quinta-feira, agosto 5, 2021

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Leniência na preservação da História

Destaques

Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

Vistas pelo estrito aspecto físico, as infiltrações e rachaduras que tomam conta da construção de estilo renascentista do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora (MG), representam uma permanente – e grave – ameaça à preservação do acervo da instituição, em torno de 50 mil objetos de arte. Entre as peças ali guardadas, que o tornam um dos maiores museus imperiais do país, estão ícones de episódios que o Império legou à História brasileira, como os trajes da coroação, da maioridade e do casamento de D. Pedro II, roupas da princesa Isabel e esculturas de artistas como Rodolfo Bernardelli, Marius Jean Mercié e outros.

Entre as pinturas, estão o “Tiradentes supliciado”, de Pedro Américo, e obras de artistas brasileiros e estrangeiros, um acervo celebrado internacionalmente. São relíquias que ajudam a entender o nosso passado, mas que, abrigadas num prédio interditado há quatro anos, em razão de danos estruturais provocados por uma inundação, sob risco de desabamento e sem recursos para reparação e manutenção, podem não ser preservadas para o futuro.

Mas o abandono do Mariano Procópio tem significado mais amplo do que a degradação física da instituição. Infiltrações, rachaduras e riscos para obras de arte, retrato comum a outros museus, são símbolos do pouco apreço que se dedica à preservação da memória iconográfica nacional. As goteiras que pingam em Juiz de Fora também inundam de negligência a política de conservação da História e da arqueologia brasileiras.

No início deste ano, um período prolongado de chuvas na Região Sudeste deixou sob ameaça, não só dos efeitos deletérios de infiltrações, mas até de desabamento, quase 30 museus no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e em Minas, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Museus. Em maio, um defeito no sistema de ar-condicionado da Biblioteca Nacional, no Rio, provocou um vazamento de água que danificou 2 mil jornais e revistas do acervo de periódicos da instituição. Em 1995, um temporal alagou a sala que abrigava a múmia egípcia do sacerdote Hori, no Museu Nacional, também no Rio. Um buraco no telhado quase provocou a perda total de uma das peças mais valiosas da coleção do museu da Quinta da Boa Vista.

Verbas escassas e/ou leniência quase sempre formam a equação de uma política ineficaz para preservar a memória do país. Aumenta a gravidade da negligência que marca o abandono do Mariano Procópio, e que representou o telhado incapaz de impedir a passagem da água da chuva no Museu Nacional, a particularidade de serem instituições com um simbolismo único na História brasileira. O museu de Juiz de Fora, por ser depositário de farta memorabilia do Império; o museu da Quinta, por ter sido a antiga residência de D. João VI, uma construção de onde emanava o poder na única cidade imperial da América Latina.

Junte-se a isso a falta de medidas simples, mas de grande alcance (turístico e histórico), como, por exemplo, não se dotar uma cidade como o Rio, palco de fatos cruciais da História do país, de sinalização que ressalte a importância de seus monumentos. São, em seu conjunto, demonstrações do pouco apreço pela preservação do passado, um desrespeito à memória do país.

FONTE: O Globo

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