domingo, outubro 24, 2021

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Impérios de ferro, punhos de ferro, domos de ferro

Destaques

Alexandre Galante
Jornalista, designer, fotógrafo e piloto virtual - alexgalante@fordefesa.com.br

THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, GANHADOR DO PULITZER, AUTOR DE BEIRUTE A JERUSALÉM, THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES – O Estado de S.Paulo

No sábado, fui a uma sinagoga próxima da fronteira síria, em Antakya, Turquia. Isso tem estado em minha mente desde então.

Antakya abriga uma pequena comunidade judaica que, nos feriados, ainda se reúne na pequena sinagoga sefardita. Ela é famosa também por seu mosaico de mesquitas e suas igrejas ortodoxas, católicas, armênias e protestantes.

Como pude ir à sinagoga na Turquia, no sábado, quando na sexta-feira, na margem oposta do Rio Orontes, na Síria, havia estado com rebeldes sunitas do Exército Sírio Livre envolvidos numa guerra civil em que alauitas e sunitas sírios estão se matando com base em documentos de identidade, curdos estão criando o próprio enclave, cristãos estão se escondendo e os judeus se foram há muito tempo? O que isso tudo está nos dizendo?

Para mim, suscita a questão sobre se existem hoje apenas três opções de governo no Oriente Médio: Impérios de Ferro, Punhos de Ferro ou Domos de Ferro? A razão para maiorias e minorias terem coexistido em relativa harmonia por cerca de 400 anos quando o mundo árabe era governado pelos otomanos turcos de Istambul foi que os otomanos sunitas, com seu Império de Ferro, monopolizaram a política.

Liberdade. Apesar das exceções, em geral os otomanos e seus representantes locais estavam encarregados de cidades como Damasco, Antakya e Bagdá. Minorias, como alauitas, xiitas, cristãos e judeus, cidadãos de segunda classe, não precisavam se preocupar de ser prejudicados por não governarem. Os otomanos tinham uma atitude de viver e deixar viver com relação a seus súditos.

Quando a Grã-Bretanha e a França dividiram o Império Otomano no Oriente árabe, elas transformaram em Estados as várias províncias otomanas – com nomes como Iraque, Jordânia e Síria – que não correspondiam ao mapa etnográfico. Assim, sunitas, xiitas, alauitas, cristãos, drusos, turcos, curdos e judeus viram-se compelidos a conviver dentro de fronteiras nacionais traçadas para servir aos interesses dos britânicos e franceses. Essas potências coloniais mantiveram tudo sob controle. Mas, quando elas se retiraram, as disputas pelo poder começaram e as minorias ficaram expostas.

Ditadores. Finalmente, no fim dos anos 60 e 70, vimos o surgimento de uma classe de ditadores e monarcas árabes que aperfeiçoou os Punhos de Ferro (e várias agências de inteligência) para se apoderar decisivamente do poder para sua seita ou tribo – e governou pela força sobre todas as outras comunidades.

Na Síria, sob o punho de ferro da família Assad, a minoria alauita governou uma maioria sunita, e, no Iraque, sob o punho de ferro de Saddam, uma minoria sunita veio a governar uma maioria xiita. Mas esses países nunca tentaram construir “cidadãos” reais que pudessem partilhar o poder e se alternar pacificamente nele. Portanto, o que se está vendo hoje nos países do despertar árabe – Síria, Iraque, Tunísia, Egito e Iêmen – é o que ocorre quando não há um Império de Ferro e o povo se levanta contra ditadores de punhos de ferro.

Estamos vendo disputas pelo poder – até que alguém possa forjar um contrato social de como as comunidades podem partilhar o poder.

Os israelenses responderam ao colapso dos punhos de ferro árabes que os cercam – incluindo a ascensão de milícias com mísseis no Líbano e Gaza – com um terceiro modelo. É o muro que Israel construiu ao seu redor para isolar a Cisjordânia, combinado com seu sistema antimísseis Domo de Ferro.

Os dois foram extremamente bem-sucedidos, mas com um preço. O muro juntamente com o domo está permitindo que líderes de Israel se isentem de sua responsabilidade de pensar criativamente uma solução para seu próprio problema de maioria-minoria com os palestinos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

Estou espantado com o que vejo aqui politicamente. Na direita, o Partido Likud, a velha liderança que ao menos se conectava com o mundo, falava inglês e respeitava a Suprema Corte de Israel, foi varrida para o lado na última eleição primária por um grupo ascendente de assentados ativistas de extrema direita que está convencido – graças, em parte, ao muro e ao domo – de que os palestinos não são mais uma ameaça e ninguém poderá forçar a retirada dos 350 mil judeus que vivem na Cisjordânia.

O grupo de extrema direita que hoje governa Israel é tão arrogante, e tão indiferente às preocupações americanas, que anunciou planos para construir um enorme grupo de assentamentos no coração da Cisjordânia – em retaliação à votação na ONU para conceder o status de Estado observador aos palestinos – apesar de os Estados Unidos terem feito tudo que puderam para bloquear essa votação e os assentamentos comprometerem qualquer possibilidade de um Estado palestino contíguo.

Nesse ínterim, com algumas exceções, o domo e o muro isolaram a esquerda e o centro israelenses dos efeitos da ocupação israelense de tal forma que seus principais candidatos para as eleições de 22 de janeiro – incluindo os do velho Partido Trabalhista de Yitzhak Rabin – não estão nem sequer propondo ideias de paz, mas simplesmente admitindo a primazia da direita nessa questão e focando na redução do preço das moradias e o tamanho das classes escolares. Um líder assentado contou-me que o maior problema na Cisjordânia hoje são os “engarrafamentos de trânsito”.

Agrada-me que o muro e o Domo de Ferro estejam protegendo os israelenses de inimigos que lhes desejam fazer mal, mas temo que o muro e o Domo de Ferro também os estejam cegando para as verdades que eles precisam urgentemente enfrentar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

FONTE: The New York Times via O Estado de S. Paulo

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Renato Oliveira
Renato Oliveira
8 anos atrás

Novamente Tom Friedman falando algumas coisas legas com bastante LIXO. Quem lê seus textos tem a impresão que a paz ainda não veio única e exclusivamente pela má vontade israelense.

Quando os árabes dizem ‘não negociamos, a não ser que…’, ninguém os critica. Já falei em outros lugares, e todos os líderes dos EUA, Israel e outros países já falaram também: a única solução é israelenses e árabes se sentarem à mesa de negociações. Não fazendo malabarismo na ONU, mas fazendo concessões.

Mostre-me um governante árabe disposto a negociar e eu lhe mostro um político brasileiro que não é corrupto.

Blind Man's Bluff
Blind Man's Bluff
8 anos atrás

Voce ja foi pra Israel? Fala como se fosse um israelense nato!

Marcelo "Ostra" Lopes
8 anos atrás
Renato Oliveira
Renato Oliveira
8 anos atrás

Caro BlindMan, Ainda não tive o prazer de ir a Israel. Mas eu vejo informações não apenas de mídias de grande circulação, mas de mídias de baixa circulação também. E as mídias de baixa circulação descreveram informações que levaram meses para aparecer na mídia de grande circulação, isso quando apareceram. Um exemplo é o número de mortes na operação Chumbo Endurecido, 2008-2009. Tanto o número de mortes quanto o percentual de combatentes foram adequadamente descritos meses antes de o Hamas divulgar informações oficiais, com valores muito próximos aos oficiais deles. A IDF divulgou tais números rapidamente, mas a mídia grande… Read more »

Bosco Jr
Bosco Jr
8 anos atrás

Renato, Acabo de ver no JN que o líder do Hamas disse textualmente em um discurso público que não admite em hipótese alguma a existência de Israel e que considera toda a região da Palestina (do rio Jordão ao Mediterrâneo) dos palestinos. E prometeu libertar a região e livrá-la dos israelenses. Pode se tratar de mais um analfabeto funcional, que como o Ahmadinejad não quis dizer o que disse ou não disse o que quis dizer, e pode ser que algum “linguista” dê outra interpretação à seu discurso, mas tudo leva a crer que você está com a razão e… Read more »

Renato Oliveira
Renato Oliveira
8 anos atrás

Grande Bosco! Alguns sites, como CAMERA e MEMRI traduzem vídeos de autoridades políticas e religiosas, originalmente em árabe/farsi/etc. Embora o discurso de tais líderes para com Europa/EUA tenha mudad ao longo dos anos, o discurso para o próprio povo, em suas línguas nativas, é muito consistente, e isso já tem muito tempo. Liberar a ‘Palestina’ do rio até o mar é o chavão favorito deles. Desde o acordo de Oslo, em 1993, o discurso político israelense mudou muito. Opiniões que soariam como heresia na década de 1990 hoje é abraçada até pela direita. Do lado árabe/muçulmano, a recusa em obedecer… Read more »

Blind Man's Bluff
Blind Man's Bluff
8 anos atrás

Aqui, fora do Brasil, até mesmo jornalistas ‘gringos’ achavam que a politica petista estava empenhada em combater as desigualdades…!!!

Limitado a este tipo de informação, até mesmo eu, brasileiro, cheguei a acreditar!

Blind Man's Bluff
Blind Man's Bluff
8 anos atrás

E que o Brasil ‘talvez’ estivesse melhorando!

Que piada! Hoje a mascara petralha esta caindo. Quem cisma em acreditar é como diz o ditado: Só existem 2 tipos de petistas. O burro e o rabo preso.

Acho dificil alguem que não more aqui nos EUA, Israel, França ou qualquer outro estado polemico, seja um ‘especialista’, só pq le “as mídias de baixa circulação”. Nem aqui sabe-se ao certo o que é verdade e o que é mentira com tantos segredos, ignorancia e desinformação.

Vader
8 anos atrás

Trecho do blog do Reinaldo Azevedo: “Khaled Meshaal, o líder mais importante do Hamas, que vive no Catar – esta estranha tirania que dá apoio à dita Primavera Árabe… –, visitou neste sábado a Faixa de Gaza. Falando a uma multidão, que se estimou em 500 mil pessoas, sob as bênçãos de um foguete M75, de fabricação iraniana, Meshaal deu a sua contribuição à paz: afirmou que o Hamas jamais reconhecerá Israel, que todo o território é palestino “do rio ao mar, do Sul para o Norte”, referindo-se ao Rio Jordão e ao Mar Mediterrâneo. Segundo ele, os palestinos não… Read more »

Renato Oliveira
Renato Oliveira
8 anos atrás

Caro BlindMan, Concordo parcialmente com você.’Verdade’ é um termo relativo. Dependendo da fonte de informações e suas crenças/ideologias, o mesmo fato pode ser interpretado de diversas formas. Stalin foi um grande líder ou um genocida? Chávez é amigo do seu povo ou um desastre para a Venezuela? O que temos na Síria, uma guerra civil ou distúrbios isolados? Mas eu peço novamente: provem que estou errado. Veja as atitudes dos muçulmanos. Quantos países muçulmanos da região do MENA reconhecem Israel? Quantos deles tem embaixadas em Israel, quantos conversam sobre paz com Israel? Se minhas fontes estiverem erradas, então com certeza… Read more »

Drcockroach
Drcockroach
8 anos atrás

Um dos motivos p/ o reconhecimento da Palestina como estado observador pela ONU foi dar suporte ao Presidente Palestino Abbas, ligado ao Fatah e que reconhece o direito de Israel existir. Abbas foi recebido como festa de heroi em Ramallah, West Bank, pertinho de Jerusalem. Poucos dias depois o hamas, uma organizacao terrorista em Gaza, recebe este “bolivariano religioso” tb com festa de heroi: coincidencia? O hamas coordenada em Gaza uma ampla rede de bem-estar social aos seus simpatizantes, incluindo hospitais, escolas, etc. O dinheiro vem tb do Qatar (aliado dos EUA), sede da 379th Air Expeditionary Wing dos EUA,… Read more »

Blind Man's Bluff
Blind Man's Bluff
8 anos atrás

A verdade é um fato absoluto e imparcial. Sua interpretação sim é relativa. Vc fala de povo, de raças, de religião e fala de lideres. Todos temas de propaganda. Propaganda que leva os ignorantes a guerra! Em nenhum momento você toca na ajuda bilhonaria americana à industria belica/tecnologica israelense, nem as consequencias de uma eventual paz no oriente médio sobre a necessidade desse imenso ‘gasto’ com a defesa no oriente medio. Seja o orçamento israelense, sejam dos compradores de armamento como Arabia Saudita, UAE, … O que aconteceriam com as industrias domesticas israelenses, sua praça financeira e o desemprego, caso… Read more »

Renato Oliveira
Renato Oliveira
8 anos atrás

Caro BlindMan, Concordo que a verdade enquanto fato é absoluto. Mas os fatos devem ser interpretados por humanos para que humanos possam compreender. Então dizer que a verdade é relativa, grosso modo, continua sendo uma afirmação correta. Os temas de propaganda que eu falo, não falo por acreditar neles, mas por serem os temas que os ‘tolos úteis’ (termo cunhado por Stalin ao se referir aos ‘comunistas’ em geral) e inimigos de Israel mais usam. Quanto à ajuda bilionária dos EUA, ela é gasta, em praticamente sua totalidade, com as forças militares de Israel, a IDF. O dinheiro está atrelado… Read more »

trackback
8 anos atrás

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