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Brasil Chinavinheta-clipping-forte1Nas mais de 400 páginas do livro China Goes Global (a China se lança no mundo, em tradução livre), de David Shambaugh, um dos únicos pontos de exclamação é usado quando ele descreve o choque provocado pelo despreparo da diplomacia brasileira em lidar com a China.

“Quando visitei o Ministério das Relações Exteriores, em 2008, me foi dito que não havia sequer uma pessoa fluente em chinês ou um grupo de especialistas em China em todo o serviço diplomático!”, espanta-se ele, um dos mais renomados especialistas em política externa chinesa.

O Itamaraty (que Shambaugh grafa como “Itamarichy”) agora tenta recuperar o atraso, com um grupo de jovens diplomatas em Pequim exclusivamente dedicados a aprender o idioma chinês.

Shambaugh teve outra surpresa ao questionar os governos do Brasil e de outros países da América do Sul sobre qual era a estratégia em relação à China. A resposta geralmente foi um silêncio constrangedor, conta Shambaugh.

A falta de uma estrutura acadêmica de estudos sobre o maior parceiro comercial do Brasil também impressionou o autor. “É chocante, mas não há um programa de estudos chineses em todo o Brasil”, escreveu.

O despreparo é explorado pelos chineses em sua expansão silenciosa no continente, afirma o autor. A maioria dos diplomatas chineses na região fala português ou espanhol com fluência.

E, apesar de negarem, têm uma estratégia definida, baseada na abertura de mercados e na obtenção de recursos naturais.

O desequilíbrio nas relações deveria ser motivo de preocupação, afirma Shambaugh. Segundo um estudo recente da Universidade Columbia (EUA), o Brasil exporta para a China 7,6% de produtos de alta tecnologia, enquanto importa 41,4% de itens desse tipo.

“Sim, o Brasil deveria ver a China com preocupação exatamente por isso.”, disse ele à Folha, por e-mail.

Outros países da América Latina e da África já começam a ter dificuldades no comércio com a China devido a essa atitude, chamada de neo-colonialista, diz ele.

“Todos esses países precisam acordar para o tipo de desafio que a China impõe, ser mais duros e deixar a ingenuidade de lado”, diz.

Diretor do Programa de Política da China da Universidade George Washington, Shambaugh falará hoje no Instituto Fernando Henrique, em São Paulo.

China é uma potência parcial, diz especialista

FONTE: Folha de São Paulo/MARCELO NINIO DE PEQUIM

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How Hwee Young, EPA

Carlos Santos Neves, RTP

vinheta-clipping-forte1O Ministério da Defesa da China publicou esta terça-feira o oitavo livro branco sobre as suas capacidades militares desde 1998, um documento que pela primeira vez detalha números de operacionais e a distribuição geográfica dos diferentes ramos das Forças Armadas. Neste trabalho há também uma condenação implícita do processo de “reequilíbrio” de forças que as estruturas militares de Washington estão a empreender. O reforço da “presença militar” norte-americana na Ásia é encarado por Pequim como combustível de tensão.
O documento agora tornado público intitula-se O emprego diversificado das Forças Armadas da China e soma quatro dezenas de páginas.

No prefácio, a cúpula da Defesa Nacional dá ênfase a um “inabalável compromisso” para com “o caminho do desenvolvimento pacífico”. Para sublinhar, adiante, que a China enfrenta hoje “múltiplas e complicadas ameaças à segurança”. Pelo que as autoridades do colosso asiático entendem como crucial a proteção da “unificação nacional”, da “integridade territorial” e dos seus “interesses de desenvolvimento”.

“Há alguns países que estão a fortalecer as suas alianças militares na Ásia-Pacífico, expandindo a presença militar na região, e frequentemente tornam a situação ali mais tensa”, escrevem os relatores chineses, num claro recado com o Pentágono por destinatário.

Tais manobras da Administração norte-americana, reforçou entretanto Yang Yujun, porta-voz do Ministério chinês da Defesa, “não estão de acordo com os desenvolvimentos destes dias e não são conducentes à manutenção da paz e estabilidade regionais”.

O incómodo de Pequim com a investida norte-americana é também manifestado no Diário do Exército de Libertação do Povo, cujos redatores escrevem abertamente sobre a necessidade de consolidar o poderio militar chinês diante de um Ocidente apostado em enfraquecê-lo: “Forças hostis ocidentais intensificaram a sua estratégia para ocidentalizar e dividir a China e usaram todos os meios possíveis para conter e controlar o desenvolvimento do nosso país”.

Números

Num gesto que a agência oficial Xinhua descreve como inédito, o Ministério da Defesa da China publica detalhes acerca dos efetivos dos ramos das Forças Armadas – nas fileiras do Exército estarão atualmente 850 mil homens, na Armada 235 mil e na Força Aérea 398 mil. Mas também sobre a sua distribuição geográfica.

As forças territoriais, lê-se no último livro branco, distribuem-se, assim, por 18 corporações ditas combinadas, que estão sob a jurisdição de sete comandos: Pequim, Nanjing, Chengdu, Guangzhou, Shenyang, Lanzhou e Jinan.

A Força Aérea atua sob unidades de comando nos mesmos sete sectores, ao passo que a Marinha de guerra dispõe de três grandes frotas: Beihai, Donghai e Nanhai.

O mesmo documento faz uma referência menos detalhada à chamada “segunda força de artilharia”, de que fazem parte quer os mísseis convencionais, quer as ogivas nucleares. Estas capacidades, escreve o Ministério da Defesa, são cruciais para a “dissuasão estratégica”. Visam antes de mais “dissuadir outros países de usarem armas nucleares” e, numa fase ulterior, poderiam ser acionadas em “contra-ataques nucleares e ataques de precisão com mísseis convencionais”.

Território

É também à política de alianças regionais de Washington que Pequim aponta o dedo quando avalia os crónicos diferendos territoriais que mantém com o Japão, as Filipinas e o Vietname.

“Sobre os assuntos que dizem respeito à soberania territorial da China, direitos marítimos e interesses, alguns países vizinhos estão a ter ações que complicam ou exacerbam a situação e o Japão está a causar problemas com a questão das Ilhas Diaoyu”, particulariza o Ministério da Defesa Nacional.

Aquelas ilhas desabitadas, que os japoneses designam como Senkaku e os chineses como Diaoyu, são controladas pelo Japão e reclamadas por Pequim e Taiwan.

Vietname, Taiwan, Malásia, Filipinas e Brunei alimentam também diferendos de soberania com Pequim sobre porções do Mar da China Meridional. Mas o livro branco refere-se às “forças separatistas” de Taiwan como a maior ameaça à estabilidade no Estreito.

FONTE: www.rtp.pt

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vinheta-clipping-forte1Já seguiu para a Câmara dos Deputados o Projeto de Decreto Legislativo (PDS) 576/2012, que trata da aprovação da Política Nacional de Defesa (PND), da Estratégia Nacional de Defesa (END) e do Livro Branco da Defesa Nacional (LBDN). Ontem à noite, o plenário do Senado Federal aprovou o projeto. A proposta havia sido encaminhada ao Congresso Nacional, no ano passado, pela Presidência da República.

De acordo com a mensagem do governo, a Política é “o documento condicionante de mais alto nível do planejamento de defesa e tem por finalidade estabelecer objetivos e diretrizes para o preparo e o emprego da capacitação nacional, com o envolvimento dos setores militar e civil, em todas as esferas do Poder Nacional”.

Já a Estratégia, ainda segundo a mensagem, estabelece como fazer o que se determinou na Política Nacional de Defesa. E o Livro Branco, por sua vez, consiste num documento de caráter público, por meio do qual “se permitirá o acesso à informação sobre o setor de defesa do país”. O governo assinala que o documento criará “novas oportunidades para o debate sobre Defesa Nacional”.

O projeto foi aprovado no final do ano passado pela Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI). Na Câmara, o projeto segue o trâmite normal.

FONTE: Ministério da Defesa

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vinheta-clipping-forte1O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres (IISS, na sigla em inglês) publicou na semana passada o anuário “The Military Balance-2013” em que confronta os gastos militares de diferentes países, entre outros fatores. De acordo com o documento, nos últimos anos a Rússia aumentou seus gastos militares, enquanto os EUA e os países europeus tiveram de cortá-los devido à crise econômica mundial.

“Em consequência do clima econômico ruim, as despesas globais com defesa apresentaram um declínio pelo segundo ano consecutivo. Paralelamente, observamos o aumento dos orçamentos militares no Oriente Médio, Norte da África, Rússia, Ásia e na América Latina”, disse o diretor-geral do IISS, John Chipman, durante o discurso de apresentação dos resultados. “Como previmos, em 2012, os gastos militares da Ásia ultrapassaram, pela primeira vez, o valor das despesas com defesa assumidas pelos países europeus membros da Otan”.

O anuário dedica 45 de suas 600 páginas à Rússia, às ex-repúblicas soviéticas e à reforma das Forças Armadas russas. Os autores do documento acreditam que, depois da demissão de Anatóli Serdiukov, em novembro do ano passado, e da nomeação de Serguêi Choigu como novo titular da pasta da Defesa, a reforma militar na Rússia continuará seguindo o mesmo rumo.

Apesar de o relatório apontar que “os gastos militares da Rússia estão crescendo, enquanto nos EUA e na Europa eles estão diminuindo”, essa afirmação pode impressionar apenas aqueles que não sabem que os gastos militares russos são muito inferiores aos dos EUA, Reino Unido ou da França.

De acordo com as estatísticas oficiais, o orçamento de defesa dos EUA para 2013 aprovado pelo Senado e Congresso norte-americanos equivale a US$ 550 bilhões, isto é, US$ 100 bilhões inferior em relação aos orçamentos de 2012 e 2011. O país segue atrás da China que, com US$ 120 a 150 bilhões, ocupa a segunda posição. Na sequência estão Reino Unido e França, com US$ 90 bilhões e US$ 70 bilhões, respectivamente. Por fim, a Rússia, com US$ 55 a 60, ocupa a 5ª posição.

Fato é que os EUA, assim como muitos países ocidentais, enfrentam graves dificuldades econômicas. Quando os orçamentos do Estado são reduzidos, os gastos militares também acabam sendo cortados. O Pentágono, por exemplo, deu um fim à guerra no Iraque, diminuindo assim consideravelmente os gastos militares dos EUA, está retirando as tropas norte-americanas do Afeganistão e desistiu de operações ativas, pelos menos terrestres, contra o regime de Kadafi. Além disso, reduziu a carteira de encomendas do avião de quinta geração F-22 de 700 para 200 unidades e de sua versão mais leve F-35. Os aliados dos EUA na Europa Ocidental seguem a mesma tendência.

Atualmente, o F-22 não tem pares no mundo, a não ser o avião russo T-50 (mais conhecido por PAK FAT-50, na sigla em russo), que será construído em 2015. Como os EUA e a Otan não têm intenção de lutar contra a Rússia, seus arsenais militares existentes são suficientes para travar guerras semelhantes às desencadeadas nos últimos anos no Iraque, Afeganistão e Iêmen, por exemplo.

Paralelamente, os gigantes da indústria armamentista como a Boeing, Lockheed,  Dassault, Grumman, BAE Systems ou AEDS não querem perder encomendas bilionárias de equipamento militar sofisticado. Portanto, mesmo ao reduzir as verbas para a defesa, inclusive aquelas para o escudo antimíssil na Europa, os EUA e seus aliados ocidentais dificilmente se contentarão com o montante de US$ 60 bilhões dos gastos militares russos.

A Rússia, por sua vez, segue na contramão. Nos 20 anos posteriores à extinção da URSS, o Estado não liberou verbas significativas para o rearmamento das Forças Armadas do país. Como resultado, a fatia de equipamento militar moderno nas tropas diminuiu para 10%. A guerra de agosto de 2008, quando as tropas georgianas atacaram a força de paz russa na Ossétia do Sul, mostrou claramente as tristes consequências dessa política. Os soldados russos só venceram graças à sua coragem e bravura militar, e não porque usaram material de guerra moderno.

Diante dos fatos, o governo decidiu disponibilizar US$ 700 bilhões em 2011 para um programa de rearmamento que vai durar 10 anos. No total, o governo russo liberou para a defesa 1,3 trilhões de rublos (cerca de US$ 42 bilhões) em 2011 e, no ano seguinte, 1,4 trilhões (cerca de US$ 45 bilhões). Em 2013, é estimada a aplicação de mais 1,5 trilhões de rublos (cerca de US$ 48 bilhões), de modo que, até 2020, 70% dos arsenais militares russos sejam atualizados. Assim, fica evidente que os gastos militares russos não são secretos nem representam nenhuma ameaça para a paz no mundo.

FONTE: Gazeta Russa

Europeus reduzem despesas militares

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Por Assis Moreira

De Genebra 

vinheta-clipping-forte1A crise econômica acelera cortes bilionários nas despesas militares na Europa, provocando temores de que o velho continente se desarma quando o resto do mundo se rearma e perde influência na cena internacional.

No começo do mês, o jornal “Le Monde”, de Paris, publicou editorial com o título “Perigo, a Europa renuncia a se defender”, alertando para consequências civis e militares, como aumentar a desindustrialização que alguns países dizem querer combater.

Num relatório ao presidente francês, François Hollande, o ex-chanceler Hubert Védrine diz que desde o fim do império soviético, em 1991, o que os europeus esperam são os “dividendos da paz, do social e do aumento do poder de compra ou da afirmação dos direitos individuais”.

Ou seja, a Europa está muito longe da dialética de ameaças à segurança/respostas militares, mesmo na área do terrorismo, ou da visão americana de riscos e ameaças estratégicas. Mas nota que o choque enorme da “crise da economia cassino americano-global” desde 2008, a crise da dívida soberana europeia e a necessidade imperiosa de pegar emprestado entre € 8 trilhões e € 9 trilhões por ano para manter o nível de vida acentua a tendência que se traduz por baixa dos orçamentos de defesa europeus. “E o que é ambivalente: menos meios e capacidades, mas em princípio também mais obrigações de agir em comum”, diz.

Globalmente, as despesas militares alcançaram US$ 1,7 trilhão em 2011, quando pararam de crescer. O que muda é a repartição. Em 2012, os EUA fizeram 46% do total. Por sua vez, os Bric – Brasil, Rússia, China e Índia – aumentaram as despesas militares em 38,6% entre 2007 e 2011. Somente a China elevou os gastos em 62%, pulando de US$ 87,7 bilhões a US$ 142,8 bilhoes no período. A Índia aumentou em 42%, a Rússia, em 40% e o Brasil, em 30,7%. Azerbaijão, Polônia, Turquia e Colômbia estão também entre os países que aumentaram os gastos nos últimos anos.

Já a Europa em 15 anos viu sua fatia diminuir de 31% para 19%. Grécia e Espanha, especialmente afetados pela crise, cortaram as despesas militares entre 30% e 40% em 2011. Itália e Bélgica, entre 10% e 15%, e vários outros países, entre 15% e 30%. A França e o Reino Unido diminuíram a conta em cerca de 5%. Já a Alemanha aumentou suas despesas militares ligeiramente. Na Suécia, o chefe do Estado-Maior, general Sverker Goeranson, irritado, sugeriu suprimir uma das Forças Armadas, dizendo que o país não dispõe de meios que permitam defender o país por mais de uma semana.

Os EUA insistem para os europeus não se privarem de meios estratégicos. A ex-secretária de Estado Madeleine Albright estimou num relatório em 2% do PIB o mínimo que um país da Otan, a aliança militar ocidental, deve gastar em defesa para não comprometer a segurança comum.

Atualmente, somente o Reino Unido está acima de 2% do PIB – é o primeiro da Europa, mas prevê corte de 7,7% nas despesas até 2015. Os gastos da França ficam em 1,7% do PIB, da Espanha, em 0,65% e da Itália, em 0,8%. A crise leva países nórdicos e do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo) a juntarem seus esforços militares.

A guerra contra terroristas no Mali ilustra dificuldades da capacidade francesa e da ausência de defesa europeia. Para transportar soldados ao país africano, Paris teve que alugar também aviões comerciais de grande porte. Na Líbia, 80% dos alvos atacados pelos franceses foram a partir de informações de drones dos EUA.

No momento, os franceses dizem que a guerra no Mali não vai aumentar muito sua fatura militar porque uma hora de voo de jato Rafale custaria de toda maneira € 40 mil em treinamento ou no combate. Já um míssil custa € 300 mil, e essa fatura vai crescer.

Para o jornal “Le Monde”, as consequências do desarmamento europeu são estratégicas. Estima ser provável que a indústria europeia de defesa “desapareça definitivamente” das licitações de países emergentes, dando como exemplo o fiasco até agora das tentativas francesa e sueca de vender jatos de combate ao Brasil.

Considera que a espiral de austeridade pode tanto afundar as indústrias de defesa europeias como fortalecer “definitivamente” a órbita de um complexo americano “sem dúvida ávido de compensar além de suas fronteiras os cortes orçamentários que também sofre em casa”. E adverte para que a perda de influência, emprego e autonomia seja levada em conta.

Já o Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês) vê outro cenário. Sam Perlo-Freeman, diretor do Programa de Despesas Militares, considera “muito forte falar em desarmamento” na Europa, apesar dos cortes significativos nas despesas militares.

“Vários países estão cortando tropas, recuando em compras de equipamentos. Mas grandes países como Reino Unido, França e Alemanha continuam a atualizar e modernizar seus armamentos, só que num ritmo menor.”

Além disso, segundo Freeman, outras capacidades estão sendo expandidas, como no caso dos drones. Avalia também que menos forças convencionais não significam perda de segurança. “Isso significará diminuição de capacidade em se engajar em missões no estrangeiro, embora alguns países estejam de fato expandindo o número de tropas disponíveis, como a França no Mali”, diz.

Freeman contesta a percepção de que menos capacidade militar conduz à perda de influência. “”De várias maneiras a influência econômica e cultural pode ser mais importante no mundo moderno do que a militar, embora a influência econômica da União Europeia também esteja baixando por causa da crise”, diz. Para ele, uma consequência mais provável “será crescente tensão na Otan, com os Estados Unidos vendo um valor menor na contribuição militar de membros europeus na aliança”.

FONTE: Valor Econômico via Resenha do Exército

 

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Zaki Laidi

vinheta-clipping-forte1Em menos de dois anos, a França realizou três intervenções militares externas decisivas. Em março de 2011, seus ataques aéreos na Líbia (juntamente com os do Reino Unido) cercearam as tropas do coronel Muamar Gadafi quando se preparavam para retomar a cidade de Benghazi. Um mês depois, forças francesas na Costa do Marfim prenderam o presidente Laurent Gbagbo, que se recusara a reconhecer a vitória eleitoral de seu adversário, submetendo o país ao risco de uma guerra civil. Agora a França interveio no Mali.

Esta mais recente intervenção foi inicialmente planejada como parte de uma missão europeia de apoio às forças africanas, mas a França decidiu agir de forma unilateral para tolher o avanço de islamitas que ameaçavam invadir Mopti, a última barreira antes de chegar à capital, Bamako. Além disso, a França quer proteger seus cidadãos instalados na região, manter a estabilidade no Sahel [o semiárido africano ao sul do Sahara], que abriga governos muito fracos, e impedir a transformação do Mali numa base do terrorismo islâmico voltada para a Europa.

Muita coisa está em jogo – ainda mais porque a intervenção da França tende a ser ampla. Embora os islamitas tenham sido temporariamente derrotados, estão bem armados e recebem suprimentos da Líbia via Argélia, que reprimiu os islamitas em seu país mas parece fazer vista grossa a seu trânsito por seu território. Além disso, o potencial do exército malinês e o de outros países da África Ocidental que deverão se integrar à operação é pequeno demais para mudar as coisas. Os Estados Unidos tentaram dar treinamento ao exército malinês, mas fracassaram fragorosamente.

Os europeus relutam em desenvolver um aparato militar significativo porque o seu projeto foi criado em contraposição à ideia de força. Mas essa postura se tornou indefensável. A região se defronta com ameaças reais, que Paris sozinha não consegue deter

Com a segurança da Europa como um todo em jogo, por que a França é o único país envolvido?

Uma das explicações é encarar a intervenção como uma tentativa neocolonialista de proteger uma seara francesa. Esse é um erro crasso. A França não tem interesse em proteger um regime malinês que sabe ser corrupto e incompetente; na verdade, a França se recusou recentemente a apoiar uma solicitação do regime do presidente François Bozizé na vizinha República Centro-Africana de ajuda no enfrentamento dos rebeldes.

As motivações da França são mais amplas. Em especial, a França sempre considerou a África Subsaariana e o mundo árabe esferas naturais de influência política e estratégica necessárias para manter sua posição de uma das potências mundiais.

A segunda explicação é mais convincente: a França, além da Grã-Bretanha, é a única verdadeira potência militar europeia. Ela acha que um aparato militar operacional é condição do poder – opinião não compartilhada pela esmagadora maioria dos governos europeus, que continua a exibir uma aversão coletiva à guerra.

A Europa, sem dúvida, dispõe de meios para uma ação conjunta. Em 2003, após o início da Guerra do Iraque, a Europa abraçou uma estratégia preparada por Javier Solana, na época o alto representante da União Europeia (UE) de Política Externa e de Segurança Conjuntas. Mas, embora um grande número de europeus tenha ingenuamente acreditado que a proposta seria o prelúdio de uma estratégia europeia conjunta, ela foi preliminarmente formulada em termos tão vagos que permitiam qualquer – ou nenhum – resultado.

O Tratado de Lisboa da UE faz menção a “cooperação estruturada permanente” em política de segurança e de defesa, e existe todo um aparato de comissões políticas e militares para prever, preparar e implementar operações militares em nível europeu. Mas esse mecanismo é desprovido da vontade política conjunta necessária para ativá-lo; quanto menos for utilizado, menos utilizável se tornará.

Durante a crise da Líbia, a sucessora de Solana, Catherine Ashton, procurou restringir o papel da UE ao de uma super-ONG focada em ajuda humanitária e desenvolvimento econômico. Recentemente, na votação sobre a representação palestina na ONU, a UE recomendou a abstenção a seus membros – estranha maneira de afirmar o compromisso da Europa com a liderança mundial.

Para a Grã-Bretanha a defesa em âmbito europeu é um projeto fadado ao fracasso. A Grã-Bretanha se desviou desse princípio uma única vez, quando concordou em participar da operação antipirataria Atalante ao largo do Chifre da África – provavelmente por ter sido posta no comando. Em decorrência disso, os que querem um aparato de defesa europeu conjunto não têm meios de criá-lo, enquanto os que têm os meios de criá-lo não o querem (com a possível exceção da França).

A cooperação bilateral da Grã-Bretanha com a França – posta em destaque durante a crise da Líbia – é, às vezes, muito sólida. Mas, apesar do tratado de cooperação nas áreas de defesa e segurança entre os dois países, firmado em 2010, os britânicos decidiram, por motivos orçamentários, adquirir aviões incompatíveis com os porta-aviões franceses.

Mesmo Espanha e Itália, os dois países mais afetados pelos últimos acontecimentos no Mediterrâneo e no Sahel, reduziram significativamente seus gastos militares. Ao contrário da Alemanha, ambos os países participaram da intervenção na Líbia, mas com regras altamente restritivas de envolvimento para suas forças. A força naval italiana, por exemplo, foi orientada a evitar as águas ao largo da costa de Trípoli, e os aviões-tanque espanhóis foram proibidos de reabastecer caças.

A Europa como um todo dedica atualmente apenas 1,6% de seu Produto Interno Bruto (PIB) à defesa, comparativamente aos 4,8% destinados pelos EUA a esse fim. Ela se constitui na única região do mundo em que os gastos militares estão diminuindo. Suas forças de prontidão são extremamente reduzidas, respondendo por 4% de todo o efetivo militar mundial, contra os 14% dos EUA. A cooperação industrial, que poderia constituir um fator positivo do ponto de vista econômico e militar, também está enfraquecendo, como ficou demonstrado pela bem-sucedida oposição da Alemanha à pretendida fusão Eads-BAE, oficialmente cancelada em outubro.

A Alemanha tinha dado a impressão de ter abraçado uma política mais sólida desde sua participação nas operações militares no Afeganistão. Atualmente, no entanto, ela recua diante de qualquer perspectiva de intervenção militar, apesar de ser o terceiro maior exportador mundial de armas.

A Europa reluta em desenvolver um aparato militar significativo porque o projeto europeu foi criado em contraposição à ideia de força. Mas essa postura se tornou indefensável. A Europa se defronta com ameaças reais, que a França sozinha não consegue deter. Além disso, o sistema internacional se aglutina cada vez mais em torno de potências nacionais que consideram a força militar um pré-requisito essencial da influência. A Europa não tem opção entre poder brando e poder duro. Precisa associar os dois se quiser sobreviver. (Tradução de Rachel Warszawski)

Zaki Laïdi é professor do Institute d”études politiques de Paris (Sciences Po). Copyright: Project Syndicate, 2013.

FONTE: Valor Econômico via Resenha do Exército

 

Em 2009, participamos de um brainstorming para a definição da Estratégia do Exército Brasileiro até 2030. Abaixo seguem as questões levantadas pelo EB na sua pesquisa.

Dê sua opinião sobre os tópicos abordados.

1) REAÇÕES INTERNACIONAIS AO PROTAGONISMO BRASILEIRO

O mundo convive com vários focos de instabilidade, como os conflitos no Oriente Médio, na Ásia e no Continente Africano, com conseqüentes riscos à paz global. Além destes, delineia-se no futuro uma disputa pelo controle de recursos estratégicos (hidrocarbonetos, água, minérios, biodiversidade, etc.), dos quais o Brasil é um dos grandes detentores.

Enquanto países desenvolvidos mantêm suas posições usando o poder que detêm ou construindo acordos internacionais favoráveis a seus interesses, nações em desenvolvimento têm de lutar por acesso a novas oportunidades.

Embora não esteja envolvido em conflitos de vulto, o Brasil está inserido nesse contexto de desafios e pretende modificar sua posição no jogo internacional, superando barreiras típicas de quem se localiza na periferia do poder mundial. Esta atitude brasileira poderá propiciar o surgimento de situações conflituosas decorrentes de reações dos países forçados a ceder espaços e da própria cobiça internacional pelo grande volume de recursos naturais do País.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, as reações internacionais ao protagonismo brasileiro intensifiquem-se ao ponto de criar obstáculos à consecução dos interesses nacionais.

2) RECONHECIMENTO EXTERNO DO PODER NACIONAL BRASILEIRO

O processo decisório desencadeado nos organismos multilaterais ou nas relações bilaterais cria situações que podem restringir ou facilitar a inserção internacional do Brasil como ator global.

Atendendo a legítimos interesses nacionais, a política externa brasileira se empenha para levar o Brasil a participar, significativamente, da elaboração da agenda internacional. Daí decorre o pleito por uma posição de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e a busca de acordos com blocos econômicos e grupos de países, visando à crescente inserção do País na construção daquela agenda.

As reuniões do G-20, pelo seu simbolismo político, parecem sinalizar para mudanças nas relações de poder mundial, cujos desdobramentos futuros poderão levar à emergência de novos pólos de poder. Os líderes dos países mais ricos perceberam que o enfrentamento dos grandes problemas globais dependem de coordenação política que envolva os países emergentes.

Nas relações internacionais, os estados costumam ter êxitos quando dispõem de poder nacional que respalde suas posturas – o que ainda não é, efetivamente, o caso do Brasil, em especial quanto ao componente militar do poder nacional.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, o Brasil passe a dispor de poder nacional reconhecido internacionalmente ao ponto de ser capaz de respaldar suas pretensões de maior participação no processo decisório mundial.

3) NEUTRALIZAÇÃO DAS PRESSÕES INTERNACIONAIS SOBRE A AMAZÔNIA

As pressões internacionais sobre a Amazônia têm aumentado, sob a alegação de uma suposta defesa de “interesses maiores da humanidade”.

Países, autoridades e organizações estrangeiras ocultam suas pretensões em relação à importância geoestratégica e às riquezas da região, simulando preocupações com o desenvolvimento da área. Sugerem “direitos de ingerência”, insinuando não ter o Brasil capacidade de cuidar do patrimônio amazônico, com ênfase para o meio ambiente e a questão indígena.

A ameaça é de tentativa de imposição de soberania “compartilhada” mediante aplicação de diretrizes e pelo uso privilegiado dos recursos da região, deixando ao Brasil o ônus da administração sob fiscalização estrangeira.

A neutralização dessas pressões extrapola o campo militar, dependendo muito mais de ações governamentais nos campos político, psicossocial e econômico.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, as ações implementadas pelo governo brasileiro no sentido da proteção e do desenvolvimento sustentável da Amazônia brasileira tenham sido eficazes ao ponto de neutralizar as pressões internacionais sobre a região.

4) INTERESSE INTERNACIONAL SOBRE ÁREAS ESTRATÉGICAS DO BRASIL

É interesse vital das potências de primeira ordem assegurar o acesso às regiões do mundo de valor geopolítico e onde estejam recursos naturais necessários ao seu desenvolvimento e manutenção do status quo.

O Brasil, além da Amazônia, tem outras regiões que podem ser alvo da cobiça internacional, pela riqueza ou posição estratégica. Entre essas áreas, destacam-se: a faixa de fronteira, a plataforma continental atlântica (jazidas de petróleo, biodiversidade, minerais,etc), o “saliente nordestino” e o Aquífero Guarani.

A liderança nacional atribui pouca importância e a sociedade tem dificuldade em perceber a ameaça embutida no interesse internacional, o que se reflete na baixa prioridade conferida ao setor de defesa do País.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, as áreas estratégicas do Brasil sejam alvo de crescente interesse internacional ao ponto de suscitar ações por parte do Estado brasileiro para manter e reforçar sua soberania sobre essas áreas.

5) FORTALECIMENTO DA INTEGRAÇÃO DA AMÉRICA DO SUL

Coerente com princípio constitucional, a iniciativa brasileira de integração regional foi iniciada pela constituição do MERCOSUL e ampliada pelos macroprojetos de integração física da região, estruturados e implementados pela Iniciativa para a Integração Regional Sulamericana (IIRSA), e por empreendimentos de integração energética, dentre outros. O estabelecimento da UNASUL, que surge com o objetivo de construir um espaço de integração e união no âmbito cultural, social, econômico e político entre os países da América do Sul, é mais um marco do processo de integração regional. A criação do Conselho de Defesa Sulamericano (CDS) poderá contribuir para intensificar as medidas de cooperação e confiança mútua entre os setores de defesa dos países da região.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31 de dezembro de 2030, o processo de integração regional evolua ao ponto de permitir a efetiva consolidação da integração da América do Sul.

6) OCORRÊNCIA DE CONFLITOS NA AMÉRICA DO SUL

A paz na América do Sul, considerada uma das regiões do mundo menos sujeita a conflitos armados, pode vir a ser ameaçada pela instabilidade política e social existente em alguns países, pela ação de movimentos de cunho ideológico que apelam para a violência e pelas tensões latentes entre países limítrofes. Com isso, considera-se a possibilidade do Exército Brasileiro vir a participar de conflitos na região, integrando ou não organismos internacionais, como Força de Paz ou em defesa dos interesses nacionais.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, ocorram conflitos na América do Sul ao ponto de envolver militarmente o Brasil.

7) AGRAVAMENTO DA QUESTÃO AMBIENTAL

As questões ambientais têm adquirido importância crescente na agenda internacional, envolvendo temas como as mudanças climáticas, as catástrofes ambientais e as consequencias sociais e econômicas decorrentes.

A ocupação e a exploração de recursos naturais nos principais biomas do território brasileiro, com reflexos no meio ambiente, poderão agravar a questão ambiental no Brasil, gerando inclusive reações internacionais.

No Brasil, a participação do Exército contra delitos ambientais, na faixa de fronteira terrestre, está prevista na Lei Complementar Nr 117, de 2 de setembro de 2004.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, as questões ambientais e as mudanças climáticas tenham se agravado, ao ponto do controle e monitoramento ambiental venha a ser institucionalizado como atribuição, também, das Forças Armadas.

8 ) OCORRÊNCIA DE ATIVIDADES TERRORISTAS EM TERRITÓRIO BRASILEIRO

O Brasil, até o presente, tem se mantido a salvo de ações terroristas, nos moldes praticados por grupos em conexão com redes internacionais, com a finalidade de desestabilizarem Estados ou deles se vingarem em proporções que causem a generalização do pânico em suas populações. Apesar disso, não se afasta a possibilidade de que iniciativas do governo brasileiro venham a gerar disputas e maior exposição do País no cenário internacional.

Essa exposição tende a ser ampliada em face dos grandes eventos esportivos que o Brasil sediará os Jogos Mundiais Militares(2011), a Copa das Confederações (2013), a Copa do Mundo (2014), e as Olimpíadas (2016) e da crescente posição de proeminência do País no contexto mundial.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, atividades terroristas venham a ocorrer também no Brasil.

9) AGRAVAMENTO DA PROBLEMÁTICA DA SEGURANÇA PÚBLICA BRASILEIRA

As limitações e carências dos órgãos de segurança pública e o aumento do poder e da violência de grupos ligados ao crime organizado, ou a ilícitos transnacionais, contribuem para agravar a problemática da segurança pública brasileira e criam um ambiente propicio à demanda para emprego das Forças Armadas em segurança pública, ainda que em caráter eventual.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, a problemática da segurança pública brasileira se agrave ao ponto de ser institucionalizado o emprego das Forças Armadas.

10) DESENVOLVIMENTO DE UMA MENTALIDADE DE DEFESA NO BRASIL

A sociedade brasileira não demonstra grande interesse pelos assuntos diretamente ligados à defesa nacional e o tema não é prioritário para as lideranças e os formadores de opinião do País.

A Estratégia Nacional de Defesa apresenta dentre suas metas a de desenvolvimento de uma mentalidade de defesa na sociedade. Nesse sentido, o Ministério da Defesa e as Forças Armadas vêm desenvolvendo iniciativas como programas de incentivo, congressos, seminários e simpósios, dentre outras.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, os assuntos de defesa passem a fazer parte da agenda nacional ao ponto de influenciar decisivamente as políticas governamentais.

11) FORTALECIMENTO DA INDÚSTRIA DE DEFESA DO BRASIL

O fortalecimento da indústria de produtos de defesa no Brasil se constitui em peça fundamental na redução das vulnerabilidades militares do País. Anseia-se que ela seja capaz de produzir parcela significativa dos materiais e equipamentos estratégicos com tecnologia agregada que atenda às necessidades das FA. Isso, no entanto, esbarra em desafios de toda ordem. Grandes conglomerados da indústria de defesa dos países mais ricos bloqueiam tentativas de desenvolvimento das empresas similares dos países menos poderosos.

O aumento dos investimentos em C&T, a competitividade dos materiais produzidos pela indústria de defesa, a transferência de tecnologia (offset) e o aumento do poder de compras das FA são os principais fatores para o fortalecimento da base industrial de defesa brasileira, contribuindo para a redução do hiato tecnológico e para a nacionalização dos materiais de defesa.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, ocorra o fortalecimento da base industrial de defesa brasileira ao ponto de suprir no mínimo 50% das necessidades de material de defesa das Forças Armadas.

12) CRESCIMENTO E SEGURANÇA DE FLUXO DO ORÇAMENTO DO EXÉRCITO BRASILEIRO (EB)

A crescente projeção internacional do Brasil indica a necessidade de um poder militar bem equipado e adestrado.

A eficiência operacional das Forças Armadas é dependente de orçamento compatível e constante. Nas últimas décadas, a escassez dos recursos alocados para o Exército Brasileiro tem redundado em deterioração cada vez mais séria de sua operacionalidade.

Além disso, o orçamento do EB ainda sofre retardamentos, contingenciamentos e considerável volume de recursos são inscritos em restos a pagar, dificultando o cumprimento da sua destinação constitucional.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31 de dezembro de 2030, o governo aumente os recursos orçamentários e assegure um fluxo mínimo destinado a investimentos do Exército Brasileiro.

13) ADEQUAÇÃO DA INFRAESTRUTURA CRÍTICA ÀS NECESSIDADES DE DEFESA

Os sistemas nacionais que constituem a infraestrutura crítica do Brasil, em especial energia, transportes e comunicações não podem entrar em colapso, pois são indispensáveis ao desenvolvimento do País, devendo também observar às necessidades de defesa nacional.

Atualmente, as obras de infraestrutura crítica não atendem na sua plenitude às necessidades de defesa, acarretando prejuízo ao planejamento estratégico operacional das FA, sobretudo no que tange a comando e controle, mobilização, logística, mobilidade estratégica e outras

O Exército dentre suas atividades subsidiárias executa obras da infraestrutura, mas não participa do planejamento de políticas públicas de forma a adequar as obras realizadas às necessidades de defesa.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, ocorra a adequação da obras de infraestrutura crítica do Brasil para atender às demandas de defesa do país.

14) AGRAVAMENTO DA CRISE DE VALORES NA SOCIEDADE NACIONAL

A História da humanidade tem mostrado que um dos alicerces da grandeza das nações é o respeito a um código tácito de valores morais e éticos. Riqueza, desenvolvimento e poder político, isoladamente, não lhes conferem coesão, bem-estar ou autorrespeito, nem lhes sustentam em desafios extremos.

Nações com vocação de grandeza cultuam pátria, liberdade, honestidade, dever, justiça, vida, família, educação, dignidade e disciplina, entre outros, como sínteses de princípios morais inspiradores de nobres ideais.

A sociedade brasileira enfrenta uma crescente crise moral com desprezo por aqueles e outros valores, disseminada sensação de impunidade e desrespeito ao princípio da autoridade, afetando com isso a coesão nacional.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, a crise de valores na sociedade nacional se agrave ao ponto de contaminar as Forças Armadas.

15) AUMENTO DA INFLUÊNCIA DE ATORES NÃO GOVERNAMENTAIS

Atores não governamentais – ONGs, empresas transnacionais, movimentos sociais e organismos internacionais – têm assumido papéis ativos em temas sociais, culturais, econômicos, ambientais, de direitos humanos e outros. Desvencilhando-se agilmente da burocracia, alguns aproveitam as fragilidades do Estado e ocupam espaço crescente na sociedade brasileira, como se fossem parte do aparato oficial.

Vários deles são prestigiados, pois declaram estar a serviço de causas nobres: culturais, religiosas, comunitárias, ambientalistas, educacionais, de direitos humanos ou de defesa de minorias. Embora alguns deles não se submetam à aprovação popular, procuram influenciar, cada vez mais, a opinião pública e as decisões políticas, trazendo reflexos para todos os campos do poder nacional.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, os atores não governamentais tenham poder sobre o governo ao ponto de influir nas decisões relativas à segurança e defesa.

16) AGRAVAMENTO DAS TENSÕES SOCIAIS

Apesar dos esforços de sucessivos governos e da perceptível melhoria da qualidade de vida da classe mais pobre da população – fator relevante para a paz social -, continuam a existir desigualdades sociais e regionais, motivadas por questões ligadas ao desemprego, déficit habitacional, saneamento básico, saúde pública e educação.

Além disso, a problemática das tensões sociais no Brasil envolve outros fatores, como a ausência do Estado em algumas áreas críticas, a luta pela terra, as questões indígenas e quilombola, os problemas ligados à violência urbana, o crescimento desordenado das grandes cidades e a questão da segurança alimentar.

A questão se refere à probabilidade de que, até 31/12/2030, o agravamento das tensões sociais seja de tal vulto que venham a comprometer a lei e ordem no Brasil.

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Como colocar ordem no progresso?

Reinaldo Garcia

O Brasil tem sido fre­quentemente conde­nado por seus “gar­galos” em infraestrutura. Estive fora do País por trinta anos, mas acompanhei o avanço sociopolítico da nação e o ganho de prestígio internacional. Retornei em 2011 e, obviamente, me deparei com outro Brasil, onde o crescimento econômi­co gerou os desafios atuais, que pre­cisam ser superados para permitir nova evolução da indústria e da so­ciedade brasileira.

De acordo com o último Censo De­mográfico do IBGE, o Brasil é o quin­to país mais populoso do mundo, atrás de China, índia, EUA e Indoné­sia. O salto populacional desde 1970, de 90 para 190 milhões de brasileiros em 2012, ampliou o poder da indús­tria e permitiu a evolução da classe média, hoje fundamental para a sus­tentação da economia. Para 2050, de­vemos ser mais de 250 milhões brasi­leiros, segundo projeção do Censo.

Esse indicador populacional é um alerta. Mais pessoas representam mais alimentos, mais energia, mais transporte, mais serviços de saúde e mais infraestrutura. Para garantir o aumento sustentável da produção in­dustrial, o desenvolvimento dos merca­dos e o suprimento da crescente deman­da em diferentes setores, é preciso mais do que planejamento e investimento en­volvendo o poder público e atores da iniciativa privada.

Usando a experiência brasileira co­mo exemplo de aprendizado, na década de 1950, ocorreu uma grande mudança na geografia do País, com o investimen­to no modelo rodoviário, que possibili­tou conectar diferentes Estados com o intuito de ampliar o comércio intra-estado e internacional. Um movimento beméfico, mas que não poderia ter acon­tecido de maneira isolada.

Ainda apoiado na história do que ocorreu com o Brasil de 1950, sabe-se que os investimentos para viabilizar a expansão das estradas foram de respon­sabilidade do governo. O Projeto de Lei Orçamentária divulgado pelo ministé­rio da Fazenda em agosto de 2012 prevê investimentos de R$ 186,9 bilhões para 2013, um aumento de 9% sobre o ano anterior. Uma projeção do BNDES, di­vulgada em 2012, aponta que o País rece­berá US$ 850 bilhões de investimentos da iniciativa privada, até 2014, para apli­cação na indústria, pesquisa e inovação. Cultivar esta parceria é outro aprendiza­do importante que tem sido ampliado, com benefícios pára ambos os lados.

Quais são os próximos passos? Em novembro passado, durante o +Brasil, evento realizado em São Paulo, gover­no, iniciativa privada e academia discutiram o trabalho para alavancar o cresci­mento sustentável que possibilite a ex­pansão dos principais indicadores eco­nômicos e sociais do País, sanando os entraves que impedem o avanço cons­tante e ordenado. A principal conclusão é que o planejamento precisa ser realiza­do mutuamente, tanto pelo governo co­mo pela iniciativa privada.

No cenário mundial, uma rápida imersão no êxito da Coreia do Sul mos­tra como a infraestrutura pode susten­tar o desenvolvimento. O avanço econô­mico, que fez o PIB per capita saltar de US$ 100 em 1963 para mais de US$ 31 mil por habitante em 2011, segundo o Fundo Monetário Internacional, possi­bilitou criar uma rede de transportes avançada e de alta tecnologia que cruza todo o território nacional. Investimen­tos em educação resultaram na presen­ça de aproximadamente 89% das pes­soas no terceiro grau. E com isso, permi­tiram o reabastecimento de talentos no mercado de trabalho.

Ao lado de programas do governo pa­ra enaltecer a pesquisa, os aportes em educação foram o principal combustí­vel para permitir que as gigantes da in­dústria coreana ultrapassassem concor­rentes japonesas na liderança da tecno­logia da informação. E apesar de ser uma nação com ampla capacidade de geração energética instalada, anunciou um plano para investir US$ 36 bilhões entre 2011 e 2015 para o desen­volvimento de fontes renováveis de energia, para crescer com exporta­ções de energia limpa.

Os desafios do Brasil decorrentes de carências em infraestrutura e ou­tros setores não apenas persistem co­mo representam entraves para um país com grandes ambições. As primeiras projeções oficiais para 2013, di­vulgadas pelo Banco Central em 18 de dezembro, apontam melhora na eco­nomia, mas continuidade das exporta­ções em ritmo reduzido. Esse termô­metro reforça a importância de se pla­nejar um Brasil com o governo e inicia­tiva privada caminhando juntos, in­vestindo continuamente e localmen­te em soluções inovadoras para os de­safios, para aumentar o potencial do mercado interno como sustentação da economia e possibilitar uma me­lhora significativa das exportações. Pensar na evolução do Brasil com o crescimento de toda a sociedade brasi­leira, a exemplo do avanço na Coreia do Sul, pode ser determinante para que 2013 seja o começo de um capítu­lo ainda mais promissor para o País.

FONTE: O Estado de S. Paulo – 07/01/2013

 

O Brasil e a nova ordem mundial

Cristiano Romero

Há muito se fala da decadência do “império americano”, hipótese que teria se tornado mais visível neste século graças às consequências da crise financeira de 2007/2008 e à emergência econômica de potências como a China. Sem perder tempo, a intelligentsia americana tem se debruçado sobre o tema não só para compreendê-lo, mas também para indicar caminhos que ajudem os Estados Unidos a manter a hegemonia.

Um desses esforços está sendo empreendido por dois dos principais “think tanks” (numa tradução livre, usinas de ideias, embora centro de influência seja o conceito mais adequado): o Center for a New American Security (CNAS) e o German Marshall Fund of the United States (GMF). As duas entidades criaram projeto, batizado de “Swing States” (Estados decisivos), para examinar como os EUA e seus aliados europeus podem se aproximar de quatro países emergentes para fortalecer a ordem internacional.

Em estudo intitulado “Global Swing States: Brazil, India, Indonesia, Turkey and the Future of Internacional Order”, Daniel M. Kliman e Richard Fontaine advogam a tese de que essas quatro nações emergentes têm peso suficiente para influenciar de forma decisiva a trajetória da atual ordem mundial. O que eles sugerem é que o governo americano, bem como seus aliados europeus e asiáticos, coloque esses países no topo das prioridades da política externa.

Entidades sugerem que EUA e aliados deem prioridade ao país

Por que Brasil, Índia, Indonésia e Turquia? A explicação: os quatro possuem uma grande e crescente economia – juntas, somam PIB, medido pelo conceito de paridade do poder de compra (PPP), de quase US$ 8 trilhões -, localização estratégica em suas regiões e compromisso com instituições democráticas. Para Kliman e Fontaine, sua abordagem na ordem mundial é mais fluida e aberta que as da China e Rússia.

“(…) Todos são cada vez mais influentes nos níveis regional e global, e embora desejem mudanças na ordem internacional, não querem desmontá-la”, afirmam.

A ordem internacional que os EUA colocaram de pé no pós-guerra enfrenta, de fato, vários desafios. Um deles é a decadência do sistema multilateral de crédito, afetado pelo enfraquecimento de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird). Outro é a estagnação das negociações comerciais multilaterais. Há também as dúvidas que cercam a emergência da China como potência econômica e política.

Kliman e Fontaine mencionam ainda, como desafios à ordem mundial, as ambições nucleares do Irã e da Coreia do Norte, além da perda de fôlego da democracia em algumas regiões – segundo a Freedom House, o percentual de Estados democráticos caiu de 64% em 2006 para 60% em 2011. Nesse contexto, afetados pela crise, EUA e União Europeia estão sofrendo pressões fiscais e políticas que constrangem sua atuação como principais sustentáculos da ordem global.

Grosso modo, os dois “think tanks” estão propondo ao presidente Barack Obama que atraia para o clube os quatro aliados emergentes, antes que eles tomem decisões que contrariem interesses centrais dos EUA e de seus aliados e, pior, aliem-se a poderes que Washington considera perigosos, pouco confiáveis ou fora de seu controle, casos de Rússia e China.

Kliman e Fontaine definem a ordem mundial por meio de cinco temas: comércio, finanças, questão marítima, proliferação nuclear e direitos humanos. Eles analisam como cada um dos quatro emergentes está lidando com essas questões e recomendam ações concretas de aproximação. É curioso ver como percebem o Brasil, país historicamente amigo dos EUA, mas igualmente relutante a uma aproximação maior, ao contrário do que fazem Índia e Turquia.

O Brasil é visto como uma nação que, nos últimos anos, na esteira de seu relativo sucesso econômico, aprofundou a democracia e reduziu as desigualdades sociais e que, por essas razões, exige reconhecimento internacional. O país aspira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e a um maior peso nas decisões do FMI e do Bird, pleitos que americanos e europeus nunca consideraram seriamente.

No capítulo do comércio, o Brasil é descrito pelos autores como um país que tem trabalhado para desacelerar a liberalização comercial, adotando medidas protecionistas, ainda que dentro das regras da OMC. É lembrada a tentativa de transformar em disputa comercial as políticas adotadas por China e EUA para “artificialmente” desvalorizar suas moedas. Para os brasileiros, um “subsídio às exportações”.

Na ordem financeira, o Brasil saiu da posição de recipiente para a de doador líquido de recursos de instituições multilaterais. Tornou-se forte defensor da adoção de controles de capital, tendo obtido sucesso em convencer o FMI a repensar suas recomendações nessa área. O Brasil é lembrado, ainda, por defender o fim da predominância do dólar nas relações comerciais.

Na questão marítima, o país é visto como uma nação que tenta driblar regras internacionais, mas que, ao mesmo tempo, dá contribuições para aumentar a segurança marítima. É signatário da Unclos, convenção da ONU para esse setor, e busca, por meio dela, realizar suas ambições. Uma delas é ampliar, como fez em 2008 de forma malsucedida, a zona de segurança em torno de instalações “offshore” (como plataformas de petróleo).

Na questão nuclear, o Brasil é visto como um ator que, mesmo signatário do TNP (Tratado de Não-Proliferação), defende a soberania, opondo-se a medidas para fortalecer esse acordo. O envolvimento fracassado, juntamente com a Turquia, nas negociações com o Irã em 2010 não é visto como prenúncio de futuras ações nessa área. “Pelo contrário, muitos brasileiros veem hoje esse episódio como um tropeço da política externa”, dizem Kliman e Fontaine.

O capítulo de direitos humanos lembra retrocessos do governo Lula (a oposição a resoluções da ONU contra países violadores) e avanços da gestão Dilma, que votou contra os interesses do Irã. A relutância do país em apoiar ações militares contra regimes que cometem atrocidades contra seus cidadãos é lembrada. Aqui, prevalece a ideia da diplomacia brasileira de que direitos humanos não devem ser pretexto para intromissões de caráter geopolítico.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

FONTE: Valor Econômico – 26/12/2012

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A recuperação da capacidade operacional das Forças Armadas e o desenvolvimento de projetos ligados aos três eixos estruturantes da Estratégia Nacional de Defesa (END) e do Programa de Articulação e Equipamentos de Defesa (PAED) – cibernético, aeroespacial e nuclear – marcaram o último painel do Seminário Estratégias de Defesa, realizado no auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados.

Durante mais de duas horas, militares representando o Ministério da Defesa, por meio do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA), fizeram detalhamento minucioso daquilo que planejam para o horizonte de 35 anos. O seminário foi promovido pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, com apoio do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Coube ao chefe de Operações Conjuntas (Choc), do EMCFA/MD, brigadeiro Ricardo Machado Vieira, a abertura do painel “Os grandes projetos estratégicos das Forças Armadas”. O militar fez sua exposição com base nas diretrizes traçadas pela END e pelo PAED. E apresentou os eixos estruturantes que cabem às Forças Armadas e os principais projetos em desenvolvimento por elas.

“Precisávamos de um plano para as nossas Forças Armadas dispostas em forma mais lógica. Por isso, buscamos prioridades em áreas estratégicas”, disse o brigadeiro Machado.

Submarino nuclear

Após a apresentação das diretrizes gerais, os oficiais-generais representantes dos comandantes da Marinha, do Exército e da Força Aérea Brasileira (FAB) deram detalhes daquilo que vem sendo desenvolvido. O contra-almirante Antonio Fernando Garcez Faria relatou que a Marinha tem trabalhado em projetos na área nuclear, que se divide no ciclo de combustível e no laboratório de geração núcleo-elétrica (LABGENE).

A Força Naval também trabalha no âmbito do núcleo de poder naval no desenvolvimento de navios-patrulha de 500 toneladas – corveta classe Barroso. A meta é incorporar 46 desses navios. A Força atua ainda no Programa de Obtenção de Meios de Superfícies com os navios-patrulha adquiridos recentemente na Grã-Bretanha.

O navio-patrulha oceânico Amazonas foi o primeiro de três unidades a ser incorporado para atuar na região denominada “Amazônia Azul”. Nas próximas semanas, a Marinha receberá a segunda embarcação em Londres, sendo a terceira no primeiro trimestre do próximo ano.

Em outra frente, a Força Naval trabalha no projeto de construção de submarinos convencionais e a propulsão nuclear no polo de Itaguaí (RJ). O esforço concentrado tem por finalidade, também, permitir a segurança da navegação.

Já na parte de tropas, a Marinha planeja constituir a 2ª Esquadra da 2ª Força de Fuzileiros que deverá ser instalada próximo à foz do rio Amazonas. Deste modo, o litoral brasileiro estaria sendo coberto pelos fuzileiros numa área que vai do Oiapoque (AP) ao Chuí (RS).

Sete projetos do Exército

Em seguida, o general-de-brigada Luiz Felipe Linhares Gomes, chefe do Escritório de Projetos do Exército, apresentou os setes projetos estratégicos da Força Terrestre. O primeiro deles é o blindado Guarani – que tem por finalidade produzir o carro de combate substituto do Urutu e do Cascavel. Segundo o general, serão adquiridas 102 unidades de combate, mas, antes dessa remessa, a Iveco produzirá 14 para a Argentina.

“Isso será importante, pois o Brasil irá exportar esses equipamentos, agregando divisas à balança comercial”, disse o militar, ao explicar que o projeto é viável economicamente para o país.

O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron) foi o segundo projeto apresentado na palestra das Forças Armadas. De acordo com o general Luiz Felipe, o projeto piloto a cargo do braço de indústria de defesa Embraer, vencedora da licitação, será desenvolvido em Dourados (MS). Além disso, o Exército trabalha com o projeto Proteger, que tem foco nas 664 bases de infraestrutura do país, como porto, aeroportos, usinas nucleares e hidrelétricas, bem como redes de comunicação.

O Exército atua também no projeto Astros 2020, no Centro de Defesa Cibernética (CDCiber) e na Recop (Recuperação da Capacidade Operacional). O militar enfatizou em discurso que o investimento em defesa não tem custo. Segundo ele, o leque de projetos e programas permitirá, entre outras questões, gerar mais emprego, desenvolver a indústria nacional e transferir tecnologia.

Soberania do espaço aéreo

O brigadeiro Osmar Machado, da 6ª Subchefia do Estado-Maior da Aeronáutica, apresentou os projetos prioritários da Força Aérea. Ele começou a exposição informando que o Plano Estratégico Militar da Aeronáutica (PEMAER), para 2010/2013 traz, na prática, as determinações da END e do PAED, documentos norteadores do Ministério da Defesa. O plano, prevê entre outras coisas, o aumento da capacidade operacional da FAB e a capacitação científica e tecnológica da Força.

“Qualquer projeto dentro da FAB tem que chegar à missão principal, que é manter a soberania do espaço aéreo do Brasil”, destacou.

A Aeronáutica atua em projetos como a modernização do F-5M com lote de 46 aeronaves, sendo que 44 aviões já foram incorporados. Também investe na revitalização de 43 aviões do A-1M (AMX), cuja entrega deve ser concluída até o próximo ano. O brigadeiro citou ainda, que entrou em ação na Operação atlântico III, que ocorre entre o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul. Aeronave tem por missão assegurar o patrulhamento marítimo.

Durante sua exposição, o militar mencionou também projetos como o A-29 (caça leve), o KC-390 – avião para transporte de tropas e cargas, além de outras funções – e os helicópteros H-XBR, que terão 50 unidades entregues para a Marinha, o Exército e a Aeronáutica, além da Presidência da República.

A FAB atua também no desenvolvimento de doutrina para utilização de veículos aéreos não tripulados (Vants), com dois equipamentos já em fase de testes pela Força. Já quanto ao projeto F-X2 – um dos temas mais esperados pela plateia –, o brigadeiro Osmar Machado informou que a análise da concorrência encontra-se em fase de decisão por parte da presidenta Dilma Rousseff.
“Posso apenas informar que, qual seja a decisão do projeto escolhido atenderá muito bem à FAB”, encerrou.

Após as apresentações, o público pôde formular indagações. Em seguida, o seminário foi encerrado pelo deputado Hugo Napoleão (PSD-PI) e pela presidenta da Comissão, deputada Perpétua de Almeida (PCdoB-AC).

FONTE: Ministério da Defesa

 

O discurso sobre defesa está saindo do ministério com esse nome e envolvendo cada vez mais outros setores da sociedade. É o que mostra um estudo em andamento de Peterson Ferreira da Silva, doutorando em Relações Internacionais na USP.

Silva procura mostrar que, além das questões estritamente militares, o reaparelhamento das forças armadas envolve fatores diplomáticos, tecnológicos e de administração pública. Impacta o próprio desenvolvimento e a cooperação internacional.

Um exemplo é o projeto do blindado sobre rodas Guarani, iniciativa do Exército e da empresa italiana Iveco. Além de substituir veículos obsoletos, ele tem grande potencial de exportação na América Latina, como demonstrou recente interesse da Argentina.

Num país com remotas ameaças, a manutenção das forças armadas costuma ser descrita como um “seguro”. “Restringir a defesa a essa única faceta significa autolimitar a magnitude da contribuição desse instrumento em relação ao Estado”, diz.

O pesquisador dá exemplos de boa combinação defesa-diplomacia. Cita a criação, em 1991, da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares, que afastou de vez o risco de uma corrida armamentista nuclear na região.

E também a participação do Brasil, desde 2004, na Missão da ONU para a Estabilização no Haiti. E ainda a criação, em 2008, do Conselho de Defesa Sul-americano.

Na área do reaparelhamento, as iniciativas incluem o míssil ar-ar de curto alcance A-Darter, entre Brasil e África do Sul, e o avião de transporte militar e reabastecimento aéreo KC-390, a primeira grande iniciativa internacional brasileira na área, em cooperação com Argentina, Chile, Colômbia, Portugal e República Tcheca.

“O Brasil permanece entre os quinze maiores gastos com defesa mundiais”, diz. Mas boa parte é gasto com pessoal, especialmente inativos.

Além disso, os recursos costumam sofrer contingenciamentos. “Essa volatilidade explica, em grande parte, o porquê do predomínio das compras de oportunidade pelas forças e as rodadas de aquisições de suas principais plataformas”. É o caso dos helicópteros EC 725 e dos submarinos franceses.

FONTE: Folha de S. Paulo

 

O aprofundamento da cooperação bilateral e da parceria no desenvolvimento de projetos estratégicos setoriais foi a tônica do encontro entre os ministros da Defesa do Brasil e da França, Celso Amorim e Jean-Yves Le Drian, nesta segunda-feira, em Brasília.

Na reunião, os ministros também trataram de aspectos gerais relativos à cooperação em defesa, ressaltando a confiança mútua existente entre as duas nações na execução de projetos de interesse comum.“Temos com a França uma relação importante que se estende também na área da defesa. Essa cooperação recebeu um impulso enorme nos últimos anos”, destacou Amorim.

O ministro francês ressaltou a disposição do governo de seu país em manter os compromissos contratuais firmados com o Brasil, sobretudo no aspecto relativo à transferência de tecnologia, requisito indispensável previsto na Estratégia Nacional de Defesa (END) brasileira para aquisições militares.

A França é, atualmente, um dos principais parceiros estratégicos do Brasil no setor de defesa. Durante o encontro, os representantes das duas nações mencionaram alguns dos mais relevantes projetos em conjunto atualmente em curso. O primeiro foi o PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos), que prevê a construção de submarinos convencionais e à propulsão nuclear, em Itaguaí (RJ). O outro envolve a produção de 50 helicópteros de transporte, modelo EC-725, fabricados pela Eurocopter e Helibras, em Itajubá (MG).

Na reunião, os ministros também fizeram breves considerações sobre as visões estratégicas dos dois países. Amorim lembrou a influência francesa na formação do Exército Brasileiro e ressaltou a importância na manutenção de uma parceria duradoura, que vá além de um único governo. O ministro brasileiro reafirmou as prioridades geoestratégicas do Brasil, focadas no incremento da cooperação com os países sul-americanos e africanos, mas sem a exclusão de parceiros de outras regiões do mundo.

O encontro entre Amorim e Le Drian resulta no desdobramento das conversas mantidas entre a presidenta Dilma Rousseff e o presidente da França, François Hollande, em julho, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. No próximo mês, a presidenta fará visita oficial à França.

Missões de paz e cooperação

A comitiva francesa chegou a Brasília no último domingo (04). Hoje, pela manhã, foi recebida com honras militares na sede do Ministério da Defesa. Em seguida, as duas autoridades iniciaram a reunião bilateral com suas respectivas equipes, que incluíram comandantes militares e autoridades civis.

No início da conversa, o ministro Amorim deu as boas-vindas ao colega francês e destacou que recebia, pela primeira vez, o ministro do governo Hollande para tratar de assuntos de defesa. Depois, o brasileiro apresentou a proposta dos temas que seriam tratados no encontro.

Entre outros aspectos, os ministros destacaram a participação brasileira nas missões de paz no Líbano e no Haiti. A propósito desse último país, Amorim recordou a doação de US$ 40 milhões feita pelo governo brasileiro para a elaboração do projeto de construção da usina hidrelétrica de Artibonite. O ministro sugeriu a participação francesa no projeto, que tem por finalidade suprir o Haiti de energia elétrica, insumo indispensável para garantir condições para o desenvolvimento socioeconômico da nação caribenha.

Amorim destacou também a participação de um assessor especial do Ministério da Defesa, em evento em Paris, para relatar aos franceses sobre a experiência do processo de elaboração do Livro Branco de Defesa Nacional, que pela primeira vez está sendo editado no Brasil. O governo Hollande vem coletando informações sobre o tema para elaboração de documento congênere que deverá contemplar as diretrizes estratégicas de defesa daquele país. “Isso é uma demonstração de confiança e interesse mútuos”, disse Amorim.

O tráfico de drogas na fronteira entre Brasil e Guiana Francesa também foi assunto abordado na reunião. O ministro francês explicou que seu governo tem permanecido atento em relação ao tema. Ele citou inclusive o patrulhamento da fronteira da Guiana como forma de combate ao narcotráfico.

Ainda em relação ao aprofundamento da cooperação bilateral, os dois ministros conversaram sobre a possibilidade de retomada das reuniões no formato “2+2”, que consiste na participação dos titulares das pastas de Defesa e de Relações Exteriores. Para eles, o encontro poderia se dar a cada ano, como forma de estreitar as relações Brasil-França. A proposta deverá ser encaminhada à consideração dos presidentes e ministros das Relações Exteriores dos dois países.

Programa FX-2

A compra dos caças pelo Brasil no âmbito do programa FX-2 também entrou na pauta do encontro bilateral. Numa breve consideração, o ministro Amorim explicou que o tema está sob análise da presidenta Dilma Rousseff, a quem caberá, oportunamente, a decisão final sobre o assunto.

De Brasília, o ministro francês seguiu para o Rio de Janeiro. A comitiva de Le Drian visitará as obras que contemplam o PROSUB, como a Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM), além da construção do Estaleiro e Base Naval (EBN) de Submarinos, em Itaguaí* . Ele será acompanhado pelo comandante da Marinha, almirante Julio Soares de Moura Neto, e do diretor-geral do Material da Marinha, almirante Arthur Pires Ramos.

O ministro conhecerá as futuras instalações que possibilitarão a construção do submarino com propulsão nuclear, marco do PROSUB.

A parceria estratégica entre Brasil e França adotou, entre outras, a Cooperação na Área de Defesa, mediante a qual os dois países desenvolverão parcerias industriais e transferência de tecnologia. Essa Cooperação abrange, como uma das metas, a construção conjunta de quatro submarinos com propulsão convencional (S-BR) e a assistência da França para desenvolver a parte não nuclear do projeto de submarino com propulsão nuclear brasileiro (SN-BR).

FONTE: Ministério da Defesa

*NOTA: não deixe de conferir matéria exclusiva do Poder Naval sobre a visita do ministro da Defesa da França às obras em Itaguaí. Clique aqui para acessar.

 

Por: KEITH B., RICHBURG, THE WASHINGTON POST

Na China, ao lado da transição política, com a passagem do poder para novos dirigentes no próximo mês, uma mudança radical também ocorrerá na liderança do Exército de Libertação Popular, com a nomeação de uma nova geração de comandantes desse que é o maior Exército do mundo.

Num momento em que o país insiste nas suas reivindicações territoriais contra vizinhos, a Comissão Militar Central que governa de fato o Exército da China deve passar por uma impressionante renovação. Sete de seus dez membros do alto escalão, incluindo dois vice-presidentes, estão se aposentando e muitos outros postos do alto comando serão renovados.

Depois de anos de modernização, o Exército chinês tornou-se um protagonista cada vez mais poderoso, impulsionando o engajamento da China com o mundo. Alguns generais mais assertivos têm defendido publicamente uma linha diplomática mais dura em relação aos vizinhos asiáticos e aos EUA, tentando usurpar o que antes era uma área exclusiva do Ministério do Exterior. Mas o processo de promoção da comissão militar, que é secreto, parece ter sido obstruído com a destituição este ano de Bo Xilai, ex-governador da Província de Chongqing que tinha vínculos pessoais nas Forças Armadas. Pelo menos dois generais muito cotados para participar da comissão – Liu Yuan, comissário político da Academia de Ciência Militar, e Zhang Haiyang, comissário político do Segundo Corpo de Artilharia – foram deixados de lado por terem estreitas relações com Bo Xilai.

Após o escândalo envolvendo Bo, outros comandantes correram para manifestar sua lealdade a partido e ao seu secretário-geral, Hu Jintao, também presidente da China.

A transição militar também ficou um pouco incerta depois de rumores surgidos em setembro de que Hu tentaria se manter no posto de presidente da comissão militar após renunciar aos demais cargos do alto escalão que ocupa. Seria uma jogada de Hu para aumentar sua influência, o que poderia prejudicar seu sucessor designado, o vice-presidente Xi Jinping. O atual vice-presidente da comissão passaria a ocupar a cadeira de presidente com a saída de Hu.

Quando Hu assumiu a liderança, o ex-presidente Jiang Zemin manteve a presidência do Exército chinês durante dois anos. As tentativas de Hu suscitaram uma inusitada reação contrária dos militares. “Quando chega o momento de uma pessoa se aposentar, ela deve fazê-lo”, disse um general aposentado. “Não acho que uma pessoa deve usar esse recurso para ampliar seu mandato. Além do mais, a sucessão será menos independente. Cada um necessita da sua própria equipe.”

Xi Jinping, filho do herói revolucionário Xi Zhongxun, tem elos muito mais profundos com o Exército do que Hu e conhece muitos da safra mais jovem de oficiais. De meados de 1970 até 1982, Xi usou o uniforme de membro do serviço ativo e trabalhou como secretário de Geng Biao, que foi comandante do Exército de Libertação Popular, ministro da Defesa e secretário-geral da Comissão Militar Central. Xi acompanhou Geng Biao em visitas oficiais de delegações militares à Europa e em 1980 aos EUA. Muitos dos comandantes mais jovens nasceram depois de o Partido Comunista assumir o poder na China, em 1949. Como Xi e outros novos líderes políticos, alguns dos generais em ascensão são membros da “nobreza vermelha”, ou filhos de heróis revolucionários. Esses “pequenos príncipes”, como são chamados, nasceram com privilégios e sofreram a opressão da Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, dos anos 1966-76, mas conhecem mais a China economicamente poderosa dos últimos 30 anos.

Ao contrário da geração mais velha, muitos desses comandantes jovens não têm nenhuma experiência de combate. O último importante conflito da China foi uma guerra de fronteira com o Vietnã em 1979, que durou 29 dias. Pouco se sabe o que esses novos líderes militares pensam. Somente alguns falam ou escrevem abertamente e muitos jamais dão entrevistas. Mas sua visão de mundo determinará de modo considerável se o poder militar crescente da China deverá alarmar a região e mais além, se um futuro confronto com os vizinhos ou os EUA será inevitável.

A China não torna público seus gastos militares totais, mas especialistas de todo o mundo estimam que as despesas subiram de US$ 20 bilhões em 2002 para no mínimo US$ 120 bilhões no ano passado. É uma fração dos gastos militares dos EUA, mas para alguns analistas o orçamento militar da China deve ultrapassar o dos EUA em 2035.

As tendências políticas dos novos líderes militares também poderão determinar se o Exército continuará a ser o principal pilar de apoio do Partido Comunista. Desde que foi convocado para reprimir as manifestações pró-democracia na Praça Tiananmen em 1989, o Exército tem trabalhado para tornar a Polícia Armada do Povo uma entidade separada direcionada para controlar distúrbios, com competência para garantir a segurança interna. Assim, o Exército regular pode se concentrar na sua tarefa de modernização e se tornar uma força profissional, em vez de ser utilizado novamente como instrumento de controle interno. “O Exército e a polícia armada devem ter funções separadas”, afirmou o general Luo Yuan numa rara entrevista. “A polícia armada deve controlar assuntos domésticos e o Exército se concentrar na defesa.”

Dennis Blasko, ex-oficial da inteligência militar americana e ex-adido militar em Pequim, diz que, depois de 1989, “o Exército de Libertação Popular entendeu que sua reputação estava prejudicada e não desejava passar por aquela experiência novamente”.

Segundo Luo, “os novos líderes virão com experiências diferentes, qualidades diferentes e personalidades distintas da última geração e isso certamente afetará seu estilo de trabalhar”. Entre outros atributos, os comandantes nascidos nos anos 50 são mais cultos – muitos têm curso superior e a maior parte trabalhou no campo durante a Revolução Cultural, o que significa que “compreendem as bases”, disse Luo.

Alguns analistas estrangeiros se preocupam com a possibilidade de essa geração mais jovem estar ansiosa para provar sua têmpera. “Existe um real antagonismo com relação aos EUA. O alarmante é que, à medida que esse grupo de oficiais acredita que os EUA estão determinados a persegui-los, seu Exército também se aprimora”, afirmou Dean Cheng, analista da Heritage Foundation em Washington. “Observamos um Exército mais confiante, mais arrogante e impulsionado por uma liderança política de certa maneira ávida para mostrar o quanto ele melhorou. Tudo o que você necessita é que alguém faça algo estúpido”, acrescentou Cheng.

Outros concordam que o real problema pode decorrer de alguma coisa fortuita. Por exemplo, com mais forças marítimas operando nos mares do sul da China e da China Oriental, Dennis Blasko diz estar “cada vez mais preocupado com a possibilidade de ocorrer alguma coisa que possa levar a uma escalada”.

Tão importante quanto a perspectiva de mundo dos novos comandantes é a sua opinião sobre a necessidade de uma reforma do sistema político leninista retrógrado da China. Lin Yuan, filho de Liu Shaoqi, líder da era Mao, num discurso em janeiro, alertou que a corrupção está tão profundamente arraigada que se tornou uma ameaça para o partido e o Exército. “Prefiro arriscar minha posição do que desistir de combater a corrupção até o fim”, afirmou para algumas centenas de autoridades.

O general Liu Yazhou, comissário político da Universidade de Defesa Nacional e considerado um “pequeno príncipe” por seu famoso sogro Li Xiannian, chocou as pessoas em 2010, com um ensaio provocativo publicado numa revista de Hong Kong, em que defendia mais democracia. “Se um sistema não consegue deixar seus cidadãos respirarem livremente e liberarem sua criatividade ao máximo, está fadado a perecer”, escreveu.

Essas palavras poderiam ser consideradas subversivas num outro contexto. Mas Liu há meses foi promovido a general por Hu Jintao, que vem colocando seus fiéis partidários nos altos escalões da comissão. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINOT

FONTE: The Washington Post via O Estado de S. Paulo
IMAGEM: China Daily

 

A impotência da UE perante o drama sírio testemunha a ausência de uma política externa europeia credível. Mas que só pode existir se a Europa se dotar de verdadeiras forças armadas comuns.

 

Por Olivier Dupuis

Alepo, Damasco… ruas juncadas de corpos, bairros esventrados, bombardeamentos cegos… Imagens e relatos intoleráveis que nos recordam imediatamente as horas mais sombrias de Sarajevo e de Grozny. Urbanicídios. E nada parece mexer.

Os Estados Unidos estão em campanha eleitoral. Quanto aos europeus, mesmo que queiram intervir, simplesmente não podem. Esta impotência europeia não condiciona apenas a resolução futura de um conflito que se instala para durar. Contribuiu também para a transformação de um conflito político em conflito militar totalmente assimétrico. A “democracia Potemkin” russa utilizou plenamente essa ausência americana e essa impotência europeia.

A Europa do “soft power” está nua. Espera por novembro como se espera por Godot. Espera que os Estados Unidos se mexam ou que os insurrectos ganhem. Não se sabe ao certo. Mas, para além da Síria, a Europa tem de sair desta insustentável impossibilidade estratégica.

A questão da fragilidade estratégica dos países europeus não pode ser lida à luz da capacidade (ou não) da realização de operações de manutenção ou de restabelecimento da paz. Insere-se no âmago dos movimentos tectónicos que trabalham o mundo estratégico. Os Estados Unidos não se limitaram a compreendê-lo. Responderam-lhe deslocando o centro de gravidade da sua política de segurança do Atlântico para o Pacífico e pedindo aos europeus que assumam maiores responsabilidades. Até agora, estes responderam apenas com uma nova formulação do “gastar menos e gastar melhor”: a “defesa inteligente”.

Missões de Petersberg

Se, mais do que a moeda, a defesa toca o coração das prerrogativas de soberania das nações, deixemos então à NATO e aos Estados-membros a defesa em sentido estrito, incluindo a questão da dissuasão nuclear, e concentremo-nos naquilo que é já um consenso no seio da União: “à Europa cabem as missões de Petersberg (manutenção da paz, imposição da paz e missões humanitárias) e à NATO (e também aos Estados-membros) a manutenção dos equilíbrios estratégicos”, escreveu, em janeiro passado, Jean-Jacques Roche.

Não se trata da fusão dos exércitos (ou de parte deles) dos diferentes Estados-membros, mas sim de criar, a partir do zero, ao lado dos exércitos nacionais, um exército europeu comum. Com o seu Estado-Maior, o seu sistema de recrutamento, as suas academias militares, as suas bases militares, os seus serviços de informações…

Se partirmos da hipótese de uma cooperação reforçada a que aderissem inicialmente dez países-membros (Alemanha, Bélgica, Bulgária, Espanha, França, Grécia, Itália, Holanda, Polónia e Portugal) transferindo 0,2% do seu PIB – ou seja, entre 8 a 20% dos seus respetivos orçamentos de Defesa – da sua defesa nacional para um exército europeu comum, o orçamento anual dessa força atingiria cerca de €18 mil milhões. Se a ele se juntassem os britânicos, o orçamento ultrapassaria os €21 mil milhões. O que não é pouco se considerarmos que esses meios deveriam ser, essencialmente, consagrados à implantação das forças.

Um instrumento militar comum obrigaria os Estados-membros a deliberarem e a decidirem em conjunto a participação ou não em missões de manutenção ou de restabelecimento da paz e sobre as suas modalidades. Contribuiriam, assim, para a definição de uma política externa comum. Isso permitiria igualmente aos Estados-membros financiarem programas que, sozinhos, não estão em condições de assumir. Finalmente, o exército comum permitiria aos exércitos nacionais dos Estados participantes beneficiarem de serviços a que, a título individual, têm cada vez mais dificuldade de aceder (capacidades de observação e de comunicação por satélite, proteção contra as ameaças bacteriológicas, químicas, nuclear, grupos aero navais, serviços de informações…).

Dupla aprovação

Se a abordagem é “comunitária”, a responsabilidade política da organização e do funcionamento desse exército deve ser concedida ao presidente da Comissão Europeia e a um comissário para a Segurança e Defesa. A eles caberia decidir da oportunidade de envolver ou não o exército comum em operações de manutenção ou de restabelecimento da paz. Essa decisão seria submetida à dupla aprovação do Parlamento Europeu e do Conselho dos países participantes nesta cooperação reforçada. Através deste último, os Estados-membros – e sobretudo os mais populosos de entre eles – conservariam um bom controlo aritmético e um bom controlo político da decisão do recurso à força.

Este exército comum seria integrado na NATO enquanto reserva estratégica segundo as modalidades a definir com o conjunto dos membros da Organização Atlântica. A cooperação reforçada seria aberta a todos os países da UE que aceitassem que este exército comum fizesse parte integrante da NATO.

Alguns argumentaram que, neste momento de crise, a União Europeia tem assuntos mais importantes a tratar. Isso é não dar qualquer importância ao que a criação de um tal exército europeu comum poderia trazer em termos de credibilidade política ao projeto europeu no seu conjunto, incluindo junto dos atores económicos.

Além do mais, o orçamento da União seria, de uma só vez, aumentado em 20%. O exército comum permitiria igualmente ter em conta os efeitos centrípetos em termos de desenvolvimento económico resultante da criação da moeda única, investindo nos países do Sul as principais infraestruturas necessárias.

O momento é propício, mas o prazo é curto

Com Angela Merkel, a chanceler alemã, Wolfgang Schäuble, o homem forte do seu Governo, o Presidente francês François Hollande, Giorgio Napolitano, o Presidente italiano, Mario Monti, Donald Tusk e Mariano Rajoy, os primeiros-ministros italiano, polaco e espanhol… raramente a Europa terá visto a conjunção de tantas personalidades de primeiro plano com convicções europeias bem afirmadas. Se a eles juntarmos um primeiro-ministro britânico conhecido pelo seu pragmatismo, há razões para acreditar que o momento é propício. No entanto, o prazo é curto. Na próxima primavera haverá eleições em Itália e logo a seguir será a vez da Alemanha…

Tudo isto nos levou para muito longe da tragédia que está a ter lugar na Síria. Sem dúvida. Porque, mesmo que a Europa decida – finalmente – enfrentar a questão da sua política de segurança, será preciso tempo até que se torne operacional. Sem dúvida. No entanto, podemos razoavelmente pensar que essa assunção europeia de responsabilidade poderia ter efeitos imediatos sobre esses países que hoje bloqueiam todas as iniciativas a favor de uma ação da comunidade internacional para parar a mortífera política do regime sírio.

FONTE: Portal Presseurop

 

“Mesmo se [Mitt] Romney [candidato republicano que chamou a Rússia de “inimigo número um dos EUA”] não ganhar as eleições, daqui a quatro anos ele ou alguém com pontos de vista semelhantes pode chegar ao poder”, declarou Pútin, na última quarta-feira (12), durante uma reunião com o presidente da Sérvia, Tomislav Nikolic.

O presidente russo havia anunciado na semana retrasada que está disposto a trabalhar com qualquer presidente eleito pelo povo norte-americano. Mas dessa vez Pútin se deteve apenas aos detalhes das relações entre Rússia e Estados Unidos no contexto da defesa antimíssil.

O PRO [como se chama o sistema na Rússia] é, sem dúvida, o principal ponto de divergências entre Washington e Moscou na esfera da segurança. As abordagens de ambos os países nessa área são diametralmente opostas.

Os russos preocupam-se com os planos de instalação de componentes da defesa antimíssil norte-americana perto de suas fronteiras. Os norte-americanos, por sua vez, dizem não haver motivo para preocupações, mas se recusam a dar garantias por escrito de que a defesa antimíssil não será posicionada na direção do arsenal de defesa russo.

O vice-diretor do Instituto para Assuntos dos EUA e do Canadá da Academia de Ciências da Rússia, Pável Zolotarev, acredita que, diferentemente da época da Guerra Fria, não se pode mais partir da ideia de que o conflito teórico entre URSS e Estados Unidos consistia apenas em uma troca de ataques nucleares em massa.

“A tendência atual é de que, se vier à tona um conflito nuclear, ele poderá ser limitado a ataques isolados ou em grupo. Para excluir a possibilidade de ataques nucleares isolados impunes, é preciso considerar o potencial do sistema PRO. Aqui os receios da Rússia têm todo fundamento”, explica Zolotarev.

As negociações russo-americanas na esfera do sistema PRO correm paralelas à instalação de antimísseis e radares norte-americanos na Europa. Enquanto isso, a ameaça adquire contornos inteiramente concretos, com a instalação de antimísseis perto das fronteiras da Rússia, como destaca o consultor do Centro de Pesquisas Políticas PIR e tenente-general da reserva, Evguêni Bujinski.

“Trata-se da questão das águas continentais do mar Báltico, e talvez do mar do Norte, e também da instalação de elementos do sistema PRO na Polônia. A ameaça é real, pois esses elementos têm potencial técnico de interceptação de nossos mísseis balísticos, embora os norte-americanos neguem isso”, afirma o consultor.

As preocupações de Moscou não são levadas em conta nem por democratas nem por republicanos. Acontece que a ideia de montar um sistema de defesa antimíssil global nasceu na década de 1990, na época da presidência de Bill Clinton, colega de partido de Obama. Depois, os planos nessa área tiveram potente impulso com o presidente seguinte, o republicano George Bush filho. Obama apenas modificou esses projetos.

“A colaboração com a Rússia na esfera do sistema de defesa antimíssil é prioridade do presidente, assim como era na época do governo de George Bush filho”, declarou na última segunda-feira (10) o assistente da Secretaria de Estado dos EUA para questões de verificação e observação de acordos, Frank Rose.

O sistema de defesa antimíssil dos Estados Unidos é, desse modo, fruto de um acordo interpartidário da elite política norte-americana e, por isso, a política do Kremlin na esfera do sistema PRO não se orienta de acordo com a filiação partidária dos candidatos à presidência dos EUA.

No próximo mandato presidencial norte-americano, que se estende até 2016, vai acontecer a terceira etapa do sistema de defesa antimíssil na Europa. Provavelmente nesse período será preciso tomar decisões fundamentais no campo da segurança.

Paralelamente, a Rússia iniciou testes de engenharia para desenvolvimento de um novo foguete de combustível líquido em resposta à instalação do sistema de defesa antimíssil norte-americano na Europa.

De acordo com o consultor responsável pelos Arsenais de Foguetes de Destinação Estratégica, Víktor Essin, a decisão de construir um foguete intercontinental foi tomada em 2010 e, portanto, não tem relação direta com a atual situação. “Não é um sinal de retomada da Guerra Fria, mas não se pode excluir que a situação conduza a uma nova corrida armamentista”, conclui Essin.

FONTE: Gazeta Russa

 

Para ministro da Defesa, base americana resultaria em isolamento do país em relação aos seus vizinhos do Mercosul

 

Marcelo Gomes, da Agência Estado – Agência Estado

RIO DE JANEIRO – O ministro da Defesa, Celso Amorim, classificou de “esdrúxula” a possibilidade de instalação de uma base militar dos Estados Unidos no Paraguai. Segundo ele, isso resultaria num isolamento ainda maior do país em relação aos seus vizinhos do Mercosul. As declarações foram feitas no Rio nesta segunda-feira, 9.

“Eu não sou ministro das Relações Exteriores, mas seria uma coisa tão esdrúxula que resultaria no isolamento a tão longo prazo do Paraguai que acho que não vale a pena. Não creio que ocorrerá”, afirmou Amorim, que participou hoje da solenidade de transmissão do controle do Exército para a Polícia Militar estadual do policiamento dos complexos pacificados do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio.

A possibilidade de construção de uma base dos EUA no Chaco, na região de fronteira próxima à Bolívia, foi anunciada na última sexta-feira, pelo deputado José López Chávez, presidente da Comissão de Defesa da Câmara dos Deputados do Paraguai. López Chávez afirmou que negociou a instalação da base com generais das forças armadas americanas, que visitaram o Paraguai dias após a destituição de Fernando Lugo da presidência.

FONTE: Estadão / FOTO: Wilton Junior

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Mário César Flores, almirante-de-esquadra (reformado)

A questão existencial das Forças Armadas – o quê, para o quê, por quê e com quais prioridades – vem exigindo revisão no mundo do pós-guerra fria. Que papéis são hoje presumíveis para elas nos diversos cenários nacionais e internacionais, qual a organização, quais as configurações e dimensões que lhes são adequadas? No equacionamento desse quadro de dúvidas influi o como a sociedade e o mundo político veem a defesa nacional – tema referenciado ao Brasil no artigo A Defesa no sentimento nacional, em O Estado de S. Paulo de 2/8/2011, cuja continuidade do descaso sugere ser conveniente nele insistir. O descompasso entre o País político/econômico e seu sistema militar tem sido irrelevante para a sociedade e a política brasileiras – uma fissura nacional incubadora de insegurança, na projeção do tempo.

Há 140 anos (guerra com o Paraguai) sem ameaças externas percebidas como graves, é compreensível o desinteresse da sociedade pela defesa, compartilhado pelo mundo político e setores da intelligentsia (universidade, mídia, etc.) que cultivam um curioso paradoxo: vociferam soberania, numa época de revisão restritiva desse conceito, mas são insensíveis às injunções estratégicas na soberania nacional e no status do País na ordem internacional!

A razão de ser básica das Forças Armadas é menoscabada, e tendemos a ensá-las principalmente no desempenho de suas atribuições subsidiárias (segurança da navegação aérea e marítima, atuação em crises de defesa civil, etc.), como milícia em apoio à polícia no controle do paroxismo de desordem e violência vigente no País e na vigilância policial das fronteiras, áreas de atuação permanente ou eventual importantes, mas não substitutas da defesa nacional como justificativa do sistema militar.

Demonstração clara desse “clima”: a defesa nacional não tem merecido dedicação atenta no Congresso Nacional. O desapreço se explica: no Brasil político muito pautado pela eleição/reeleição, para que a atenção política vá além das próximas eleições – condição intrínseca às grandes questões da defesa -, é preciso que o interesse da sociedade e o apelo eleitoral decorrente se estendam mais adiante do curto prazo, e isso não acontece com a defesa.

Além de não render votos, a defesa nacional não é propícia ao atendimento de nossa cultura política patrimonial-clientelista e do condicionamento viciado. Esse cenário se reflete no trato do Orçamento: no “mundo que conta”, nosso orçamento militar é pequeno em porcentual do PIB. Tal participação é compreensível diante das demandas sociais e econômicas e da ausência de problemas de defesa entendidos como críticos. Mas é errado que os efeitos da constrição no preparo militar coerente com o País sejam “sumariamente ignorados”, embora na democracia o Congresso seja ator relevante na defesa nacional e na inserção da dimensão estratégica do País no cenário internacional.

O tema é complicado, mais ainda em época, como a atual, em que a tecnologia, complexa e naturalmente cara, não permite improvisação sob pressão da necessidade imediata, como ocorria no século 19, quando nossa política era apoiada em capacidade militar improvisada, viável com a tecnologia de então (na 2.ª Guerra Mundial a atuação brasileira ainda foi improvisada, com apoio tutelar norte-americano).

A Estratégia Nacional de Defesa (END), aprovada em dezembro de 2008, foi (é) um passo positivo, mas qual tem sido sua repercussão (apoio, contribuições, restrições?) na sociedade, na mídia e na política? Praticamente nula. Foi avaliada e avalizada pelo Congresso (atuação que lhe propiciaria amparo político) e analisada por instituições de estudo supostamente dedicadas ao tema? Se o foi, não houve interesse e repercussão na mídia e na sociedade.

A emersão da defesa nacional do descaso é condição (ao menos uma das condições) para que o Brasil se faça presente, com a estatura que lhe cabe, na arquitetura do século 21. Há que identificar e hierarquizar nossas vulnerabilidades e preocupações, formular concepções estratégicas com a definição de prioridades realistas e a configuração e organização das Forças que lhes correspondam – um processo exigente de visão política e competência estratégica à altura da difusa realidade atual e do Brasil nela.

Sem ufanismo ilusório e tampouco sem sujeição à ideia de que a segurança é garantida pelo jurisdicismo e pacifismo utópicos, a presença brasileira no mundo requer atenção para o fato de que vivemos num mundo imperfeito, sujeito ao realismo do poder e aos conflitos inerentes ao planeta economicamente, ambientalmente e com acesso aos recursos naturais praticamente integrado, mas politicamente fragmentado.

Em paralelo com a construção de um país socialmente feliz e economicamente forte, é preciso construir uma afirmação político-estratégica apoiada em capacidade militar comedida, mas convincente e credível; coerente com o Brasil no contexto regional; dissuasória, por sinalizar risco e alto custo para qualquer agressor, hoje improvável, mas não impossível no correr do tempo; além de útil à cooperação em missões internacionais legitimadas por organização adequada. E isso não é fácil, na ausência de interesse político e societário. Insere-se nessa equação o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, ilógico sem razoável capacidade militar que o respalde.

Vale repetir aqui fato citado no artigo anterior: há cerca de 15 anos, no intervalo em seminário sobre o Ministério da Defesa, no qual emergira inoportunamente o tema salarial, ouviu-se esta frase: “Os militares ganham mal, mas por que lhes pagar mais, se não precisamos deles?”. É necessário que esse final psicótico seja revertido. Se a defesa nacional continuar em plano de irrelevância autista, correremos o risco de comprometer decisivamente a lógica existencial das Forças Armadas: seu papel na garantia da vida nacional protegida e na inserção correta do Brasil na ordem regional e global.

FONTE: O Estado de São Paulo

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A defesa no sentimento nacional

Mario Cesar Flores – O Estado de S.Paulo

Ressalvado o restrito mundo profissional da defesa, nos últimos decênios nosso sistema militar vem sendo lembrado principalmente na síndrome da insegurança pública e (se tanto) no cenário da criminalidade transnacional fronteiriça, problemas de natureza basicamente policial, embora também militar, nos limites definidos em legislação. Nas pesquisas de opinião as Forças Armadas são bem hierarquizadas no quesito confiabilidade. Entretanto, trata-se de confiabilidade relacionada mais à correção ética num universo público visto como venal do que como instrumento de defesa, preocupação ausente. Praticamente não existe no Brasil interesse político e societário pela defesa nacional.

A Estratégia Nacional de Defesa (END), aprovada em dezembro de 2008, é um documento abrangente, aberto ao conhecimento público, sobre a defesa em seus vários aspectos interativos, militares e civis. Pode e deve ser aperfeiçoada – como certamente será -, mas já é um passo positivo, despercebido pela opinião pública e pelo universo político. Vigente há mais de dois anos, qual foi até agora a sua repercussão no Congresso Nacional? Não houve, ao menos em nível que chamasse a atenção da mídia e, por intermédio da mídia, provocasse a da sociedade, em particular, da intelligentzia nacional. Essa apatia preocupa, porque numa democracia a construção de poder militar eficiente, em coerência com o País e sua inserção internacional, não é viável na contramão do sentimento nacional, principalmente de sua representação política. Depende da aceitação política e societária de que fraqueza, pacifismo autista e jurisdicismo utópico não são virtudes absolutas, não garantem em quaisquer circunstâncias o progresso em tranquilidade.

A falta de interesse decorre de quatro razões.

Primeira: o preconceito gerado pelas interveniências militares na vida nacional, tema superado, mas ainda influente em segmentos do sectarismo anacrônico.

Segunda: no sistema militar não há espaço para a cultura clientelista e patrimonialista – o que reduz ainda mais o já precário interesse dos políticos brasileiros pautado nessa cultura.

Terceira: a defesa nacional não gera votos, tanto assim que na discussão política o tema militar praticamente se limita ao que afeta o humor eleitoral corporativo (salário, por exemplo).

E quarta: a mais que centenária ausência de ameaça clássica em que o Brasil tivesse vivido papel protagônico ou ao menos significativo (na 2.ª Guerra Mundial fomos atores coadjuvantes). Depois de Rio Branco, que via espaço para o poder militar, a política brasileira não o tem enfatizado – propensão insegura no incerto maior prazo, porque poder militar moderno não se improvisa ao se manifestar sua necessidade. Solução emergencial ao estilo “voluntários da Pátria” mal armados e mal preparados, da Guerra do Paraguai, seria hoje catastrófica; lembremos a esse respeito nosso despreparo na entrada na 2.ª Guerra Mundial, que compulsou à dependência tutelar dos EUA. Curiosamente, o ministro do Exterior não está explicitado no rol de ministros responsáveis pela formulação da END; a ser real a ausência, é, no mínimo, instigante!

O sentido desta última razão está sintetizado no final dessa frase de professor universitário, proferida com tranquila convicção no coffee break de seminário numa universidade: “Realmente os militares ganham pouco, mas por que pagar-lhes mais se não precisamos deles?”! Remuneração à parte, sem espaço neste artigo, a afirmação “não precisamos deles” é preocupante.

Sintoma emblemático do descaso: na votação do Orçamento a outorga ou a negação de recursos independem de seus efeitos na defesa nacional. Não se pode pretender do Congresso atenção detalhada, mas os recursos são concedidos ou negados à revelia daqueles efeitos, embora na democracia o Congresso também seja responsável pela defesa. Na conciliação do preparo militar com as limitações orçamentárias – compreensíveis, errado é atuarem no bojo da apatia refletida no corte abstrato, tanto na tramitação congressual como na liberação pelo Executivo -, o orçamento da defesa precisa ser estruturado com a visão que assegure continuidade aos projetos prioritários, em geral longos e caros. Esse quesito não tem sido atendido, exigindo ajustagens que tumultuam o preparo militar e prejudicam o desenvolvimento tecnológico de interesse da defesa e a continuidade da indústria de defesa, insustentável sem demanda segura.

Não havendo trauma de risco que a precipite dramaticamente, a elevação da sensibilidade nacional sobre defesa é processo cultural que se estenderá por longo tempo. O processo deve esclarecer por que, como e quanto a dimensão estratégica do poder continua atuante no século 21, deve contextualizar a segurança do Brasil na sua região e no mundo, sem arroubos ufanistas, mas também sem escapismos utópicos como se o mundo vivesse a paz kantiana, embora Hobbes continue vivo nele… Na medida em que ocorra a elevação, a defesa nacional passará a assunto de mérito, vista com responsabilidade e menos sujeita a mudanças radicais com as eleições porque é assunto de Estado, transcende os governos. Será resgatada da apatia e exercerá seu papel de respaldo ao progresso em tranquilidade e à interação do Brasil com o mundo, cujas turbulências pedem atenção, sem exageros, mas prudente.

Voltando à END: embora de fato um primeiro passo positivo, falta-lhe o aval do sentimento nacional, dependente do interesse político e societário pela defesa, sobretudo do político, hoje em claro déficit. A configuração do sistema militar é problema profissional, interno ao Ministério da Defesa, mas sua moldura é política. A dúvida que permeia as agendas nacionais dos países relevantes em todo o mundo, sobre o sistema militar que responde às vulnerabilidades e aos interesses do País nas circunstâncias do século 21, não terá resposta consistente sem aquele aval.

ALMIRANTE DE ESQUADRA (REFORMADO)

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