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Um mito persistente, que dá voltas pela internet e às vezes pousa até na imprensa, é afirmar que o Brasil já teve uma das maiores indústrias de defesa do mundo. Variantes do mito falam que o país chegou a ter “a 3ª maior indústria bélica”, e que a empresa Engesa chegou a ser “o maior fabricante do Ocidente de blindados sobre rodas”. A Engesa, continuam os mitômanos, teria perdido uma concorrência para vender os tanques Osório na Arábia Saudita e terminou falindo “por pressão dos americanos”.

Entre 1980 e 1992, o auge da indústria bélica no país, “o Brasil esteve em todos esses anos, exceto 1981, entre os 20 maiores exportadores, chegando à sua máxima colocação, o 10º lugar, em 1985. Mesmo assim, o Brasil era responsável por menos de 1% do total mundial mesmo nesse ano. Depois de 1992 o país caiu fora da lista dos 20 maiores e não retornou desde então”, diz o pesquisador do SIPRI Sam Perlo-Freeman.

Ele lembra que a lista inclui apenas grandes armas convencionais, deixando de lado armas leves como fuzis, e que os valores dados em dólares de 1990 são indicativos, usados para servir de comparação. A metodologia faz sentido, pois nem sempre os valores reais de uma venda de armas são divulgados, e alguns países vendiam a preços bem diferentes. A antiga URSS, por exemplo, vendia armas bem mais baratas do que suas semelhantes ocidentais.

Pelas tabelas do SIPRI, no período de 80 a 92 o recorde de vendas foi em 1984, de 269 milhões de dólares, o que colocou o país em 11º entre os exportadores de armas. No mesmo ano, a então URSS vendeu o equivalente a 14 bilhões de dólares; os EUA venderam 11 bilhões; a Alemanha e a França venderam cada uma 2,8 bilhões de dólares de armamentos.

Em 1985, o ano em que o Brasil foi o 10º maior exportador, os números são parecidos: 202 milhões de dólares. Muito pouco, perto das vendas de 14,7 bilhões da URSS, 10,2 bilhões dos EUA, 3,6 bilhões da França, 2 bilhões do Reino Unido e 1,4 bilhão da China. Até a pequena Áustria vendeu mais armas que o Brasil nesse ano: 330 milhões de dólares.

“A Engesa era apresentada como a maior indústria de veículos blindados sobre rodas no ocidente. Jamais ao longo de minha carreira na Engesa, de 14 anos, encontrei alguma estatística que comprovasse o fato, nem como indústria, nem como exportadora”, diz o engenheiro e ex-executivo da empresa Reginaldo Bacchi.

As exportações de armas brasileiras se concentraram na Engesa e na Embraer e, em menor grau, na Avibrás Aeroespacial. Ainda hoje a Embraer é a principal exportadora na área militar do país, com produtos como os aviões de treinamento e ataque leve Tucano e Super Tucano, e as versões de avião-radar do EMB-145.

“Só posso atribuir a falência da Engesa à má administração. Os gastos com o Osório não foram nada excepcionais”, diz Bacchi.

A empresa teve sorte de ter desenvolvido suas armas em um momento histórico propício, no final dos anos 70. “Os exércitos no mundo tinham se equipado no fim da 2ª Guerra Mundial com equipamento vendido pelo Estados Unidos e Grã Bretanha a preço de banana, e estavam procurando substituí-los por coisa nova”, afirma o engenheiro.

Os países da Otan se concentravam em produzir equipamento destinado a combater os do Pacto de Varsóvia, nem sempre adequados para países do Terceiro Mundo. “Era um cenário tremendamente favorável a algumas indústrias nascentes do Brasil”, diz Bacchi.

Hoje o cenário voltou a travar o renascimento de uma indústria de defesa no país, algo que o Ministério da Defesa almeja. “Compra-se material da Alemanha, Grã Bretanha, Itália, França, Bélgica, Holanda novamente a preço de banana. Combinado a isto, os exércitos encolheram de uma maneira impressionante”, afirma o ex-executivo da Engesa. Sem uma política coerente e sustentada de compras constantes pelas forças armadas, não há como atrair as indústrias brasileiras para voltar a produzir armamento.

Ricardo Bonalume Neto
Repórter – Folha de S. Paulo

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IEDs no Afeganistão

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Reunião do Conselho de Segurança da ONU - 9 de junho de 2010 - foto Reuters

Sanções são limitadas, diz analista que atuou no Conselho de Segurança. Para Heni Ozi Cukier, voto contrário do Brasil demonstra ‘viés ideológico’.

vinheta-clipping-forteA aprovação de uma nova rodada de sanções – a quarta – contra o programa nuclear iraniano pelos países que compõem o Conselho de Segurança da ONU é menos uma solução para o problema e mais a construção de um consenso para o próximo passo, que pode ser o uso de força militar, afirma o professor de relações internacionais Heni Ozi Cukier.

“O que pode acontecer agora, no máximo, é eles [iranianos] acelerarem o programa nuclear por sentir que o cerco está se fechando. O intuito é ganhar tempo, e é o que estão fazendo há dez anos e vão continuar até terem a bomba atômica. O que o mundo tem que decidir agora é: ‘Vamos aceitar o Irã com bomba atômica ou impedir isso usando a força?’”, disse por o professor, que é mestre Resolução de Conflitos Internacionais pela American University, de Washington.

Na opinião de Cukier, que já atuou no Conselho de Segurança da ONU, a aprovação de resoluções com novas sanções têm um efeito limitado, difíceis de aplicar na prática, e um significado simbólico de pressão política e construção de consenso.

Ele destaca, no entanto, com um dos pontos importantes da resolução aprovada nesta quarta pelo conselho a proibição da venda de armas como uma das medidas de maior impacto até aqui. “É uma sanção mais difícil de burlar, que implica na venda dos mísseis que o Irã comprou da Rússia, os S-300”, diz.

Brasil

No que diz respeito ao voto contrário do Brasil, o professor de relações internacionais da ESPM afirma que o país demonstrou “imaturidade” ao lidar com o assunto.

“Se até os aliados iranianos como China e Rússia votaram a favor, o Brasil votar contra não tem sentido. O Irã está descumprindo normas internacionais, e não são os EUA que dizem isso. Se o Brasil votasse a favor não estava indo em direção ao que os EUA querem, mas andando junto com a comunidade internacional, com a ONU e com a AIEA [Agência Internacional de Energia Atômica], que dizem que o Irã viola suas obrigações.”

Na opinião de Curkis, a política externa brasileira tem revelado um “viés ideológico” e “quase que uma obsessão” em tentar mostrar posições autônomas. O analista vê ainda na posição brasileira marcas de “ambições pessoais do presidente Lula de se mostrar com interlocutor mundial e outro status que ainda não detém, relacionado aos conflitos internacionais.”

FONTE: G1 FOTO: Reuters, via G1

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complexos em Arak, no Irã, e Kushab, no Paquistão - imagem Global Security

Reproduzimos aqui o comentário da leitora Elizabeth, enviado em 18/05/2010, às 2:30, na matéria “Israel diz que Irã enganou Brasil e Turquia“. Uma análise que coloca em perspectiva aspectos técnicos, políticos e estratégicos muito interessantes a respeito do acordo de troca de material nuclear para o Irã, costurado pela diplomacia brasileira e turca.

“Deixa-me rapidamente explicar a questão da “bomba iraniana”, um assunto complexo altamente resumido.

Para você ter uma bomba atômica é necessário dois tipos de combustível. Urânio acima de 90% ou Plutônio.

Enriquecer Urânio a 90% é caríssimo e demora, foi utilizado no projeto Manhattan como pulverização de risco, não se sabia ao certo se uma bomba de plutônio com a tecnológica da época seria possível nem se urânio a 90% seria viável, então se tentou as duas coisas e ambas deram certo, gerando duas bombas tecnicamente distintas, Fat Man (plutônio) e Litlle Boy (Urânio).

Desde os anos 50, o caminho pelo qual quase todas as bombas atômicas são feitas é pelo uso de plutônio. Para obter este combustível você coloca urânio e um reator e dentro de algum tempo ele produz plutônio.

A questão é que tipo de Urânio você precisa colocar em função do modelo de reator.

Reatores água leve pressurizada: Coloca-se urânio enriquecido.

Reatores água pesada ou grafite: Coloca-se urânio natural (sem enriquecimento).

Os engenheiros iranianos assim como seus colegas do projeto Manhattan sabem que tem muitos desafios técnicos proporcionais a sua tecnologia disponível, então decidiram partir por dois caminhos diferentes.

Caminho 1. O urânio é retirado de três minas na região central do país e levado a uma localidade chamada Ardacam, lá é purificado e gerado o Yellow Cake, depois em Fasa é feita a conversão para hexafluoreto de urânio que é enriquecido em Ramandeh. Este urânio volta para Fasa onde são montados os conjuntos de combustível e estes irão abastecer a usina de Bushehr. Esta usina esta em operação inicial desde o ano passado.

Este é um caminho muito análogo ao Brasileiro deste a mineração a usina o processo é eminentemente civil. O único jeito de construir uma bomba por este caminho é retirar plutônio da usina de Bushehr que é fiscalizada pelos russos e nem mesmo os EUA tem desconfianças quando a honestidade russa neste processo.

Caminho 2. Este é o caminho da bomba iraniana. O caminho do urânio é o mesmo desde as minas na região central até a conversão em Yellow Cake em Ardacam. Porem em Arak, próximo a Teerã há a um reator de água pesada sendo construído, este tipo de reator utiliza urânio natural (que não passa por enriquecimento e portando por controle de nenhum país externo), utiliza água pesada que é fabricada em Kondabh (também próximo a Teerã), ao fabricar água pesada o Ira não precisa de negociar com exportadores deste tipo de insumo da industria nuclear como Argentina e Canadá.

O reator presente em Arak tem algumas características digamos “suspeitas”,

O primeiro é a sua pequena potencia. Ele tem 40MW de potencia térmica o que dá menos de 5MW de potencia útil, se fosse utilizado para gerar eletricidade forneceria o suficiente para uma cidade de apenas 40.000 habitantes.

O segundo é a utilização de urânio natural, por ser moderado a água pesada (livre portando dos percalços políticos e tecnológicos associados ao enriquecimento de urânio).

O terceiro é a sua proximidade com Teerã, um local com pouca estabilidade sísmica (onde normalmente não se constrói reatores por motivos óbvios), mas que é mais facilmente defendido de um ataque aéreo pela proximidade com a capital. O reator de Bushehr por exemplo, esta a 1300Km de Teerã, as margens do golfo não é um lugar fácil de ser atingido por um inimigo, mas é construído em um dos únicos lugares sismicamente estáveis do Irã, por ser um reator comercial não é um algo militar legítimo.

O atual acordo de troca de urânio enriquecido em solo turco muda algo no “caminho da bomba”, na pratica não porque ele esta associado ao “caminho 1” onde os fins são a usina de Bushehr que tem a Rússia como fiadora e utilizações médicas e cientificas de material nuclear enriquecido.

Já o caminho 2, aquele que passa pelo reator de Arak este em nada é afetado, porque como vimos este tipo de reator opera com urânio natural.

EUA e Rússia sabem disto, que esta ofensiva diplomática brasileira dá ao Irã um credito político junto a comunidade internacional, porque afinal de contas o “Irã cedeu” em alguma coisa.

Cedeu porem em um aspecto que nada influencia seu “caminho da bomba”. E tenham certeza esta pirotecnia diplomática brasileira em muito irritou aos países que defendem sanções ao Irã, porque em nada impede o Irã de seguir o caminho da bomba.

Em muito ajuda ganhar tempo ao governo de Teerã.

Porque EUA e Rússia não criticam o Brasil abertamente? Em um primeiro momento para não parecer que estão com dor de cotovelo diplomático, até porque não estão; o que Lula fez foi ajudar Mahmoud Ahmadinejad a parecer mais “flexivel” perante o mundo enquanto seu plano da bomba continua inalterado.

O reator de Arak fica pronto daqui a 12 meses bem como a fabricação de água pesada em Kondabh. Estes são os alvos mais estratégicos para um ataque contra o Irã.

Até 2015 haverá plutônio suficiente para a produção das primeiras ogivas. A bomba atômica do Irã esta com seu make-up de engenharia pronto, falta o combustível e o iniciador de nêutrons.

Informações da Casa Branca, tendenciosas como aquelas produzidas contra o Iraque em 2003?

Não, isto são dados da inteligência russa, país que mais coopera com o Irã hoje em programas nucleares civis, mas que tem colocado mais energia política e diplomática nos últimos 5 anos para evitar um Irã nuclear.

Sabedoria política que sobra em Moscou, mas que falta em Brasília.”

Elizabeth

IMAGEM (complexos em Arak, no Irã, e Kushab, no Paquistão): Global Security

Obs – a imagem foi escolhida pela editoria do Blog, não pela autora do comentário.

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vinheta-clipping-forteDe acordo com uma pesquisa divulgada hoje, cerca de 7 em cada 10 afegãos aprovam a presença americana no país e 61% são a favor do aumento de tropas americanas e da OTAN. Entretanto o apoio a tropas estrangeiras diminui no sul e leste do país aonde os combates são mais intensos. De acordo com a pesquisa 10% apoiam o Taliban mas o número cresce para 27% no sudoeste do país.

A pesquisa selecionou aleatoriamente 1.534 adultos entre 11 e 23 de dezembro pelas redes ABC, BBC e alema ARD, essa é a quinta pesquisa delas desde 2005 possuindo uma porcentagem de erro de + ou – 3%. A pesquisa foi conduzida no campo pelo Centro Socio-Econômico e de Pesquisa de Opinião Afegão em Kabul.

Desde Janeiro de 2009 o número de afegãos que acham que seu país está no caminho certo também subiu 30%, chegando agora até 70% da população com esse sentimento e o número dos que acham que suas vidas estarão ainda melhores daqui há um ano também subiu 20%, chegando aos 71% da populacão nacional.  Também se foi perguntado quantos acreditavam que a próxima geração teriam vidas melhores e 61% responderam que sim, um aumento de 14% nos últimos doze meses.

Os números são menos otimistas em províncias como Helmand aonde a violência ainda e alta mas em geral 42% culpam o Taliban pela violência, um aumento no último ano de 15% enquanto 17% culpam os EUA, OTAN e o governo Afegão, número que era de 36% a um ano atrás.

FONTE: The Associated Press

Nota do Editor: Essa notícia deve surpreender muito daqueles que acreditavam que o povo afegão via os EUA como um invasor.

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por Gustavo Chacra

vinheta-clipping-forteIsrael capturou um navio carregado com centenas de toneladas de armamentos. De acordo com militares israelenses, o arsenal seria iraniano e o destino final era o Hezbollah, com escala no território sírio. A tripulação da embarcação foi abordada por autoridades de Israel e não sabia do carregamento. A Síria e o Irã, chamando os israelenses de piratas, disseram que o navio levava bens dos iranianos para os sírios, e não armamentos. As imagens, porém, são de um arsenal militar. Dificilmente poderia ser feita uma montagem tão rápida (assista ao vídeo aqui).

Se as armas tivessem como destino o Hezbollah, seria uma violação da resolução 1701, das Nações Unidas, que encerrou o conflito entre o grupo libanês e Israel em 2006. A mais grave, até agora, já que os dois lados desrespeitaram diversas vezes a determinação da ONU.

Os israelenses dizem possuir uma prova de que o Irã não está interessado na paz na região e busca armar grupos hostis a Israel e, no caso do Hezbollah, considerado terrorista pelos EUA – a organização, além do braço militar, possui, no Líbano, um partido político, uma rede de TV, creches e hospitais. A ajuda do Irã ao grupo está longe de ser novidade, com Teerã sempre dizendo que, se os EUA podem ter acordos militares com Israel, os iranianos também têm o direito de manter relaçõs com seus aliados.

O problema, para Teerã, é que não interessa o que eles pensam. Afinal, sempre acharão que Israel está errado e vice-versa. O que importa, no Oriente Médio, é a visão da comunidade internacional. Agora, com a interceptação de Israel, existe a imagem simbólica de um navio com mísseis que poderiam ser usados em ataques contra o norte israelense.

O carregamento interceptado ontem era grande e certamente estas armas farão falta para o Hezbollah, caso realmente fossem destinadas ao grupo. Ainda assim, segundo analistas militares, a carga confiscada representa apenas 10% do que o grupo libanês possui em estoque.

Do episódio, fica a pergunta sobre o por que de o Irã decidir enviar o carregamento por mar. Seria mais seguro, ainda que caro e com logística mais complicada, mandar as armas por via aérea pela Síria e, de lá, cruzar sem problemas para o Líbano, como feito muitas vezes. Talvez, como mostrou o Haaretz, o regime de Teerã e o de Damasco tenham obtido sucesso pela via marítima no passado, mas, agora, Israel intensificou suas operações no Mediterrâneo.

De qualquer forma, o cenário Israel x Irã está assim, na posição israelense

1 – Atacar as instalações militares preventivamente
2 – Manter a Guerra Fria

Caso opte pela opção 1, Israel tende a sofrer as seguintes consequências

a) matará civis iranianos e, mais uma vez, a imagem israelense ficará deteriorada diante da opinião pública internacional
b) não há certeza de que conseguirá sucesso em eliminar o suposto programa nuclear iraniano
c) poderá sofrer uma dura resposta do Hezbollah, caso o grupo concorde em cooperar com Teerã na retaliação

Com a captura do navio ontem, Israel buscará mostrar para a comunidade internacional que o Irã provocou antes. Isto é, abrandará o efeito A descrito acima. Também pressiona o governo libanês, dizendo que um ataque a Israel do Hezbollah será visto como um ataque do Líbano. Assim, tenta conter o grupo pela via doméstica libanesa e reduz a consequência C. Já o efeito B está nas mãos da Força Aérea israelense, considerada uma das mais preparadas do mundo.

Como acredito que o atual governo israelense não considera a opção 2, da guerra fria, uma saída favorável, eu diria que existe uma possibilidade grande de caminharmos, em breve, para uma operação militar israelense contra o Irã.

Os iranianos, por serem o lado mais fraco na matriz, esperam para Israel mover a sua peça antes de agir. Caso seja a opção 1 de Israel, deve aplicar as seguintes retaliações

a) fechar o golfo pérsico, fazendo o preço do petróleo disparar
b) sabotará os EUA no Iraque e no Afeganistão
c) pode usar o Hezbollah contra Israel, desde que consiga exercer mais força sobre o grupo do que os aliados cristãos da organização em Beirute

As medidas A e B afetam diretamente os EUA. Assim, Teerã busca usar Washington, que apenas teria a perder com o conflito, para impedir Israel de agir, ganhando tempo para completar o seu programa nuclear

Logo,

1 – Israel, Irã e Hezbollah podem ou não ganhar com o conflito
2 – Os EUA certamente perderiam, assim como o Líbano
3 – A Síria, sabe-se lá como, sairia ilesa mais uma vez

É, literalmente, um cabo de guerra. De uma certa forma, o Irã e Israel puxam para o mesmo lado, com uma ajuda síria. Libaneses (o governo) e americanos, para o outro. Os palestinos? Esqueçam, por enquanto.

FONTE: Blog “De Beirute a Nova York”

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EE-T4 ‘Ogum’

A história do blindado nacional que buscava um mercado

Na metade da década de 1980 a Engesa – Engenheiros Especializados S/A já havia se firmado como uma grande companhia na área de veículos militares sobre rodas. A carteira de clientes era bastante grande, variando entre países que fazem fronteira com o Brasil e nações da África e do Golfo Pérsico.

Com alguns países em especial a Engesa possuía um relacionamento bastante estreito. Um desses casos era o Iraque, então governado por Saddam Hussei e profundamente envolvido no conflito com o Irã. A origem do EE-T4 Ogum está vinculada àquele país do Golfo Pérsico.

Inspiração no Wiesel

Representantes do departamento comercial da Engesa estavam no Iraque quando foram indagados por autoridades militares daquele país se a empresa “tinha condições” de fabricar um carro com as características do alemão Wiesel. De volta ao Brasil, estes representantes comunicaram ao departamento de projetos da Engesa que os iraquianos “queriam” um veículo semelhante ao Wiesel.

Dois MaK Wiesel desembarcando de um helicóptero CH-53G do Exército da Alemanha. O exemplar da direita é do modelo TOW Al e o exemplar da esquerda é do modelo Mk 20 Al (FOTO: Bundesheer)

O Wiesel, desenvolvido pela Porshe e construído pela MaK da Alemanha Ocidental, era um veículo blindado leve, sobre lagartas sem equivalentes. O mesmo era classificado como “Airportable Armoured Vehicle”, uma verdadeira novidade naqueles tempos finais da “Guerra Fria”. Sua proposta era dotar as brigadas aerotransportadas do Exército da Alemanha Ocidental com um veículo blindado de reconhecimento e observação capaz de ser transportado e lançado a partir de aeronaves de transporte ou mesmo helicópteros pesados.

Ogum hostentando um padrão de camuflagem em quatro tons (FOTO: Engesa)

Quando a Engesa começou a trabalhar no Ogum, o Wiesel ainda estava em desenvolvimento e os primeiros exemplares só foram entregues para o Exército da Alemanha no final de 1989.

Assim, em fevereiro de 1985 foram iniciados os estudos para o desenvolvimento de um novo veículo blindado leve sobre lagartas. Designado EE-T4 e batizado com o nome “Ogum”, o primeiro protótipo teve a sua construção iniciada em novembro daquele ano, ficando pronto em maio de 1986.

Protótipos do EE-T4 Ogum realizando testes e demonstrações em terrenos não preparados (FOTOS: Engesa)

Este primeiro protótipo foi utilizado em ensaios mecânicos e um segundo exemplar logo ficou pronto e foi enviado ao Iraque para testes em campo. Com os resultados obtidos, decidiu-se modificar alguns pontos do projeto. Existem textos que citam a construção de um terceiro e um quarto protótipo . No entnato, esta informação não é confirmada por alguns autores. O que se sabe é que um dos protótipos foi equipado com uma torreta com duas metralhadoras. Este exemplar foi apresentado na Exposição Internacional de Equipamentos de Defesa em Bagdá em 1989.

Protótipo do Ogum exposto em frente ao prédioonde ocorreu a Exposição Internacional de Equipamentos de Defesa em Bagdá em 1989 (FOTO: Engesa)

Características

Por ser um blindado aerotransportado, o mesmo foi projetado para ser pequeno e leve. As dimensões externas do Ogum são compatíveis com o Wiesel alemão, sendo o blindado de origem nacional um pouco mais comprido e um pouco mais largo. As alturas são praticamente equivalentes, diferindo apenas no tipo de torreta adotada. Em relação ao peso, o Ogum é muito mais pesado que o seu equivalente alemão (4,4 toneladas contra 2,8 toneladas).

Chassi

Seu desenho era convencional, sendo a estrutura formada por uma única peça (monobloco) construída em chapas de aço semelhantes às utilizadas pelos Cascavel e Urutu. Desta forma, de acordo com o fabricante, o veículo possuía uma proteção balística efetiva contra projéteis típicos de infantaria.

O interior do monobloco era dividido, grosso modo, em três compartimentos. Na parte frontal, à direita, localizava-se o conjunto motor/transmissão. Ao lado do motor e ligeiramente recuado em relação à linha central do mesmo, sentava-se o motorista. Este possuía uma escotilha própria para acesso ao seu compartimento.

A parte posterior do veículo, onde se localizava o compartimento da torre, era dominada por um espaço que podia receber diversas configurações, dependendo da versão do veículo. No caso da versão de reconhecimento existia uma escotilha de acesso ao compartimento do comandante do carro.

Motor, suspensão e transmissão

Por ser um veículo blindado mais leve e compacto, recebeu uma motorização menos potente que os seus irmãos “mais velhos” Urutu e Cascavel. O primeiro protótipo foi equipado com um motor diesel Perkins, modelo QT 20B4, com quatro cilindros em linha, turbinado e refrigerado a líquido. Este motor desenvolvia 125 HP a 16000 rpm. A relação peso-potência era de 23.15 HP/tonelada. A autonomia chegava a 350 km a 70 km/h em estradas.

A transmissão era automática com quatro velocidades à frente e uma a ré. O modelo empregado era o AT 545, fabricado pela norte-americana Alisson Transmission. Esta mesma companhia desenvolveu e fabricou as transmissões dos carros de combate M1A1 Abrams. A série AT, na época do projeto do Ogum era um produto relativamente novo no mercado e atualmente é largamente empregada em veículos comerciais leves e médios.

O segundo protótipo recebeu um motor diesel BMW M21 D24WA que desenvolvia 130 HP a 4.800 rpm. Além da potência maior, este motor permitiu um pequeno aumento na velocidade (75 km/h) e no raio de ação (360 km). A transmissão foi substituída por uma ZF (Zahnrad¬fabrik Friedrichshafen) modelo 4 HP 22.

Comparado ao Weisel o Ogum, independente da motorização adotada, possui potência maior, mas a relação peso-potência é favorável ao modelo alemão (30.7 HP/tonelada), pois o mesmo é muito mais leve.

O sistema de suspensão não apresenta maiores surpresas, sendo do tipo barras de torção com três amortecedores e quatro rodas de apoio de cada lado. Além disso, existem duas rodas dentadas de direção (uma de cada lado) à frente e um conjunto de rodas tensoras na parte posterior. As lagartas são fabricadas pela empresa alemã Diehl e possuem sapata removível.

Versões e Armamentos

A intenção da Engesa era produzir uma família de blindados baseada no chassi do Ogum. A versão básica de produção seria um veículo de reconhecimento dotado de armamento leve. As versões propostas eram: um mini-APC (Armored Personnel Carrier) para até quatro soldados; um veículo de comando; um veículo ambulância (três feridos); um veículo anticarro; um veículo de transporte de munição e um veículo de transporte de morteiro de 120mm.

Por ter sido desenhado como um veículo de reconhecimento armado, a opção básica do Ogum era uma torreta com uma metralhadora .50 ou calibre 7,62mm em suporte simples. Posteriormente, em um dos protótipos foi instalada uma torre giratória com duas metralhadoras de 7,62mm.

Também foi projetada uma versão dotada de um canhão de 20mm. Com este armamento o veículo adquire maior poder ofensivo nas missões de reconhecimento ou ações de comando atrás das linhas inimigas.

Protótipo do EE-T4 Ogum equipado com uma torreta duas metralhadoras de 7,62mm (FOTO: Engesa)

Na versão anticarro, o Ogum seria equipado com uma torre dotada de dois mísseis. A idéia (assim como todo o projeto) não seguiu adiante e os detalhes desta versão ficaram somente no campo das especulações. No entanto, a capacidade de transporte de mísseis seria bastante limitada tomando como base o projeto Wiesel alemão. Na versão TOW ATGW o Wiesel é capaz de transportar sete mísseis.

Apenas para efeito comparativo, o Wiesel alemão foi fabricado somente em duas versões. A primeira delas era um veículo anticarro, denominada TOW Al (210 exemplares construídos) e a segunda estava equipada com um único canhão Rheinmetall MK 20 Rh 202 de 20mm (135 exemplares construídos).

Além do armamento descrito acima, todas as versões do Ogum seriam equipadas com tubos lançadores de granadas fumígenas para proteção aproximada.

Situação atual

Dos quatro exemplares construídos, só se conhece o paradeiro de um deles. O protótipo que se encontra em poder do Exército Brasileiro e está sob os cuidados do 13º Regimento de Cavalaria Mecanizado (13º R C Mec) localizado em Pirassununga/SP é, muito provavelmente, o segundo exemplar.

Como poder ser visto nas fotos, o mesmo encontra-se bastante descaracterizado. Restaurá-lo ao padrão original levará certo tempo. Externamente ele apresenta um padrão de camuflagem em dois tons bastante comum dos veículos atuais no EB. Não existem mais marcações nem identificações no chassi. Parte dos acessórios (ex. retrovisores) está em falta.

Fotos internas do Ogum. Na primeira foto a aprece o posto do comandante do carro. Na foto central é apresentado o compartimento do motor (sem o mesmo). Na foto da direita o compartimento do motorista do veículo. (FOTOS: Forças Terrestres)

Internamente a situação é bastante ruim. O compartimento do motorista está bastante danificado e com itens faltantes. Além da pintura desgastada, o revestimento do volante de direção encontra-se danificado.

Ao lado do motorista o compartimento do motor está praticamente vazio. Existem apenas algumas poucas peças que compunham o sistema de gases de exaustão e algumas mangueiras. O odor de óleo diesel no interior é forte.

Considerações Finais

É comum encontrar na literatura textos que propõem a “ressurreição” do projeto do EE-T4 Ogum.

Mesmo que um veículo com estas características se encaixasse na doutrina de Exército Brasileiro para o emprego de ações aerotáticas, dificilmente o baixo número de unidades encomendadas viabilizaria o projeto.

Atualmente não existe nenhum produto do mercado externo com as características do Ogum e tudo indica que não existe uma demanda para tal. O único eventual concorrente poderia ser o próprio Wiesel. Porém, este já teve a sua produção encerrada.

Das 345 unidades do Wiesel construídas, quase todas seguiram para o Exército Alemão. Alguns poucos exemplares foram adquiridos pelo Exército dos EUA para o desenvolvimento de veículos blindados sobre lagarta não tripulados. Talvez este seja um campo mais promissor para o mercado futuro de blindados de pequeno porte e aerotransportados.

O protótipo do Ogum representa um momento nostálgico para a indústria bélica brasileira. Suas características e sua singularidade são razões mais do que suficientes para uma devida preservação. É injustificável o fato do mesmo ainda não estar devidamente recolhido em local apropriado. Locais já existem, como o Museu de Blindados Conde de Linhares, localizado no Rio de Janeiro. Este seria um local ideal para a sua preservação.

CARACTERÍSTICAS DO EE-T4 OGUM

Dimensões*

comprimento: 3750mm

altura: 1355/1825mm

largura: 2145mm

Peso

4400kg

Motor

diesel quatro tempos com quatro cilindros em linha

Transmissão

automática com quatro velocidades à frente e uma a ré

Suspensão

tipo barra de torção

Desempenho

velocidade: 70-75km/h

autonomia: 350-360km

pressão sobre o solo: 0,32kg/cm2

rampa máxima: 60%

inclinação máxima: 30%

obstáculo vertical: 400-600mm**

trincheira: 1000-1500mm**

vau: 670-800mm**

Blindagem

proteção relativa contra projéteis de infantaria

Armamento

(opções)

- uma metralhadora 7,62mm ou .50″ para o comandante do carro e quatro lançadores de granadas fumígenas

- uma torreta com duas metralhadoras de 7,62mm e quatro lançadores de granadas fumígenas

(projetado)

- um morteiro de 120mm

- um canhão de 20mm

- lançador de mísseis anticarro

Comunicações

rádio VHF/UHF

*dimensões variam conforme o protótipo
** valores variam conforme a fonte dos dados

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Muito tem se falado recentemente sobre a parceria estratégica do Brasil com a França. Geralmente é mencionada a transferência de tecnologia, a modernização de equipamentos e até a parceria comercial e seus benefícios financeiros para o Brasil, mas fala-se nada ou muito pouco sobre a doutrina militar francesa e uma possivel influência sua nas FAs brasileiras.

Gostaria de tocar no assunto tão pouco debatido e tenho como intenção não uma crítica a determinado país, mas um momento de reflexão para os leitores mais leigos e até militares da ativa brasileiros. De maneira alguma digo que sou expert na matéria, mas trago o ponto de vista de um veterano de combate de alta intensidade, penso que tenho algo a oferecer àqueles que queiram ouvir.

Primeiramente vamos discutir o que é doutrina militar. Antes de tudo vale dizer que influências no processo estratégico são importantes e numerosas, a maioria é relativamente bem conhecida. Um exame detalhado de doutrina militar requer o entendimento de que doutrina tem ou deveria ter um impacto extraordinário no processo estratégico. Doutrina é uma matéria pouco definida, pouco compreendida e quase sempre confusa, apesar de ser de suma importância.

É possível encontrar várias definições de doutrina variando de país a país e corporação a corporação. Talvez a melhor definição, uma que é ao mesmo tempo precisa, lúcida e que não deixa fugir a importância do termo e também uma das mais simples: Doutrina militar é aquilo que acreditamos ser a melhor maneira possível de conduzir assuntos militares.

O uso da palavra “acreditamos” sugere que doutrina é o resultado do exame e interpretação da evidência disponível e também quer dizer que a interpretação está sujeita à mudanças de acordo com novas evidências, circunstâncias e tecnologias que são introduzidas.

A fonte principal de doutrina é a experiencia:: de certa forma doutrina é uma combinação daquilo que foi bem sucedido no passado. Porém, um dos maiores problemas é uma certa tendência dela estagnar-se e aí jaz a preocupação do autor. O pensamento intelectual militar francês não tem sido o estado da arte ou revolucionário há décadas. A experiência francesa após a 1GM reforça a noção do ponto citado, baseados na demonstrada superioridade da defesa durante a guerra das trincheiras, os franceses construíram as fortificações mais elaborados e sofisticadas do mundo, a Linha Maginot. A análise francesa das lições da história no pós-guerra não foi temperada pela mudanca tecnológica dos tempos.

Gostaria de citar alguns exemplos para ilustrar a estagnação ou tendência francesa a não liderar o campo intelectual militar. A Maioria já conhece as lições de 1940 e o fracasso doutrinário e estratégico francês, mas quantos de nós já estudamos sobre as operações francesas contra insurgência na Argélia?

Avancemos um pouco até a Guerra do Golfo, durante a fase da operação “Desert Shield”, o Reino Unido foi capaz de mobilizar 35.000 homens mais rápido do que a Franca foi capaz com seu contigente de 10.000 homens. Entre muitos dos fatores para isso, citados pelos próprios franceses, era uma doutrina logística falha e antiga, em comparação à dos ingleses.

A França em si também não foi a progenitora dos maiores avanços tecnológicos e intelectuais militares dos últimos anos, não foi em seus quartéis que surgiu a ideia e a implantação da debatida “Revolution in Military Affairs”, que sugere conhecimento situacional em tempo real ao comandante, por meios de comunicação, espaciais e inteligência, resumindo o famoso C4ISR (Comando, Controle, Comunicações, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento). A França não liderou o emprego e desenvolvimento de UAV e UCAVs, “network-centric warfare”, a tendência mundial de emprego de Brigadas, como as unidades de combate principais hoje, ao invés da Divisão, nanotecnologia, capacidades stealth, robótica.

Em quesitos de guerra assimétrica mais uma vez o pensamento francês também nunca foi tido como o estado-da-arte, sendo os ingleses com suas experiências em Borneo e Irlanda do Norte, Vietnamitas contra os americanos e os próprios franceses e agora os próprios americanos com suas experiencias atuais e a reviravolta do cenário estratégico e tático no Iraque (sem contar as Filipinas e as Guerras das Bananas). Todos esses sao geralmente aceitos como os mais experientes em guerra assimetrica, de maior sucesso e de doutrina mais efetiva.

Vejam bem, esses são apenas exemplos para ilustrarmos o ponto de vista do autor. Mais uma vez quero ressaltar que a França não deixa de ser uma potência militar regional e que muitos países devem invejar suas capacidades. Devemos ressaltar também, como já citou o leitor “Hornet” no blog, que a razão de ser da parceria sempre foi o Submarino Nuclear Brasileiro, a futura jóia da coroa estratégica do país.

Então, partindo da concordância de que a parceria comercial, os equipamentos e a transferência de tecnologia são excelentes e de suma importância para o Brasil, o que se diz da parceria estratégica militarmente falando e do risco da absorção de uma doutrina e pensamento militar não acostumado a ser o progenitor de revoluções intelectuais e doutrinárias?

Aproveitemos o conhecimento tecnológico que virá, os equipamentos e sistemas de armas em si, mas devemos ter cuidado com a influência doutrinária. Afinal, já tivemos a influência francesa antes e constatamos que tal doutrina estava defasada e derrotada nos campos europeus. Tivemos que reaprender tudo, desde as organizações de pelotões, até as divisões às pressas com os EUA, durante a mobilização da FEB.

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