O presidente da Bielorrússia, Alessander Lukashenko, provavelmente busca usar o Grupo Wagner na Bielorrússia para comprar espaço de manobra para se equilibrar contra a campanha do Kremlin para absorver a Bielo-Rússia por meio do Estado da União. Lukashenko descreveu detalhadamente como se inseriu no conflito Putin-Prigozhin de uma forma que – se o relato de Lukashenko for verdadeiro – demonstra que Lukashenko é um ator politicamente experiente, capaz de exercer influência nos escalões superiores da política russa. Lukashenko descreveu como conseguiu intermediar o acordo entre Putin e um lívido Prigozhin, que se recusou a atender os telefonemas de Putin, envolvendo habilmente ambas as partes diretamente e por meio do vice-ministro da Defesa russo, Yunus-Bek Yevkurov, e do diretor russo do FSB, Alexander Bortnikov.

O elaborado relato de Lukashenko sugere que Lukashenko mediou com sucesso uma crise dentro do próprio círculo íntimo de Putin, algo que Putin não conseguiu. Lukashenko interveio para mediar, provavelmente em parte para sinalizar a Putin e outros altos funcionários do Kremlin que Moscou não deveria brincar com Lukashenko e que Lukashenko tem a capacidade de operar com sucesso e de forma independente dentro da política russa. A vanglória de Lukashenko sobre sua capacidade de manipular agentes de poder dentro do círculo mais íntimo de Putin é humilhante para Putin, seja verdade ou não. O fato de Putin não ter contestado a apresentação dos eventos de Lukashenko e, de fato, ter agradecido publicamente a Lukashenko é ainda mais humilhante.

Lukashenko provavelmente procura controlar de perto quaisquer forças do Grupo Wagner que se movam para a Bielorrússia. Lukashenko enfatizou que o Grupo Wagner não abrirá centros de recrutamento na Bielo-Rússia, como fez na Rússia, mas que os bielorrussos – e presumivelmente outros cidadãos – poderão ingressar no Grupo Wagner na Bielorrússia.

A descrição de Lukashenko sugere que o Grupo Wagner atuará principalmente como um parceiro de treinamento e consultoria para os militares bielorrussos. Lukashenko afirmou que as forças de Wagner têm mais treinamento do que os militares bielorrussos e que os militares bielorrussos poderiam se beneficiar da extensa experiência de combate do Grupo Wagner. Lukashenko negou as alegações de que as autoridades bielorrussas já começaram a estabelecer campos de campo para os combatentes do Grupo Wagner, mas disse que a Bielorrússia criaria campos se Wagner os solicitasse.

Lukashenko pode tentar usar o Grupo Wagner na Bielorrússia para reduzir a dependência estrutural acumulada dos militares bielorrussos dos militares russos para funções operacionais mais altas. Lukashenko pode tentar usar o Grupo Wagner para ajudar a reconstruir a capacidade perdida dentro das forças armadas bielorrussas que os militares bielorrussos delegaram em grande parte ao Distrito Militar Ocidental da Rússia. A dissolução do comando terrestre unificado pelos militares bielorrussos em 2011 efetivamente subordinou os militares bielorrussos ao Distrito Militar Ocidental.

A Bielorrússia não tem experiência recente na condução de operações em larga escala ou na organização de exercícios acima do nível de batalhão. A principal fonte de conhecimento e experiência da Bielo-Rússia para atividades operacionais superiores são os exercícios organizados pela Rússia, como os exercícios recorrentes Zapad, Union Shield e Unbreakable Brotherhood. O Grupo Wagner tem experiência na condução de operações de armas combinadas com formações maiores do que os serviços de combate dos militares bielorrussos. No entanto, não está claro o quão bem-sucedido esse esforço avaliado pode ser. A subordinação operacional dos militares bielorrussos ao Estado-Maior russo tem sido uma realidade de fato há muitos anos, e reverter tais vínculos institucionais profundos será difícil, se possível. A crise de estabilidade do novo regime da Rússia pode oferecer novas oportunidades para Minsk, no entanto.

Lukashenko também anunciou em 27 de junho que a Bielorrússia havia recebido um número não especificado de armas nucleares russas em uma data anterior – um desenvolvimento que Lukashenko também pode usar para contrabalançar a campanha do Kremlin para absorver a Bielo-Rússia por meio do Estado da União.

Trabalhadores ferroviários da oposição bielorrussa afirmaram em 27 de junho que armas nucleares russas serão entregues na base da 2631ª Base de Armazenamento de Mísseis e Munições Aéreas em Prudok, Vitebsk Oblast. Lukashenko observou em 27 de junho que ninguém entrou em guerra com uma potência nuclear e insinuou que Belarus usará armas nucleares se um estado hostil atacar Belarus. Este desenvolvimento é mais interessante pela forma como Lukashenko pode usar a implantação de armas nucleares na Bielorrússia para se posicionar contra a Rússia do que por qualquer ameaça que as armas nucleares na Bielo-Rússia representem para a OTAN ou a Ucrânia.

Lukashenko pode usar a implantação de armas nucleares táticas russas na Bielorrússia em conjunto com uma nova presença do Grupo Wagner na Bielorrússia para argumentar que a Bielorrússia tem uma nova capacidade de se defender independente da Rússia e que bases russas adicionais na Bielorrússia são, portanto, desnecessárias. Um indicador desse curso de ação será se Lukashenko permite que mais militares russos treinem em campos de treinamento bielorrussos. As autoridades ucranianas afirmaram que havia aproximadamente 1.000 militares russos na Bielo-Rússia no início de junho de 2023 – uma queda acentuada em relação à primavera de 2023, quando as autoridades ucranianas relataram que cerca de 9.000. Outro indicador seria uma promessa explícita ou rejeição de bases permanentes das forças terrestres russas na Bielo-Rússia.

O atual jogo de poder Putin-Lukashenko-Prigozhin ainda não acabou e continuará a ter consequências de curto e longo prazo que podem beneficiar a Ucrânia. Diretor da Guarda Nacional Russa (Rosgvardia) Viktor Zolotov anunciou em 27 de junho que Rosgvardia receberá armas pesadas e tanques. O anúncio indica que o Kremlin está tentando resolver os problemas de segurança do regime que ocorreram durante a rebelião armada de Prigozhin em 24 de junho – como a incapacidade ou falta de vontade das forças de segurança da Rússia de repelir um avanço mecanizado em Moscou.

A transferência de equipamento militar pesado para Rosgvardia para segurança interna amarrará armas que poderiam ser usadas na Ucrânia. O MoD russo também anunciou em 27 de junho os preparativos para transferir o equipamento militar pesado do Grupo Wagner para elementos não especificados das Forças Armadas Russas. Esta transferência privará as forças de Wagner de equipamento mecanizado pesado orgânico e sugere que o MoD russo procura dissolver unidades Wagner anteriormente separadas, atomizar combatentes do Grupo Wagner e integrá-los em unidades russas regulares para minimizar o risco de tentativas repetidas de motim dirigidas por Wagner. A transferência anunciada do equipamento de Wagner para elementos do MoD também sugere que é improvável que as forças de Wagner sejam implantadas em breve para reforçar as linhas de frente na Ucrânia antes de passarem por uma reorganização.

Ainda não está claro se o MoD russo dissolverá os destacamentos de Wagner e realocará o pessoal de Wagner para unidades regulares pré-existentes. Tal reorganização drástica seria equivalente à dissolução do Grupo Wagner na Ucrânia como uma entidade organizacional distinta e eliminaria o poder de combate único que o Grupo Wagner desenvolveu para si mesmo na Ucrânia. Uma decisão do MoD russo de manter unidades Wagner separadas dentro da estrutura do MoD representaria riscos de estabilidade ao subordinar forças Wagner anteriormente independentes e superintencionadas sob o comando militar altamente burocrático do MoD. As forças separadas de Wagner provavelmente continuariam a representar uma ameaça interna à Rússia devido à sua insatisfação com o comando militar russo – a razão pela qual as forças de Wagner seguiram Prigozhin na rebelião armada em primeiro lugar.

FONTE: ISW

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RPiletti
11 meses atrás

na base da 2631ª Base de Armazenamento de Mísseis e Munições Aéreas em Prudok,”
Essa numeração é aleatória ou realmente a URSS teve este numero de bases?

Franz A. Neeracher
Reply to  RPiletti
11 meses atrás

Depende….ás vêzes é por algum motivo histórico ou aleatório mesmo.

Ou pela velha mania soviética de dificultar o trabalho da inteligência e espionagem de outros países.

Na antiga URSS, tudo era numerado por isso….”Estaleiro Nr. 17″, “Fábrica de Papel Nr. 89” e asim por diante.

Vitor
Vitor
Reply to  RPiletti
11 meses atrás

Não é aleatório e não teve esse número de bases. Pode ser, POR EXEMPLO, a 2ª Base, do 6º Exército, da 31ª Divisão. As numerações militares funcionam mais ou menos neste esquema, varia obviamente de país para país.

Franz A. Neeracher
Reply to  Vitor
11 meses atrás

Sim, tb é uma possibilidade…..

Mas que o sistema aleatório tb é usado, isso é uma certeza…..o que em sí não é nenhum crime.

Mas como vc mesmo falou, varia muito de um país para outro.

Por exemplo nos EUA, das 12 divisões da ativa do US Army, 3 se chamam “First Division” por motivos históricos:

-First Infantry Division
-First Armored Division
-First Cavalry Division

Os russos tb gostam de mudar o nome ou indicativo das unidades militares, por exemplo, muito comum navios mudarem o número pintado no casco de tempos em tempos…..para dificultar a inteligência estrangeira….

Last edited 11 meses atrás by Franz A. Neeracher
Nilo
Nilo
11 meses atrás

Putin o chefe de cozinha
Lukashenko o auxiliar de cozinha
Prigozhin a comida a ser servida rsrsrs

Last edited 11 meses atrás by Nilo
Antonio Cançado
Reply to  Nilo
11 meses atrás

Acho que vc tá enganado, mas vamos aguardar…

Slowz
Slowz
11 meses atrás

Uma coisa agora é certo ou o Grupo Wagner aceita contrato com MD ou acaba ..

Se revoltaram contra o Shoigu e Gerasimov e não derrubaram nenhum dos 2 e se quiserem voltar pra suas famílias ou pra guerra vão ter que assinar ..

( Baita de um motim )

Last edited 11 meses atrás by Slowz
pangloss
pangloss
Reply to  Slowz
11 meses atrás

Será que só o Prigozhin estava insatisfeito com os resultados do Shoigu?

Slowz
Slowz
Reply to  pangloss
11 meses atrás

Difícil saber exatamente mas pode ser que sim ou é uma disputa de poder .

C G
C G
11 meses atrás

Essa história ficou tão mal contada que nem o Antônio conseguiu vir aqui dar uma explicação minimamente inteligível!
É crítica a um, constatação isolada a outro mas um panorama geral desta fuzarca não foi pintado não!

JOSE DE PADUA VIEIRA
JOSE DE PADUA VIEIRA
Reply to  C G
11 meses atrás

pois é, mal contada e o q contaram nao colou
mas algo escondido nessa tem e eu tenho um palpite

Magaren
Magaren
11 meses atrás

F.A. no caso da russia é Forças Amadoras.

Na época da URSS putin já teria sido mandado para sibéria para cortar gelo.

Antonio Cançado
11 meses atrás

Putin é um bufão, um presepeiro que se impõe no grito e na truculência, mas provou ser fraco nessa crise recente, e aparentemente vai ser emparedado pelo Lukashenko, muito mais malandro e truculento que ele.
Como o covarde que sempre foi, vai acabar fugindo de novo.
Se conseguir.

JOSE DE PADUA VIEIRA
JOSE DE PADUA VIEIRA
11 meses atrás

Lukashenko abriu a porta pro cavalo de troia.
Esse gp Wagner não se rebelou contra Putin, esse papo de me atacaram não cola, não estão nem bombardeando os ucranianos, vão bombardear quem esta segurando o inimigo???
Putin orquestrou essa com o Prigozhin, com o gp Wagner na Bielorrússia fica mais fácil derrubar Lukashenko e tentar anexar a Bielorrússia.
Lukashenko não teria esse poder dentro do gov russo que diz a matéria…Maskirovka, Frederick Forsyth escreveu sobre isso

Last edited 11 meses atrás by JOSE DE PADUA VIEIRA
Bosco
Bosco
Reply to  JOSE DE PADUA VIEIRA
11 meses atrás

nnnn

Last edited 11 meses atrás by Bosco Jr
JOSE DE PADUA
JOSE DE PADUA
Reply to  Bosco
11 meses atrás

mmmm

Bosco
Bosco
Reply to  JOSE DE PADUA
11 meses atrás

Rsss
Eu tinha feito um comentário e apaguei mas aí tem que por alguma coisa.
Coloquei “enes”.

JOSE DE PADUA VIEIRA
JOSE DE PADUA VIEIRA
Reply to  Bosco
11 meses atrás

Pq apagou??
vc é um dos poucos que tem comentários lúcidos aqui
não estou sendo sarcástico

RSmith
RSmith
11 meses atrás

Ele “Deixou” porque Putin pediu (mandou?)…. o resto é mera especulação….

RSmith
RSmith
11 meses atrás

… ainda acho “possível” de que o grupo Wagner ataque a Ukrania pelo norte. Os Russos tradicionalmente usam o “engodo” nas suas estratégias…

JOSE DE PADUA VIEIRA
JOSE DE PADUA VIEIRA
Reply to  RSmith
11 meses atrás

penso da mesma forma, tem caroço nesse angu
esse teatro ai não faz sentido nenhum

Alex Barreto Cypriano
Alex Barreto Cypriano
11 meses atrás

Por quê? Bem, meu palpite: foi tipo “Pacto Sinistro” (Strangers in Train, 1951 de A. Hitchcock). Putin ajudou Lukashenko a se livrar da sua oposição, Lukashenko agora ajuda Putin a se livrar da dele. E com o uso de ardil, promessa falsa, como sempre, contra a vítima (que não é um cordeiro mas um desgraçado desalmado e violento). Perigozin, a esta altura, deve estar tomando drinque de grama pela raiz. Dosvidanya, tovarish.

JUJU BERTULINA
JUJU BERTULINA
11 meses atrás

Perigozinho está perto de uma região da Ucrânia em que o contingente militar é muito menor do que na frente contra os russos. E é uma defesa, com seus mercenários, a uma invasão provocada pela OTAN por qualquer motivo que queiram alegar – vide Iraque, Líbia, Afeganistão – ou mesmo uma frente de ataque se algo extraordinário ocorrer, digamos, em Kaliningrado ou na Transnístria, Geórgia, Sérvia, etc. E bem pertinho da Polônia. Também podem atuar da mesma forma que os sabotadores ucranianos que agiram dentro da Rússia. E muito mais coisas também explicam o ocorrido. Só se sabe é que… Read more »