segunda-feira, dezembro 6, 2021

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Após vídeo, soldado questiona treinamento militar dos EUA

Destaques

Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

ERIKA MONTOYA

Josh Stiebervinheta-clipping-forte“Collateral Murder”, um vídeo divulgado na semana passada pelo site www.wikileaks.org, mostra imagens de um helicóptero de combate Apache envolvido em um tiroteio que resultou em dezenas de vítimas fatais e em dois menores feridos, expondo uma vez mais os horrores e abusos acontecidos durante a ocupação americana do Iraque.

Diante dessa polêmica, será que é possível transcender à condenação desses atos de barbárie por meio de uma mudança fundamental nas atitudes do Exército dos Estados Unidos?
Josh Stieber, um soldado americano integrante do 2° batalhão do 16° Regimento de Infantaria, a unidade protagonista do vídeo, falou com o Terra sobre o incidente acontecido na manhã de 12 de julho de 2007, entre cujas vítimas fatais estão o fotógrafo Namir Noor Eldeen e seu motorista Saeed Chmag, que estavam trabalhando para a agência de notícias Reuters.

Stieber se alistou no Exército aos 18 anos e, como a maioria dos soldados que se integraram às Forças Armadas nos últimos oito anos, o fez com a intenção de defender o seu país contra a ameaça terrorista.

“Os atentados do 11 de setembro me afetaram muito. Eu estava no segundo grau quando eles aconteceram. Dias depois dos ataques, passei por perto do Pentágono e vi o grande rombo na parede do edifício. Fiquei preocupado com a possibilidade de que novo atentado semelhante acontecesse, e naquele instante mesmo comecei a me perguntar o que poderia fazer para manter a salvo as minhas pessoas queridas”, disse.

Dias depois de se incorporar ao Exército, Stieber começou a sentir emoções contraditórias.
“Não demorei a perceber diversas coisas. O treinamento não era apenas físico, mas psicológico; senti que os soldados eram submetidos a ele até o ponto em que se limitavam a seguir ordens. Também percebi que havia desumanização e coisas como essa, e isso me causou conflitos pessoais”, disse.

“Durante o treinamento, assistíamos a vídeos, como um no YouTube (Die Terrorist Die) nos quais se mostravam imagens de bombardeios, cenas tipicamente militares. Havia bastante violência e destruição, ao som de rock. Não demorava para que as pessoas na sala começassem a cantar, a acompanhar a letra e celebrar as mortes que o vídeo mostrava”, conta.
“Eu não cantava, porque a cena me incomodava, mas repetia a mim mesmo que, mesmo que eu não estivesse de acordo com aquele vídeo específico, em longo prazo os fins justificam os meios”, diz.

Hoje em dia, os soldados enviados para combater no Iraque e no Afeganistão treinam ao som de canções de marchas como a seguinte:
“Hoje fui ao mercado
Onde as mulheres fazem comprar
Saquei do facão
E comecei a cortar
Fui ao parque
Ver os meninos brincar
Saquei da metralhadora
E comecei a atirar”

“Minha reação ao assistir ao vídeo foi de choque, pois as cenas mostravam o meu esquadrão, e eu conhecia as pessoas que estavam naquele helicóptero, mas enquanto as via eu tinha em mente as minhas experiências pessoais no Iraque e nem mesmo considerei que aquele incidente fosse especialmente lamentável”, conta.

“Não é que eu esteja tentando criar uma justificação moral, mas a maneira pela qual esse vídeo está sendo exibido, o contexto que o mostra como algo de completamente incomum, um massacre desproporcional, é incorreta. O vídeo reflete uma situação bastante comum, e que eu vivi no Iraque”, diz.

Dos veteranos que combatem no Afeganistão e Iraque, 40% retornam aos Estados Unidos sofrendo de distúrbio de estresse pós-traumático. No ano passado, mais integrantes das forças armadas americanas morreram por suicídio do que como baixas nas duas guerras.

“Um dos meus amigos estava a bordo daquele helicóptero e viu quando eles estavam atirando contra algumas crianças. As imagens o afetaram profundamente, e o perturbaram por muito tempo. Ele deixou o exército e logo se tornou alcoólatra”, diz Stieber.

“Recentemente, conversei com ele, e me contou que a bebida pelo menos fazia com que seus pensamentos sobre o que havia acontecido naquele momento se dissipassem. Mas depois de assistir a esse vídeo e de estar no olho do furação durante o debate que ele gerou, nem mesmo o álcool bastava para apagar da mente dele aquelas memórias dolorosas”, diz.

As Forças Armadas dos Estados Unidos afirmam que “as vítimas morreram durante uma batalha entre soldados americanos e insurgentes, e não existe dúvida de que as forças da coalizão se viram envolvidas em operações de combate contra forças hostis”, disse ao jornal New York Times o tenente-coronel Scott Bleichwehl, porta-voz das Forças Armadas norte-americanas em Bagdá.
Josh Stieber acredita que o debate gerado pelo vídeo Collateral Murder, em lugar de se concentrar nas pessoas que participaram do incidente, deveria examinar um sistema que continua treinando jovens para que utilizem métodos questionáveis.

“Acredito que essa seja uma oportunidade de aprendizado. Se estamos assustados por a guerra ser assim, e se a realidade do vídeo nos causa choque, é hora de fazermos perguntas sérias sobre a instituição em geral; e talvez se fizermos as perguntas corretas, mudanças fundamentais possam começar a acontecer”.

No momento, Stieber integra a organização Iraq Veterans Against the War e participa ativamente de campanhas para promover a resolução não violenta de conflitos.

FONTE: Terra / Tradução: Paulo Migliacci ME

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Clésio Luiz
Clésio Luiz
11 anos atrás

Entenderam agora porque a “visita” americana em países como o Iraque e o Afeganistão continua a gerar mais e mais terroristas? É o que eu sempre digo: matar um terrorista não vai trazer paz para os EUA. Vai é fabricar mais 2 ou 3 novos terroristas. Todo mundo tem pai e mãe. Aquele que morreu não era considerado como terrorista por sua família. Ele lutava para expulsar os invasores. Agora seus parentes vão que a vingança da sua morte. E quem é que vai se aproveitar desse ódio? Os Bin Laden da vida. Violência gera violência. É como os traficantes… Read more »

bruno luiz
bruno luiz
11 anos atrás

Clésio Luiz disse:
16 de abril de 2010 às 17:02

Exatamente Clésio.
Outra coisa, isso mostra o que eu pensava e que outros também pensavam. Os EUA não querem a paz, querem garantir o petróleo deles. Ai de nós a nossa Amazônia.

gerson carvalho
gerson carvalho
11 anos atrás

Caros amigos o impressionante é que quando os EUA matam são herois agora se os outros matam vão para o tribunal internacional.

bruno luiz
bruno luiz
11 anos atrás

Minha foto não apareceu?

EL
EL
11 anos atrás

O ataque realizado pelos helicopteros acabou se mostrando uma tragédia, porém penso que o erro cometido pelos pilotos tenha sito totalmente justificável. Os piltos agiram em erro planamente justificável, pois os jornalistas se encontravam em uma zona de guerra, próximos a locais onde tropas estavam sendo atacadas e, como se não bastasse, estavam acompanhados por homens armados. Quem anda armado em uma guerra só pode ser duas coisas, aliado ou inimigo. Diante das circunstâncias, aqueles homens não demonstravam ser aliados ou pessoas neutras, mas sim insurgentes. O erro veio dos dois lados, dos jornalistas ao se exporem muito e possibilitarem… Read more »

Falcon
Falcon
11 anos atrás

Quem são os terroristas agora?….

Nação de doentes,viciados em guerra….

claudio (rj)
claudio (rj)
11 anos atrás

Curioso é que nenhum soldado da Russia que combateu na Chechênia ou chinês que lutou no Tibet venha a publico reclamar de sua instituição. Mesmo nos Marines as reclamações são poucas. Simples, o sistema principalmente em corpo de tropa é bruto, para se formar infantes tem de ser bruto senão o sujeito não aguenta o stress de uma ação real, as vezes até o treinamento. A grande maioria dos soldados dos EUA que reclamam entraram na F.A com vistas ao sistema de bolsas universidade e de repente se viram em uma luta brutal, para a qual desde o inicio por… Read more »

Cor Tau
Cor Tau
11 anos atrás

É crime verter fogo sobre civis desarmados principalmente quando prestam socorro a outras vítimas….É crime encobrir evidências de crimes de guerra….

http://www.youtube.com/watch?v=wMzoKxK3eYw

Skill
Skill
11 anos atrás

È..Guerra é isto…mexe com todos.

Não justifico nada aqui sobre matar crianças ou inocentes.

Digo que quem esta indo ja vai abalado..as vezes nao quer estar lá.

Outros querem ir…ja vão com intenções macabras.

Outros são loucos mesmo…

E há muita coisa em jogo…quem esteve em um ambiente hostil poderá dizer qual a sensação.

Então não julguem.

Leandro RQ
Leandro RQ
11 anos atrás

Concordo com o Skill Uma vez vi um documentário sobre o Vietnã. Um soldado se dizia arrependido de coisas que tinha feito na guerra. Mas logo depois se justificava falando que era tanta tensão, tanto sangue, amigos sendo mortos, gente querendo te matar, enfim, um inferno, que o cara mata o que vê pela frente e nem pensa no que fez. Só se preocupa em matar de novo, pois na guerra você precisa matar pra não morrer. Enfim, só estando lá pra entender o que se passa na cabeça dos caras. Outro dia passou no History Channel uma matéria sobre… Read more »

Vinicius
Vinicius
11 anos atrás

Concordo com o que o Clésio falou. Da mesma forma que o soldado da matéria sentiu desejo de se alistar em prol de seu povo e nação, os “terroristas” teem o mesmo sentimento para cometer tais ações contra os EUA.

Há muitas coisas nas guerras que nunca saberemos. Que bom que a tecnologia tem ajudado a transparecer as mazelas dos conflitos.

Cor Tau
Cor Tau
11 anos atrás

“Leandro RQ disse:
16 de abril de 2010 às 22:10”

É Leandro RQ…………Agora pergunta pra um politico de lá se ele se importa……Pra tu ve a verdadeira desgraça………..Pergunta pra uma desgraça daquela pra tu ver a resposta que vai dar pra ti…………..

http://www.youtube.com/watch?v=rppyIapxbIU

OTV
OTV
11 anos atrás

Não há justificativa para se matar crianças. Vi e critiquei isto aqui, mas vários vieram com o argumento de isto é a guerra. Entendo que é guerra, mas perder o sentimento de humanidade? Depois teremos mais e mais drogados e suicídas. O que piora tudo é que depois de retornarem às suas casas, o soldados americanos se dão conta de que invadiram um pais fraco, mataram pessoas que estavam apenas se defendendo da invasão, que por vezes assassinaram crianças. E ai meu amigo, uma vida inteira de traumas e frustações. E ainda tem uns psicopatas de plantão que dão apoio… Read more »

Skill
Skill
11 anos atrás

OVT olá, Minha opiniao: O cenário de conflito dos Pracinhas (que admiro muito!) é totalmente diferente. Praticamente era Guerra Regular, vc sabia quem era o inimigo pois ele esta numa posição e vc iria tentar dominar. E mesmo assim qd se pegava um guerrilheiro o pessoal não respeitava em nada! Nas Guerras que o EUA participaram recentemente comparado-as; Em 1991 o EUA tiveram uma guerra mais regular…e não ocuparam o território por muito tempo a ponto de sofrer com as guerrilhas. Ja nas Guerras atuais as coisas estão diferentes, combateram e estão ocupando o terreno a longo prazo. O resultado… Read more »

@MauroVS
@MauroVS
11 anos atrás

Clésio Luiz, entendi seu ponto de vista, sim. Só o amor constroi. Pelo seu ponto de vista, bandidos, traficantes e terroristas merecem consideração, compreensão e muito amor, em detrimento das vítimas passadas e futuras. Ou seja tem que deixar matar com toda liberdade sem reação alguma, até mesmo matar trombadinhas e ladrões de galinha. A ONU colocou o Iraque, que invadiu o Kwait matando a vontade, foi colocado sob o programa Oil For Food, Petróleo Por Alimento, contudo Saddam continuou a construir castelos em detrimento de medicamentos e alimentos a população, e também matava os curdos ao norte com armas… Read more »

Caipira
Caipira
11 anos atrás

Há um ano atrás mais ou menos, moradores de um bairro de classe média-alta do Rio ficaram horrorizados porque os soldados do BOPE em treinamento fisico pelas ruas do bairro entoavam sua tradicionais cantigas do tipo: “Homem de preto o que é que você faz? Eu faço coisas que assustam satanás! Homem de preto qual é sua missão? Subir pela favela e deixar corpos no chão!” Pra mim esse episódio ai é do típico cara que se alistou achando que a guerra é como nos jogos de vídeo game e ficou chocado com a realidade (normal, guerra deve ser algo… Read more »

OTV
OTV
11 anos atrás

não Skill ! Não estou fazendo comparação entre as guerras, isto é quase que impossível. Mas estou relembrando que aqui teve gente que enalteceu as condutas dos militares no vídeo, como se fossem heróis, e não vejo nenhuma atitude heróica naquilo. Crimes de guerra sempre vão existir, é da natureza humana. Erros também vão existir, somo humanos, e errar é humano. Mas isto não quer dizer que não possamos combater os crimes, nem que não devemos corrigir os erros. Mas tanto nos crimes de guerra, como nos erros, o início esta situado no treinamento, e sabe quando os americanos vão… Read more »

Tadeu s
Tadeu s
11 anos atrás

“Dos veteranos que combatem no Afeganistão e Iraque, 40% retornam aos Estados Unidos sofrendo de distúrbio de estresse pós-traumático. No ano passado, mais integrantes das forças armadas americanas morreram por suicídio do que como baixas nas duas guerras.” Ta bóm…. haja estomago então… Quando o soldado percebe que está matando a soldo de banqueiros, magnatas do petróleo, industria de armas e barões das drogas e que sua luta nada tem haver com liberdade e defesa de sua pátria, isto é um grande peso para pessoas normais, que entram em conflito com isto. Este tipo de guerra deveria estar a cargo… Read more »

Tadeu s
Tadeu s
11 anos atrás

Más, com o avanço das tecnologias de automatização, conflitos de consciência serão cada vez mais um problema menor.

Pois as desagradaveis mortes serão executadas cada vez mais, por máquinas, como num videogame, o soldado estará longe do campo de batalha, vendo tudo através de um vídeo e apertando botões em uma sala refrigerada…

E isto já e uma realidade. Basta ver os UCAVs em ação no Paquistão…

Capixaba
Capixaba
11 anos atrás

Alguma novidade??? Já vimos esse filme antes e não acredito que alguns companheiros d forum continuarão a defendê-los.

alexandre
alexandre
11 anos atrás

EL disse:
16 de abril de 2010 às 18:15
Acabei de ver o video e concordo plenamente com sua opiniao,ja na parte do socorro prestado pelo pessoal da van,nao sei quais as regras do exercito seguidas num caso desse,e se as mesmas sao validas para tropas nao regulares e insurgentes.

Falcon
Falcon
11 anos atrás

Engraçado como as figurinhas repetidas de sempre aqui da Triologia,que tem uma paixão irrefreavel por tudo que é norte americano , que realmente acreditam nesse conto de fadas,aka ”guerra ao terror” nem pisaram nesse tópico.Será esse mais um episódio de ”shit happens”?

Vader
Vader
11 anos atrás

Ééééé… a guerra é uma m. mesmo né?

Pois comecem a bombardear os terroristas com margaridas e rosas, e ensinem os soldados apenas a orar para Buda, Alá ou Cristo e dar a outra face aos terroristas. Na hora de fazer munição, em vez de explosivo usemos chocolate: os inimigos se deliciarão. E ao invés de lança-chamas comecemos a colocar suco de morango nos tanques…

Francamente, tem gente que acha que vive em outro planeta…

Falcon
Falcon
11 anos atrás

Admitir os erros e não dar declarações cinicas e mentirosas a grandes jornais como Washington Post e New York Times seria um bom começo para o alto comando N.A.

Ninguém aqui está questionando o uso de armas para se enfrentar um inimigo,nem questionando a legitimidade da invasão ao Iraque pois ambos não dizem respeito ao tópico,e nem quem são os supostos terroristas.O que está em questão é o corporativismo e a omissão dos militares nesse chacina.Se o senhor acha isso comum,e até desejável,só posso quota-lo:

”Francamente, tem gente que acha que vive em outro planeta…”

Vader
Vader
11 anos atrás

Fui eu que falei que na guerra “shit happens”, e é a mais pura verdade desde que o mundo é mundo. Não gostou? Coma menos! Estou absolutamente de saco cheio de ter de ficar respondendo a “soldados de poltrona” e “especialistas de internet” como você. Na guerra não há nada de bonito, justo ou nobre: a única coisa bela na guerra é a vitória. E, sim, a origem da guerra repousa no ROUBO! É assim desde que o primeiro homo sapiens plantou uma semente no chão, e deixou de ser nômade caçador-coletor para ser sedentário: desde lá que cada um… Read more »

Defourt
Defourt
11 anos atrás

[…]Quem não gosta da realidade que é a guerra, que vá comentar em sites religiosos, ou vá discutir outros assuntos: política, filosofia, futebol, mulher, o diabo…[…] Mas péra aí comentarista Vader de qual “realidade” está a falar? Estes soldados e homens-bomba GERREIAM em nome de “DEUS” (Alá). São islâmicos… Religiosos portanto. Eles REZAM antes de explodir qualquer coisa! E acreditam que ao morrer lutando vão para o paraíso com sete MULHERES virgens. Também crêem e propagam ser os Estados unidos o Satã (o Diabo). E denominam a “Jihad” como legítima doutrina para se alcançar o que desejam. Logo todos os… Read more »

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