguinte mostra instalações e zonas de cobertura de SAM, perto de Trípoli:

As próximas imagens mostram instalações de SAM e as zonas de cobertura no restante das áreas costeiras.

Base aérea de Ibn Nafa

Misratah

Benghazi

Bombah

Adam

Cobertura no interior do país

Sabha é a única cidade do interior da Líbia a contar com qualquer defesa de SAM estratégico. Grande parte do interior da Líbia é pouco povoada, assim como as regiões de fronteiras. O que faz então Sabha se destacar como um local estratégico? Primeiramente acredita-se que Sabha tenha sido o local onde funcionou o programa de armas nucleares da Líbia. Em segundo lugar, Sabha era o local onde se desenvolviam foguetes líbios no início de 1980, e o foguete OTRAG foi testado a partir das instalações do oasis de Seba.  Há ainda uma significativa presença militar na região, que é provavelmente o motivo pelo qual há a presença de SAM estratégicos e instalações de apoio.

A imagem seguinte mostra instalações de SAM e as zonas de cobertura de Sabha:

Questões de Defesa Aérea

A rede líbia de SAM estratégicos é logicamente montada para defender instalações essenciais, seguida de uma estratégia de defesa de ponto, com sistemas S-200 de longo alcance fornecendo uma barreira “standoff” ao longo da região costeira. No entanto, essa rede possui muitas falhas.

A principal desvantagem da rede líbia de SAM estratégicos é que está baseada em uma tecnologia soviética antiga. Os fabricantes russos atualmente produzem, indiscutivelmente, os mais avançados e capazes sistemas SAM de emprego estratégico no mundo. Muito do seu sucesso reside no fato de que eles têm produzido um conjunto diversificado de sistemas SAM com numerosas variantes. No entanto, essa história também apresenta um problema para as nações que ainda possuem a tecnologia mais antiga: o resto do mundo simplesmente a deixou de lado.

Avanços na guerra eletrônica e nos sistemas ECM fizeram com que muitos dos antigos sistemas da era soviética ficassem obsoletos em um ambiente moderno de combate aéreo. Os sistemas líbios S-75, S-175 e S-200 não são exceção. Além disso, apesar de algumas afirmações em contrário, a força líbia de SAM estratégico foi ineficaz durante as hostilidades com os Estados Unidos em meados da década de 1980.

Em um caso, autoridades militares soviéticas chegaram à conclusão de que o S-200 conseguiu derrubar três aeronaves da Marinha dos EUA em março de 1986, com base apenas na interpretação das leituras do radar (que poderiam indicar fragmentos de aeronaves)  e da presença da atividade de helicópteros na área, sendo esta atribuída aos esforços de CSAR (Busca e Salvamento de Combate). A USN (Marinha dos EUA) nunca adimitiu perdas de aeronaves durante o incidente, o que por si só não indica que nenhuma aeronave tenha sido perdida, mas os outras duas informações podem corroborar esta hipótese.

A eventual presença de fragmentos de aeronaves nas telas dos operadores de radar poderia ter sido atribuída ao lançamento de chaffs para ludibriar os radares, principalmente se a aeronave desceu abaixo do campo do radar de vista após isto. Além disso, a atividade de helicópteros na área não se limitou às operações de CSAR na USN, podendo ser patrulhas antissubmarino, busca e identificação de contatos de superfície, ou simplesmente voos em missões de dissimulação. Seja qual for o caso, as evidências não são conclusivas e não indicam que qualquer aeronave da USN tenha sido abatida palas baterias de S-200.

No final de 1986, a rede de SAM estratégicos da Líbia foi acionada durante a Operação ELDORADO CANYON, a resposta militar dos EUA ao apoio líbio a atos terroristas.O brigadeiro Vladimir Yaroshenko, um ex-oficial soviético encarregado de sistemas SAM da PVO, foi designado para analisar o pífio desempenho dos sistemas antiáreos soviéticos fornecidos à Líbia.  Yaroshenko constatou uma pobre cadeia de comando e controle, uma cobertura de radar pobre e uma falta de conhecimento das armas americanas antirradar e suas táticas. Um fato interessante que ele mencionou foi que as baterias de S-75 tinham uma altura mínima de engajamento de 100 metros, correspondentes ao sistema Volkhov S-75M como mencionado anteriormente.  Ele também confirmou que apenas um avião dos EUA, um F-111, foi abatido por fogo antiaéreo.

Parte do problema atual resulta de sanções internacionais impostas à Líbia durante a década de 1980 que, efetivamente, não permitiram que os sistemas obsoletos fossem atualizados. O resto do problema está nos próprios sistemas. Todos os três tipos de SAM estratégicos operados pela Líbia, foram exaustivamente estudados por agências de inteligência ocidentais, e muitos países ocidentais enfrentaram esses mesmos sistemas em combate por diversas vezes, permitindo a melhoria constante de contra-medidas eletrônicas.

Além disso, nenhum dos sistemas utilizados pela Líbia possui uma capacidade de engajamento de alvos múltiplos. Os únicos sites de SAM que representaram alguma ameaça para as aeronaves eram os de S-200, que possuíam vários radares  5N62 (Square Pair). Mesmo com a capacidade do sistema estratégico de SAM ser implantado visando a sobreposição de alcances de mísseis, o número relativamente pequeno de sites representa uma ameaça para apenas um pequeno número de alvos. Como resultado, toda a rede fica facilmente suscetível à saturação do sistema.

A segunda desvantagem para a rede estratégica de SAM da Líbia é o seu layout. Mesmo que estes sistemas mais antigos da era soviética ainda sejam confiáveis frente às ameaças regionais pouco modernas, o sistema ainda tem um número significativo de lacunas que poderiam ser exploradas. Os sistemas S-200 representam uma ameaça mais significativa sobre o mar, mas é limitado por ter uma altitude mínima de engajamento de 300 metros. Qualquer aeronave ou míssil que disponha de radar de acompanhamento de terreno seria capaz de explorar facilmente essa fraqueza e se aproximar da costa da Líbia. Uma vez alcançado litoral, o ponto mais óbvio de penetração seria a área adjacente ao golfo de Sidra, que é desprovida de sistemas de SAM estratégicos.

Além disso, como evidenciado na imagem apresentada anteriormente, existem lacunas entre as baterias de S-75 e de S-125 que poderiam ser exploradas. Isso, no entanto, não leva em consideração a presença de interceptadores, artilharia antiaérea, ou unidades de SAM táticos, uma vez que estes sistemas estão fora do escopo desta análise.

Conclusão

Em resumo, a rede da SAM estratégicos da Líbia requer a adição maciça de novas tecnologias para se manter viável no século XXI.  Ela não foi capaz de repelir um ataque há mais de vinte anos, e não há nenhuma razão para suspeitar de que ela seja capaz de tal ação hoje. A Líbia negocia a compra de avançados sistemas S-300PMU-2 (SA-20B Gárgula) russos, o que seria um longo caminho para modernizar a rede e restaurar a sua eficácia.

O Coronel Gaddafi tem feito grandes progressos em trazer a Líbia de volta à comunidade internacional, e merece uma grande quantidade de elogios por isso, mas tal medida não deve diminuir o desejo do governo líbio ou a responsabilidade deste em apresentar defesa adequada para os seus cidadãos.

FONTE: IMINT & Analysis (tradução, adaptação e edição: ForTe)

LEIA TAMBÉM:

Estudo do Ministério da Defesa revela fragilidade das Forças Armadas. Blindados, navios e caças sem condições de combate e concentração de tropas no Sudeste expõem deficiência.

Fernando Rodrigues
Igor Gielow

Um levantamento reservado com uma detalhada radiografia das Forças Armadas brasileiras mostra o sucateamento do equipamento militar do país. Explicita também as conhecidas distorções na distribuição de tropas no território nacional, confrontando o discurso oficial de que a Amazônia é uma prioridade. O estudo ao qual a Folha teve acesso é produzido pelo Ministério da Defesa e atualizado todo mês. Ele mostra que metade dos principais armamentos do país, como blindados, aviões e navios, está indisponível para uso.

O levantamento é usado provisoriamente pelo governo, enquanto não é elaborado o chamado “Livro Branco”, que trará, segundo decreto assinado neste ano, todo esse diagnóstico. O livreto obtido pela Folha tem 76 páginas e traz dados orçamentários, operacionais e de pessoal que são difíceis de encontrar com esse grau de detalhe.

Quando alguém precisa elaborar comparações com outros países, como fez a Folha em sua edição de 20 de fevereiro, a praxe é buscar fontes externas -confiáveis, mas não tão detalhadas. O documento usado nesta reportagem traz um inventário dos chamados meios de cada Força, ou seja, os principais equipamentos para uso em guerra.

O resultado dá argumentos aos defensores do reequipamento militar, um processo caro, demorado e que costuma esbarrar em obstáculos como pressões políticas.

O caso da Marinha é paradoxal. Especialistas consideram a Força a mais bem aparelhada, mas 132 dos seus 318 principais equipamentos estão parados. Metade dos 98 navios está no estaleiro. A aviação naval é figurativa: apenas 2 de seus 23 caças voam, e só para treino. Isso no fim de 2010 -hoje, só um funciona. O porta-aviões São Paulo ficou anos parado e agora está em testes.

DEFICIÊNCIA CRÔNICA

O Exército contribui para que o resultado geral de disponibilidade de meios atinja ilusórios 68% -isso porque a Defesa coloca na conta as “viaturas sobre rodas”, que basicamente são quaisquer veículos. Dessas, 5.318 das 6.982 estão funcionando. Dos 1.953 blindados do Exército, só metade está à disposição. Metade dos helicópteros está no chão, isso sem contar a deficiência crônica de defesa Aérea, maior fragilidade militar do país.

Por fim, a Força Aérea tem indisponíveis 357 dos seus 789 meios, que incluem 48 lançadores portáteis de mísseis, todos funcionando. O governo avalia ter 85 dos seus 208 caças disponíveis, o que parece algo otimista. Seja como for, a renovação da frota de combate, unificada em um modelo, está postergada novamente por causa de cortes orçamentários.

Fica também explícito um problema que a Estratégia Nacional de Defesa editada em 2008 promete combater. Na Estratégia, a Amazônia aparece como prioridade do Exército. Só que a disposição das tropas ainda reflete a ideia de que o país um dia poderia entrar em guerra com sua antiga rival, a Argentina, hoje longe de representar uma ameaça militar. A região Sul concentra 25% das Forças terrestres do Brasil, enquanto a área amazônica só tem 13% do efetivo. Outros 23% estão estacionados na área do Comando Militar do Leste, no Rio.

A concentração no Rio também é perceptível no poderio aéreo. Nada menos que um terço do efetivo da FAB está por lá, enquanto a enorme região Norte não soma 15% com dois comandos aéreos separados.

A Marinha também está baseada no Rio, de forma avassaladora: 71% do efetivo está lá. Há planos para criação de uma segunda esquadra no Nordeste e no Norte.

Essa concentração no Rio é uma herança dos tempos em que a cidade centralizava o poder no país.

ASSIMETRIA

A Estratégia critica essa assimetria na disposição geográfica das tropas, mas a mudança depende de vontade política e de recursos cuja justificativa sempre é difícil num país de tradição pacífica e cheio de problemas sociais.

Por fim, o mapa lembra também detalhes do comprometimento financeiro. Em outubro de 2010, o governo gastou quase igualmente com pessoal ativo, aposentados e pensionistas, somando uma folha salarial de R$ 2,9 bilhões naquele mês. No Orçamento de 2011, antes do corte anunciado recentemente pelo governo, a despesa com pessoal representava 72% do gasto total.

Ainda sobre pessoal, destaca-se a alta proporção de oficiais-generais. Há um deles para cada 971 homens. No mais poderoso exército do mundo, o americano, esse número salta para um para cada 1.400 soldados.

ANÁLISE DEFESA: Despreparo militar marca história do país

Num mundo de comunicação rápida, onde conflitos surgem a toda hora, falta de prontidão é receita de fracasso

Ricardo Bonalume Neto

Despreparo crônico em tempo de paz e, portanto, no começo de conflitos, é uma constante na história militar luso-brasileira. Por que seria diferente em pleno século 21? No passado, houve tempo para as Forças Armadas “pegarem no tranco” e terminarem bem-sucedidas em combate. Mas em um mundo de comunicações rápidas, de mísseis balísticos, de guerra eletrônica, essa tradicional demora na prontidão é uma receita perfeita para o fracasso.

Uma rara exceção no despreparo das Forças são as chamadas tropas de “pronto emprego” ou “ação rápida”. São núcleos de excelência que podem agir em emergências pontuais, como a aviação do Exército, os paraquedistas, os fuzileiros navais, os batalhões de selva. Um bom exemplo foi a rápida e eficiente reação em 1991, após guerrilheiros colombianos atacarem um posto de fronteira no rio Traíra e matarem três militares.

Em 1711, o francês René Duguay-Trouin tomou o Rio de Janeiro em ousado golpe. A cidade estava despreparada. Reforços vieram do interior -rapidamente, para os padrões da época-, mas já era tarde demais. Em 1808, os franceses tomam Portugal e a família real foge para o Brasil -mas o comboio precisou de escolta da Marinha britânica. Na guerra com a Argentina pela província Cisplatina (Uruguai), de 1825 a 1828, o Brasil começou colhendo fracassos, até se afirmar -principalmente no mar- e terminar o conflito em “empate”.

O exército paraguaio estava mais preparado que o brasileiro e até invadiu território do país na Guerra da Tríplice Aliança (1865-1870). A falta de preparo inicial levou a cinco anos de guerra. Em 1897 em Canudos, Bahia, o Exército também sofreu derrotas para os “jagunços” do líder religioso Antonio Conselheiro e mostrou sérias falhas de logística. Não havia tropas bem treinadas e equipadas para participar da Primeira Guerra Mundial (1914-1918); a Revolução Constitucionalista de 1932 foi uma série de improvisos do início ao fim pelos dois lados.

O Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) em agosto de 1942, mas só em julho de 1944 a Força Expedicionária Brasileira desembarcou na Itália -e, mesmo assim, era apenas uma das três divisões de infantaria inicialmente planejadas, e seu armamento era todo de origem americana.

As Forças Armadas do país têm operado bem em missões de paz ou na recente ajuda à polícia do Rio. Mas, como demonstrou o terremoto no Haiti, foi a rápida intervenção dos EUA que evitou uma tragédia ainda maior.

FONTE: Folha de São Paulo.

Quando ligamos a TV, lemos o jornal ou abrimos uma página com noticiários na internet somos bombardeados com informações sobre combates entre o governo líbio e rebeldes. Nomes como Brega, Ras Lanuf e Zawiyah são apresentados para o leitor sem que os mesmos tenham a menor noção do que isso representa, onde se localizam e qual a sua importância.

O site da Forças Terrestres, com o propósito de clarear a situação, preparou um texto mostrando a importância estratégica dos locais onde ocorrem os atuais combates e porque eles fazem a diferença para o desenrolar do conflito.

O petróleo na Líbia

Durante as décadas de 1920 e 1930 geólogos italianos levantaram dados e estudaram a região, mas não fizeram descobertas de campos de óleo e gás de caráter comercial. No pós-guerra, com o emprego de novas tecnologias e estudos mais detalhados, italianos, britânicos e norte-americanos identificaram áreas com possíveis ocorrências de hidrocarbonetos.

No início da década de 1950 ocorrências economicamente exploráveis foram identificadas na vizinha Argélia, então sob domínio francês. A notícia deu novo ânimo às pesquisas na Líbia. Em 1956 a companhia norte-americana Esso deu início à campanha de exploração do campo de Zelten (Bacia de Sirte), localizado a cerca de 170 km ao sul da cidade portuária de Brega. Os resultados indicaram existência de um campo gigante com aproximadamente 2,5 bilhões de barris de óleo leve. A produção de Zelten, renomeado Nasser, começou em 1961 e continua até os dias de hoje.

Deste então outras companhias também pesquisaram a região da Bacia de Sidra e encontraram os campos de Amal, Serir, Waha, Defa e Beda com óleo de excelente qualidade. Com a evolução das pesquisas geológicas em outras bacias sedimentares da Líbia, hidrocarbonetos economicamente exploráveis também foram encontrados no leste do país ( Bacias Ghadamis e Muruzq). Porém, os campos de petróleo do não possuem a mesma importância dos campos da Bacia de Sidra.

Junto com as descobertas foram construídos terminais para a exportação de petróleo e derivados, refinarias, oleodutos e instalações de apoio à indústria petrolífera. Atualmente, com um consumo interno baixo a produção anual de 1,8 milhões de barris/dia segue quase toda para o mercado externo.

Os principais terminais para exportação estão localizados ao sul do Golfo de Sidra (Al Sidrah, Ras Lanuf, Al Baryqah, Zawiyah e Al Haruqa) e a oeste de Trípoli (Zawiyah). Existem cinco refinarias, sendo uma em Zawiyah e as demais na região oeste.

Com uma reserva estimada em 41,5 bilhões de barris, a Líbia é o primeiro país do ranking africano em volume e o nono no mundo. Membro da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) desde 1962, o país beneficiou-se muito dos preços praticados na década de 1970, mas foi fortemente prejudicado na década de 1990.

A importância dos locais onde ocorrem os combates

Atualmente os principais combates entre as tropas do governo líbio e os rebeldes concentram-se ao sul do Golfo de Sidra, entre as cidades de Brega e Sirt, e na região oeste da capital Trípoli, principalmente na região urbana de Zawiyah. Com base no exposto acima, fica evidente a importância estratégica destas regiões. Até o ínicio desta semana as grandes refinarias do país (Zawiyah e Ras Lanuf) estavam nas mãos dos rebeldes e quase todos os terminais de exportação de petróleo também.

Há poucos dias o governo líbio realizou um enorme esforço para retomar a cidade de Zawiyah, ocupada pelos rebeldes. Esta cidade, próxima à capital e único porto exportador dos campos petrolíferos do leste do país e possui a segunda maior refinaria. Era vital para a sobrevivência do governo de Kadafi o controle desta importante região. “Porém, está muito longe de representar o ‘momento da virada”.

O domínio dos rebeldes sobre as reservas petrolíferas da Bacia de Sidra é vital para a economia do país. A região responde por 80% das reservas e é responsável por 90% da exportação de petróleo. Enquanto os rebeldes dominarem a região do sul do Golfo de Sidra, a falta de exportação de petróleo e seus derivados estrangularão a economia da Líbia, enfraquecendo o governo central. Portanto, para que o atual governo sobreviva é vital que retome o controle da região do sul do Golfo de Sidra e suas importantes instalações petrolíferas.

Do outro lado do problema

Por outro lado, quem mais sofre com a interrupção da importação de petróleo de origem líbia são os europeus (ver gráfico ao lado). De acordo com estudos ela US EIA, realizados em 2009, a Itália importa cerca de um terço do petróleo líbio. Alemanha, França e Espanha respondem por outro terço. Outros países europeus consomem perto de 14% do petróleo exportado.

E, ao contrário do que muitos podem pensar, somente 5% do petróleo seguem para os EUA, metade do que a China continental importa da Líbia. Não muito longe dos EUA está o Brasil, que consome 3% da produção.

FOTO: DTN News

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Um mito persistente, que dá voltas pela internet e às vezes pousa até na imprensa, é afirmar que o Brasil já teve uma das maiores indústrias de defesa do mundo. Variantes do mito falam que o país chegou a ter “a 3ª maior indústria bélica”, e que a empresa Engesa chegou a ser “o maior fabricante do Ocidente de blindados sobre rodas”. A Engesa, continuam os mitômanos, teria perdido uma concorrência para vender os tanques Osório na Arábia Saudita e terminou falindo “por pressão dos americanos”.

Entre 1980 e 1992, o auge da indústria bélica no país, “o Brasil esteve em todos esses anos, exceto 1981, entre os 20 maiores exportadores, chegando à sua máxima colocação, o 10º lugar, em 1985. Mesmo assim, o Brasil era responsável por menos de 1% do total mundial mesmo nesse ano. Depois de 1992 o país caiu fora da lista dos 20 maiores e não retornou desde então”, diz o pesquisador do SIPRI Sam Perlo-Freeman.

Ele lembra que a lista inclui apenas grandes armas convencionais, deixando de lado armas leves como fuzis, e que os valores dados em dólares de 1990 são indicativos, usados para servir de comparação. A metodologia faz sentido, pois nem sempre os valores reais de uma venda de armas são divulgados, e alguns países vendiam a preços bem diferentes. A antiga URSS, por exemplo, vendia armas bem mais baratas do que suas semelhantes ocidentais.

Pelas tabelas do SIPRI, no período de 80 a 92 o recorde de vendas foi em 1984, de 269 milhões de dólares, o que colocou o país em 11º entre os exportadores de armas. No mesmo ano, a então URSS vendeu o equivalente a 14 bilhões de dólares; os EUA venderam 11 bilhões; a Alemanha e a França venderam cada uma 2,8 bilhões de dólares de armamentos.

Em 1985, o ano em que o Brasil foi o 10º maior exportador, os números são parecidos: 202 milhões de dólares. Muito pouco, perto das vendas de 14,7 bilhões da URSS, 10,2 bilhões dos EUA, 3,6 bilhões da França, 2 bilhões do Reino Unido e 1,4 bilhão da China. Até a pequena Áustria vendeu mais armas que o Brasil nesse ano: 330 milhões de dólares.

“A Engesa era apresentada como a maior indústria de veículos blindados sobre rodas no ocidente. Jamais ao longo de minha carreira na Engesa, de 14 anos, encontrei alguma estatística que comprovasse o fato, nem como indústria, nem como exportadora”, diz o engenheiro e ex-executivo da empresa Reginaldo Bacchi.

As exportações de armas brasileiras se concentraram na Engesa e na Embraer e, em menor grau, na Avibrás Aeroespacial. Ainda hoje a Embraer é a principal exportadora na área militar do país, com produtos como os aviões de treinamento e ataque leve Tucano e Super Tucano, e as versões de avião-radar do EMB-145.

“Só posso atribuir a falência da Engesa à má administração. Os gastos com o Osório não foram nada excepcionais”, diz Bacchi.

A empresa teve sorte de ter desenvolvido suas armas em um momento histórico propício, no final dos anos 70. “Os exércitos no mundo tinham se equipado no fim da 2ª Guerra Mundial com equipamento vendido pelo Estados Unidos e Grã Bretanha a preço de banana, e estavam procurando substituí-los por coisa nova”, afirma o engenheiro.

Os países da Otan se concentravam em produzir equipamento destinado a combater os do Pacto de Varsóvia, nem sempre adequados para países do Terceiro Mundo. “Era um cenário tremendamente favorável a algumas indústrias nascentes do Brasil”, diz Bacchi.

Hoje o cenário voltou a travar o renascimento de uma indústria de defesa no país, algo que o Ministério da Defesa almeja. “Compra-se material da Alemanha, Grã Bretanha, Itália, França, Bélgica, Holanda novamente a preço de banana. Combinado a isto, os exércitos encolheram de uma maneira impressionante”, afirma o ex-executivo da Engesa. Sem uma política coerente e sustentada de compras constantes pelas forças armadas, não há como atrair as indústrias brasileiras para voltar a produzir armamento.

Ricardo Bonalume Neto
Repórter – Folha de S. Paulo

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Reunião do Conselho de Segurança da ONU - 9 de junho de 2010 - foto Reuters

Sanções são limitadas, diz analista que atuou no Conselho de Segurança. Para Heni Ozi Cukier, voto contrário do Brasil demonstra ‘viés ideológico’.

vinheta-clipping-forteA aprovação de uma nova rodada de sanções – a quarta – contra o programa nuclear iraniano pelos países que compõem o Conselho de Segurança da ONU é menos uma solução para o problema e mais a construção de um consenso para o próximo passo, que pode ser o uso de força militar, afirma o professor de relações internacionais Heni Ozi Cukier.

“O que pode acontecer agora, no máximo, é eles [iranianos] acelerarem o programa nuclear por sentir que o cerco está se fechando. O intuito é ganhar tempo, e é o que estão fazendo há dez anos e vão continuar até terem a bomba atômica. O que o mundo tem que decidir agora é: ‘Vamos aceitar o Irã com bomba atômica ou impedir isso usando a força?’”, disse por o professor, que é mestre Resolução de Conflitos Internacionais pela American University, de Washington.

Na opinião de Cukier, que já atuou no Conselho de Segurança da ONU, a aprovação de resoluções com novas sanções têm um efeito limitado, difíceis de aplicar na prática, e um significado simbólico de pressão política e construção de consenso.

Ele destaca, no entanto, com um dos pontos importantes da resolução aprovada nesta quarta pelo conselho a proibição da venda de armas como uma das medidas de maior impacto até aqui. “É uma sanção mais difícil de burlar, que implica na venda dos mísseis que o Irã comprou da Rússia, os S-300”, diz.

Brasil

No que diz respeito ao voto contrário do Brasil, o professor de relações internacionais da ESPM afirma que o país demonstrou “imaturidade” ao lidar com o assunto.

“Se até os aliados iranianos como China e Rússia votaram a favor, o Brasil votar contra não tem sentido. O Irã está descumprindo normas internacionais, e não são os EUA que dizem isso. Se o Brasil votasse a favor não estava indo em direção ao que os EUA querem, mas andando junto com a comunidade internacional, com a ONU e com a AIEA [Agência Internacional de Energia Atômica], que dizem que o Irã viola suas obrigações.”

Na opinião de Curkis, a política externa brasileira tem revelado um “viés ideológico” e “quase que uma obsessão” em tentar mostrar posições autônomas. O analista vê ainda na posição brasileira marcas de “ambições pessoais do presidente Lula de se mostrar com interlocutor mundial e outro status que ainda não detém, relacionado aos conflitos internacionais.”

FONTE: G1 FOTO: Reuters, via G1

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complexos em Arak, no Irã, e Kushab, no Paquistão - imagem Global Security

Reproduzimos aqui o comentário da leitora Elizabeth, enviado em 18/05/2010, às 2:30, na matéria “Israel diz que Irã enganou Brasil e Turquia“. Uma análise que coloca em perspectiva aspectos técnicos, políticos e estratégicos muito interessantes a respeito do acordo de troca de material nuclear para o Irã, costurado pela diplomacia brasileira e turca.

“Deixa-me rapidamente explicar a questão da “bomba iraniana”, um assunto complexo altamente resumido.

Para você ter uma bomba atômica é necessário dois tipos de combustível. Urânio acima de 90% ou Plutônio.

Enriquecer Urânio a 90% é caríssimo e demora, foi utilizado no projeto Manhattan como pulverização de risco, não se sabia ao certo se uma bomba de plutônio com a tecnológica da época seria possível nem se urânio a 90% seria viável, então se tentou as duas coisas e ambas deram certo, gerando duas bombas tecnicamente distintas, Fat Man (plutônio) e Litlle Boy (Urânio).

Desde os anos 50, o caminho pelo qual quase todas as bombas atômicas são feitas é pelo uso de plutônio. Para obter este combustível você coloca urânio e um reator e dentro de algum tempo ele produz plutônio.

A questão é que tipo de Urânio você precisa colocar em função do modelo de reator.

Reatores água leve pressurizada: Coloca-se urânio enriquecido.

Reatores água pesada ou grafite: Coloca-se urânio natural (sem enriquecimento).

Os engenheiros iranianos assim como seus colegas do projeto Manhattan sabem que tem muitos desafios técnicos proporcionais a sua tecnologia disponível, então decidiram partir por dois caminhos diferentes.

Caminho 1. O urânio é retirado de três minas na região central do país e levado a uma localidade chamada Ardacam, lá é purificado e gerado o Yellow Cake, depois em Fasa é feita a conversão para hexafluoreto de urânio que é enriquecido em Ramandeh. Este urânio volta para Fasa onde são montados os conjuntos de combustível e estes irão abastecer a usina de Bushehr. Esta usina esta em operação inicial desde o ano passado.

Este é um caminho muito análogo ao Brasileiro deste a mineração a usina o processo é eminentemente civil. O único jeito de construir uma bomba por este caminho é retirar plutônio da usina de Bushehr que é fiscalizada pelos russos e nem mesmo os EUA tem desconfianças quando a honestidade russa neste processo.

Caminho 2. Este é o caminho da bomba iraniana. O caminho do urânio é o mesmo desde as minas na região central até a conversão em Yellow Cake em Ardacam. Porem em Arak, próximo a Teerã há a um reator de água pesada sendo construído, este tipo de reator utiliza urânio natural (que não passa por enriquecimento e portando por controle de nenhum país externo), utiliza água pesada que é fabricada em Kondabh (também próximo a Teerã), ao fabricar água pesada o Ira não precisa de negociar com exportadores deste tipo de insumo da industria nuclear como Argentina e Canadá.

O reator presente em Arak tem algumas características digamos “suspeitas”,

O primeiro é a sua pequena potencia. Ele tem 40MW de potencia térmica o que dá menos de 5MW de potencia útil, se fosse utilizado para gerar eletricidade forneceria o suficiente para uma cidade de apenas 40.000 habitantes.

O segundo é a utilização de urânio natural, por ser moderado a água pesada (livre portando dos percalços políticos e tecnológicos associados ao enriquecimento de urânio).

O terceiro é a sua proximidade com Teerã, um local com pouca estabilidade sísmica (onde normalmente não se constrói reatores por motivos óbvios), mas que é mais facilmente defendido de um ataque aéreo pela proximidade com a capital. O reator de Bushehr por exemplo, esta a 1300Km de Teerã, as margens do golfo não é um lugar fácil de ser atingido por um inimigo, mas é construído em um dos únicos lugares sismicamente estáveis do Irã, por ser um reator comercial não é um algo militar legítimo.

O atual acordo de troca de urânio enriquecido em solo turco muda algo no “caminho da bomba”, na pratica não porque ele esta associado ao “caminho 1” onde os fins são a usina de Bushehr que tem a Rússia como fiadora e utilizações médicas e cientificas de material nuclear enriquecido.

Já o caminho 2, aquele que passa pelo reator de Arak este em nada é afetado, porque como vimos este tipo de reator opera com urânio natural.

EUA e Rússia sabem disto, que esta ofensiva diplomática brasileira dá ao Irã um credito político junto a comunidade internacional, porque afinal de contas o “Irã cedeu” em alguma coisa.

Cedeu porem em um aspecto que nada influencia seu “caminho da bomba”. E tenham certeza esta pirotecnia diplomática brasileira em muito irritou aos países que defendem sanções ao Irã, porque em nada impede o Irã de seguir o caminho da bomba.

Em muito ajuda ganhar tempo ao governo de Teerã.

Porque EUA e Rússia não criticam o Brasil abertamente? Em um primeiro momento para não parecer que estão com dor de cotovelo diplomático, até porque não estão; o que Lula fez foi ajudar Mahmoud Ahmadinejad a parecer mais “flexivel” perante o mundo enquanto seu plano da bomba continua inalterado.

O reator de Arak fica pronto daqui a 12 meses bem como a fabricação de água pesada em Kondabh. Estes são os alvos mais estratégicos para um ataque contra o Irã.

Até 2015 haverá plutônio suficiente para a produção das primeiras ogivas. A bomba atômica do Irã esta com seu make-up de engenharia pronto, falta o combustível e o iniciador de nêutrons.

Informações da Casa Branca, tendenciosas como aquelas produzidas contra o Iraque em 2003?

Não, isto são dados da inteligência russa, país que mais coopera com o Irã hoje em programas nucleares civis, mas que tem colocado mais energia política e diplomática nos últimos 5 anos para evitar um Irã nuclear.

Sabedoria política que sobra em Moscou, mas que falta em Brasília.”

Elizabeth

IMAGEM (complexos em Arak, no Irã, e Kushab, no Paquistão): Global Security

Obs – a imagem foi escolhida pela editoria do Blog, não pela autora do comentário.

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vinheta-clipping-forteDe acordo com uma pesquisa divulgada hoje, cerca de 7 em cada 10 afegãos aprovam a presença americana no país e 61% são a favor do aumento de tropas americanas e da OTAN. Entretanto o apoio a tropas estrangeiras diminui no sul e leste do país aonde os combates são mais intensos. De acordo com a pesquisa 10% apoiam o Taliban mas o número cresce para 27% no sudoeste do país.

A pesquisa selecionou aleatoriamente 1.534 adultos entre 11 e 23 de dezembro pelas redes ABC, BBC e alema ARD, essa é a quinta pesquisa delas desde 2005 possuindo uma porcentagem de erro de + ou – 3%. A pesquisa foi conduzida no campo pelo Centro Socio-Econômico e de Pesquisa de Opinião Afegão em Kabul.

Desde Janeiro de 2009 o número de afegãos que acham que seu país está no caminho certo também subiu 30%, chegando agora até 70% da população com esse sentimento e o número dos que acham que suas vidas estarão ainda melhores daqui há um ano também subiu 20%, chegando aos 71% da populacão nacional.  Também se foi perguntado quantos acreditavam que a próxima geração teriam vidas melhores e 61% responderam que sim, um aumento de 14% nos últimos doze meses.

Os números são menos otimistas em províncias como Helmand aonde a violência ainda e alta mas em geral 42% culpam o Taliban pela violência, um aumento no último ano de 15% enquanto 17% culpam os EUA, OTAN e o governo Afegão, número que era de 36% a um ano atrás.

FONTE: The Associated Press

Nota do Editor: Essa notícia deve surpreender muito daqueles que acreditavam que o povo afegão via os EUA como um invasor.

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