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Os canalhas nos ensinam mais

Arnaldo Jabor

Nunca vimos uma coisa assim. Ao menos, eu nunca vi. A herança maldita da política de sujas alianças que Lula nos deixou criou uma maré vermelha de horrores. Qualquer gaveta que se abra, qualquer tampa de lata de lixo levantada faz saltar um novo escândalo da pesada. Parece não haver mais inocentes em Brasília e nos currais do País todo. As roubalheiras não são mais segredos de gabinetes ou de cafezinhos. As chantagens são abertas, na cara, na marra, chegando ao insulto machista contra a presidente, desafiada em público. Um diz que é forte como uma pirâmide, outro que só sai a tiro, outro diz que ela não tem coragem de demiti-lo, outro que a ama, outro que a odeia. Canalhas se escandalizam se um técnico for indicado para um cargo técnico. Chego a ver nos corruptos um leve sorriso de prazer, a volúpia do mal assumido, uma ponta de orgulho por seus crimes seculares, como se zelassem por uma tradição brasileira.

Temos a impressão de que está em marcha uma clara “revolução dentro da corrupção”, um deslavado processo com o fito explícito de nos acostumar ao horror, como um fato inevitável. Parece que querem nos convencer de que nosso destino histórico é a maçaroca informe de um grande maranhão eterno. A mentira virou verdade? Diante dos vídeos e telefonemas gravados, os acusados batem no peito e berram: “É mentira!” Mas, o que é a mentira? A verdade são os crimes evidentes que a PF e a mídia descobrem ou os desmentidos dos que os cometeram? Não há mais respeito, não digo pela verdade; não há respeito nem mesmo pela mentira.

Mas, pensando bem, pode ser que esta grande onda de assaltos à Republica seja o primeiro sinal de saúde, pode ser que esta pletora de vícios seja o início de uma maior consciência critica. E isso é bom. Estamos descobrindo que temos de pensar a partir da insânia brasileira e não de um sonho de razão, de um desejo de harmonia que nunca chega.

Avante, racionalistas em pânico, honestos humilhados, esperançosos ofendidos! Esta depressão pode ser boa para nos despertar da letargia de 400 anos. O que há de bom nesta bosta toda?

Nunca nossos vícios ficaram tão explícitos! Aprendemos a dura verdade neste rio sem foz, onde as fezes se acumulam sem escoamento. Finalmente, nossa crise endêmica está em cima da mesa de dissecação, aberta ao meio como uma galinha. Vemos que o País progride de lado, como um caranguejo mole das praias nordestinas. Meu Deus, que prodigiosa fartura de novidades sórdidas estamos conhecendo, fecundas como um adubo sagrado, tão belas quanto nossas matas, cachoeiras e flores. É um esplendoroso universo de fatos, de gestos, de caras. Como mentem arrogantemente mal! Que ostentações de pureza, candor, para encobrir a impudicícia, o despudor, a mão grande nas cumbucas, os esgotos da alma.

Ai, Jesus, que emocionantes os súbitos aumentos de patrimônio, declarações de renda falsas, carrões, iates, piscinas em forma de vaginas, açougues fantasmas, cheques podres, recibos laranjas de analfabetos desdentados em fazendas imaginárias.

Que delícia, que doutorado sobre nós mesmos!… Assistimos em suspense ao dia a dia dos ladrões na caça. Como é emocionante a vida das quadrilhas políticas, seus altos e baixos – ou o triunfo da grana enfiada nas meias e cuecas ou o medo dos flagrantes que fazem o uísque cair mal no Piantella diante das evidências de crime, o medo que provoca barrigas murmurantes, diarreias secretas, flatulências fétidas no Senado, vômitos nos bigodes, galinhas mortas na encruzilhada, as brochadas em motéis, tudo compondo o panorama das obras públicas: pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, orgasmos entre empreiteiras e políticos.

Parece que existem dois Brasis: um Brasil roído por ratos políticos e um outro Brasil povoado de anjos e “puros”. E o fascinante é que são os mesmos homens. O povo está diante de um milenar problema fisiológico (ups!) – isto é, filosófico: o que é a verdade?

Se a verdade aparecesse em sua plenitude, nossas instituições cairiam ao chão. Mas, tudo está ficando tão claro, tão insuportável que temos de correr esse risco, temos de contemplar a mecânica da escrotidão, na esperança de mudar o País.

Já sabemos que a corrupção não é um “desvio” da norma, não é um pecado ou crime – é a norma mesmo, entranhada nos códigos, nas línguas, nas almas. Vivemos nossa diplomação na cultura da sacanagem.

Já sabemos muito, já nos entrou na cabeça que o Estado patrimonialista, inchado, burocrático é que nos devora a vida. Durante quatro séculos, fomos carcomidos por capitanias, labirintos, autarquias. Já sabemos que enquanto não desatracarmos os corpos públicos e privados, que enquanto não acabarem as emendas ao orçamento, as regras eleitorais vigentes, nada vai se resolver. Enquanto houver 25 mil cargos de confiança, haverá canalhas, enquanto houver Estatais com caixa-preta, haverá canalhas, enquanto houver subsídios a fundo perdido, haverá canalhas. Com esse Código Penal, com essa estrutura judiciária, nunca haverá progresso.

Já sabemos que mais de R$ 5 bilhões por ano são pilhados das escolas, hospitais, estradas. Não adianta punir meia dúzia. A cada punição, outros nascerão mais fortes, como bactérias resistentes a antigas penicilinas. Temos de desinfetar seus ninhos, suas chocadeiras.
Descobrimos que os canalhas são mais didáticos que os honestos. O canalha ensina mais. Os canalhas são a base da nacionalidade! Eles nos ensinam que a esperança tem de ser extirpada como um furúnculo maligno e que, pelo escracho, entenderemos a beleza do que poderíamos ser!
Temos tido uma psicanálise para o povo, um show de verdades pelo chorrilho de negaças, de “nuncas”, de “jamais”, de cínicos sorrisos e lágrimas de crocodilo. Nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo. Céus, por isso é que sou otimista! Ânimo, meu povo! O Brasil está evoluindo em marcha à ré!

FONTE: O Estado de S.Paulo

 

Carlos Alberto Sardenberg

Os Estados Unidos têm a maior economia do mundo e, em renda per capita, estão entre os dez mais ricos. Considerando apenas os países grandes, os EUA são os mais ricos. Além disso, trata-se de uma democracia. Logo, é esse o modelo a ser copiado, certo?
Mas olhem o momento: uma baita crise financeira e a evidência de que os mais ricos sempre se saem melhor. Na prosperidade, ganham mais, na queda, perdem menos. Além disso, empresas e bancos, na liberdade de mercado, só pensam nos seus lucros, dane-se o povo. Não, esse sistema não serve mais, nem para os americanos.

Passemos, então, para a segunda maior economia do mundo, a China. Crescimento médio anual de 10% ao longo de três décadas! Há empresas privadas, nacionais e estrangeiras, mas as estatais e o governo controlam firmemente os negócios, impondo limites à ganância do mercado. Para os países emergentes, em especial, esse capitalismo de estado seria o modelo ideal para o crescimento rápido e mais equilibrado, certo?

Mas é uma ditadura – e provavelmente o modelo só para de pé nesse ambiente autoritário. O controle do governo gera muitas ineficiências e corrupção, pois os negócios dependem sempre do “apoio” de um governante ou de um dirigente do Partido Comunista. Além disso, além de salários baixos, há muita desigualdade, sim. Em Shangai, o padrão de vida é europeu. No interior, há regiões mais pobres que a África. Não, esse tipo de crescimento não justifica uma ditadura.

Passemos, então, para a Europa, a ocidental, onde se pratica o capitalismo do bem-estar social ou a economia social de mercado. A Alemanha, terceira maior economia do mundo, é o exemplo acabado: democracia, empresas privadas pujantes, mas com forte regulação, e um governo que fornece serviços universais de qualidade. São ricos, livres e têm a proteção do Estado – eis o modelo, certo?

Mas custa muito caro. Isso exige uma carga tributária cada vez mais elevada e, mesmo assim, a dívida dos governos já chegou a níveis insuportáveis. Esse custo e mais o excesso de regulação e de governo retiram competitividade das empresas. Resultado: baixo crescimento, níveis elevados de desemprego, especialmente entre os jovens. As gerações atuais estão protegidas, mas os mais jovens percebem que o futuro não garante a boa vida dos pais. Não, o modelo parece não servir nem para os próprios europeus.

Eis o debate que ocorre mundo afora, inconcluso. Voltaremos ao tema, claro.

FONTE: O Globo

 

1. Mundo Mudou! Nós estamos vivendo uma mudança de época. O mundo mudou. Sabemos do que estamos nos afastando, mas ainda não pressentimos para onde vamos. Estamos indo para um mundo onde temas centrais da vida moderna são tratados por organismos que exercem jurisdição internacional, por exemplo, os que mexem com economia, meio ambiente e terrorismo. Exemplo forte é o da Justiça internacional, com o Tribunal Penal, acima dos Estados nacionais. É uma época de inovação, de criação. Esse deslizamento está acontecendo numa escala mundial. O Estado-nação perde força. E as ideologias, comportamentos e atitudes que vieram com ele vêm se esmaecendo.

2. Sindicatos e Elite Econômica! A Dilma herda esse eixo, mas só que o mundo deslizou, vem deslizando. A armação que Lula concebeu e fez funcionar está destruída. Este sindicalismo não tem mais o velho lugar, quando sentava com o presidente da República e deliberava como ia ser o salário mínimo futuro – tanto de produtividade, tanto de inflação – e que virou lei agora. Isso foi feito com Lula e eles. Não tem mais Dilma e eles. A conta é alta. Passa pela Previdência, pelo salário mínimo, ajuste fiscal, custo Brasil, não dá mais. Essa crise está limpando a névoa, está obrigando a que o argumento econômico seja mais respeitado. Há exemplos de fora: Itália, Espanha. As medidas dela não terão como objeto os que estão em cima, as elites econômicas, mas quem está embaixo. Você continua a viver num condomínio entre governo e elites econômicas do país. Sempre disse isso.

3. Comissão da Verdade! A minha posição não acompanha as posições majoritárias aí na intelligentsia. Acho que a gente deve recuperar a história, mas o passado passou. Página virada. Cada país fez, em circunstâncias diferentes. Você, à esta altura, rasgar a Lei da Anistia, seria jogar o país numa crise, não sei para quê. Mas, vem cá, as grandes lideranças que nos trouxeram à democracia tiveram muito clara essa questão: anistia real, geral e irrestrita. As forças derrotadas, ou seja, a luta armada, querem reabrir esta questão? Não foram elas que nos trouxeram à democracia. Nos momentos capitais, ela não estava à frente, na luta eleitoral, na luta política, na Constituinte. Era um outro projeto. É politicamente anacrônica. O país foi para frente. Os direitos humanos dizem respeito aos vivos. Aos mortos, o velho direito de serem enterrados como Antígona [protagonista da tragédia grega de Sófocles] quis enterrar o irmão em solo pátrio. É o que esta Comissão da Verdade está fazendo.

FONTE: Ex-Blog do Cesar Maia

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Em meio à austeridade com que vem tratando pressões dos poderes Legislativo e Judiciário por aumentos de gastos, a presidente Dilma Rousseff reconheceu que as Forças Armadas necessitam urgentemente de recursos para atualização tecnológica e para atender às novas exigências do País na área de defesa. A presidente disse que “a sociedade brasileira reconhece as virtudes de lealdade, abnegação e patriotismo naqueles que dedicam a vida à defesa da soberania, da democracia e da integridade territorial do Brasil”. E acrescentou que o Brasil também tem de reconhecer que esses homens e mulheres necessitam de recursos. Não só aqueles destinados a equipamentos, mas também aqueles que garantam uma vida digna à família militar. Antes, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) alertou que pesquisa indicou que 50% dos brasileiros temem que o País seja atacado por causa da Amazônia. Temos que reativar a indústria bélica. Nos anos de 1970, o Brasil foi um dos mais importantes polos navais do mundo. Agora, em parceria com a França, construiremos cinco submarinos convencionais, mais um movido a energia nuclear. O porta-aviões São Paulo está em reforma há mais de ano. A FAB aguarda a definição sobre os novos caças supersônicos para substituir os atuais equipamentos, com a escolha entre a França, a Suécia e os EUA.

O Centro de Avaliações do Exército realizou demonstração de tiro real da nova Viatura Blindada de Transporte de Pessoal Guarani, do novo fuzil IA2 Imbel e entregou à força terrestre os dois primeiros exemplares do radar Saber M60. O Guarani pesa 18 toneladas, tem capacidade para transportar 11 militares, é anfíbio, tem proteção balística contra munição calibre 7,62 mm perfurante e pode alcançar a velocidade de 100 km/h. Projetado por engenheiros militares brasileiros e produzido pela empresa Orbisat, o Saber M60 possui a tecnologia mais moderna do mercado dentre os equipamentos da categoria. As guerras clássicas ficaram nos livros de história. Agora, após quase nove anos de uma luta sem glória, os EUA se retiraram do Iraque. Porém, hoje, os inimigos são o terrorismo, a insegurança, o contrabando e o narcotráfico. Fronteiras não são barreiras confiáveis. Temos milhares e milhares de km com fronteiras secas ou onde a separação de um país para o nosso território é apenas um rio isolado e por onde, facilmente, se atinge a outra margem.

As Forças Armadas há 40 anos alertam para o problema. Por isso têm transferido para a Amazônia legal efetivos e pedem mais helicópteros, aviões caça e de transporte de tropas, veículos blindados e belonaves apropriadas. Mesmo tendo os melhores combatentes de selva na Amazônia, eis que são exímios conhecedores das matas e de como nelas sobreviver e lutar, o número é pequeno. Está na hora de aplicarmos uma teoria de ocupação da Amazônia, primeiro pelos nossos militares da Marinha, Exército e Aeronáutica e em torno dos Pelotões de Fronteiras, criando minicidades para que ali tremule a Bandeira Nacional. A indústria bélica gerará empregos, tecnologia e economizará importações. Vamos adotar logo o território do Norte e do Noroeste do Brasil, antes que militares, traficantes ou guerrilheiros de outras nações o ocupem.

FONTE: Jornal do Comércio/RS

 

Pesquisa foi feita com 3.796 pessoas em todo o país; margem de erro é 5%. Foi 1ª pesquisa realizada pelo Ipea de percepção sobre segurança nacional

 

Pesquisa divulgada nesta quinta-feira (15) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que 50% dos entrevistados acreditam “totalmente” ou “muito” que nos próximos 20 anos o Brasil será alvo de agressão militar estrangeira em função de interesses sobre a Amazônia. Outros 45% creem que o Brasil poderá ser atacado por causa das bacias do pré-sal.

Os dados integram o Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) do Ipea, que, nesta edição, mediu o temor da população a ameaças. Segundo o Ipea é a primeira vez que o instituto analisa o temor da população sobre questões de segurança nacional.

Foram ouvidas 3.796 pessoas nos 26 estados e Distrito Federal. A margem de erro é de 5%, informou o Ipea, instituto vinculado à Presidência da República.

Para os pesquisadores do instituto, a quantidade de pessoas que teme conflitos relacionados à Amazônia ou ao pré-sal é “surpreendente”, principalmente se comparado com outros números que mostram que, em ambos os casos, apenas cerca de 30% dos entrevistados descarta a ocorrência de um conflito por estes motivos. Os que acreditam “razoavelmente” na possibilidade de guerra são 17%.

Os pesquisadores destacaram também o fato de que na região Norte o percentual dos que temem “muito” os conflitos na Amazônia é de 66%.

“O percentual dos que estão na Amazônia, na região Norte, é muito alto. Ainda que isso [conflitos militares] não esteja no cotidiano, há uma mensagem clara de que essa preocupação já existe e fica maior ainda para o futuro”, disse o técnico de planejamento e pesquisa do Ipea Edison Benedito.

Para a chefe da assessoria técnica da presidência do Ipea, Luciana Acioly, os números mostram que a população está mais atenta a temas ligados ás riquezas do país, especialmente por causa da discussão sobre a divisão das receitas do petróleos, os royalties, que acontece no Congresso.

Além disso, as pessoas tem percebido a maior importância do Brasil no cenário internacional, de acordo com Luciana.

“Esse protagonismo brasileiro, essa importância que o Brasil está ganhando no mundo leva a população a perceber quais as encruzilhadas em que nos encontramos”, afirmou.

A pesquisa mostrou também que 34% dos entrevistados temem que o Brasil entre em guerra com outro país. Quando indagado sobre os países que representam ameaça, a maioria (37%) citou os Estados Unidos. O país, porém, foi também o mais citado (32%) como possível aliado.

“As pessoas ainda se veem ameaçadas com pais que tem capacidade militar sem paralelo. Ao mesmo tempo, as empresas americanas exportam, investem e a possibilidade de parceria é muito elevada. Essa ambiguidade decorre da variedade e da versatilidade do poder dos EUA”, disse o técnico de pesquisa e planejamento, Rodrigo Fracalossi.
Além do temor de guerra, os entrevistados responderam que têm medo do crime organizado (54%), como tráfico de drogas e armas, de desastres ambientais ou climáticos (38%), de epidemias (30%) e terrorismo (29%).

FONTE: G1

MANUEL CASTELLS

  1. O problema não é a complexidade da crise, mas a democracia. O que os políticos mais temem nesses momentos é que os substituamos, que roubemos deles esse poder delegado que mantêm, por um mecanismo controlado de eleições entre opções enquadradas nos limites do sistema, e legitimadas pela mídia.
  2. Na realidade, não se trata de salvar o povo, mas de salvar o euro, como se fossem a mesma coisa. Por que tanto interesse? E de quem? Porque dez dos 27 membros da União Europeia vivem sem o euro e algumas de suas economias (Reino Unido, Suécia, Polônia) são muito mais sólidas que a média da União Europeia? Defender o euro até o último grego é a primeira linha de defesa para uma moeda que está condenada porque expressa economias divergentes e que não têm um estado que a respalde. Com Portugal e Irlanda na UTI, a Espanha na corda bamba, e uma Itália em permanente crise política e endividada até o pescoço de seu ex-líder, a defesa franco-germânica do euro tem outras explicações.
  3. A primeira razão é obvia: salvar os bancos, principalmente os alemães e franceses, que emprestaram sem garantias para a Grécia e aos demais PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) mediante a manipulação de contas praticada, pelo menos no caso da Grécia, pela consultoria da Goldman Sachs (certamente, deve ser simples coincidência que Draghi, o novo presidente do Banco Central Europeu também foi empregado da Goldman Sachs). De início, já aceitam que precisarão esquecer 50% da dívida da Grécia. Mas os outros 50% têm que ser tirados do sangue, suor e lágrimas dos gregos, para que o não pagamento não acabe impune.
  4. Quebram os países para que os bancos não quebrem. Mas por que se faz isso? No fim, os Merkozy [Merkel e Sarkozi] não são funcionários dos bancos. Têm seus interesses políticos, nacionais e pessoais. A Alemanha necessita realmente que o euro seja a moeda europeia e que seus sócios não possam desvalorizá-la. Porque o modelo de crescimento alemão é na realidade, o mesmo que o chinês: crescer por meio de exportações favorecidas por uma moeda subvalorizada. Se houvesse um euro-marco forte, a Alemanha perderia mercados na Europa perderia competitividade em relação a exportações espanholas ou italianas.
  5. Mas há outra dimensão político-pessoal. Tanto Merkel quanto Sarkozy precisam estabelecer sua liderança europeia por razões de política interna e por projeto de grandeza nacional que é preciso disfarçar, para não despertar velhos fantasmas. E as outras elites políticas europeias? O sentimento de serem europeus, em um mundo em mudanças desde a América do Norte até a Ásia, dá-lhes a impressão de ser algo mais que produtos aldeanos do aparato de partido que tanto desprezam.
  6. E o sonho europeu? Ele pode ser construído com as pessoas, amando-nos uns aos outros, em vez de ver quem para a conta. Quando pensar em euro, pense fraude. Quando pensar em Europa, pense amigos.

FONTE: La Vanguardia, 20/11, via Ex-Blog do Cesar Maia

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Democracia versus baderna

A minoria ativista confunde liberdade com bagunça, e tenta se impor no grito, por meio da intimidação

Kátia Abreu

A ainda jovem cultura democrática brasileira enseja equívocos conceituais que frequentemente a ameaçam e a desmoralizam. Não é de estranhar, dada a origem autoritária de nossa República, que emergiu de um golpe de Estado, e a escassa cultura não só de nosso povo, mas também de parte de nossa elite.

O preâmbulo vem a propósito dos acontecimentos que envolvem a discussão, no Senado, do Código Florestal. Além de não se dar ao trabalho de ler a proposta -e lhe imputar acusações absurdas-, a minoria militante que a ela se opõe se arvora em falar em nome do povo, que não lhe deu tal delegação.

Dentro desse equívoco, tratam os que de fato detêm delegação popular -os parlamentares- como intrusos e querem impor sua vontade no grito, quando não na violência.

Assim é que, nesta semana, no curso das discussões, na Comissão do Meio Ambiente, essa minoria ativista, representada por 12 (!) estudantes da Universidade de Brasília, provavelmente ressentidos ainda da acachapante derrota no DCE, invadiu o Congresso e quis impor no grito o seu ponto de vista.

Os senadores foram ofendidos e abordados com violência. Fui pessoalmente ameaçada e insultada, tendo de sair sob escolta policial. Sabemos que o Congresso é a Casa do Povo, que a ela tem acesso para se manifestar, desde que pela ordem e com respeito, como manda a lei. Não foi o que ocorreu.

O pior é que não se tratou de um episódio isolado; ao contrário, vem se tornando recorrente, quase banal em nosso país. Assistimos, já há alguns dias, manifestação semelhante de truculência e vandalismo, na Universidade de São Paulo, onde uma minoria tenta se impor no grito, por meio de intimidação.

Os jornais informam que um punhado de estudantes -pouco mais de 70, num universo de 89 mil-, todos de classe média alta, vinculados a partidos e a organizações de esquerda, depredaram as instalações da USP, patrimônio do povo sustentado com os impostos.

Protestavam contra a presença da polícia, que reprimia o tráfico de drogas no campus. Enquanto a polícia cumpria a lei, fundamento do Estado democrático de Direito, aqueles militantes, travestidos de estudantes, promoviam o caos, impedindo que seus colegas exercessem o elementar direito/dever de estudar. “Vamos fazer a revolução”, bradavam, ao mesmo tempo em que invocavam a democracia para legitimar a baderna.

E aí começa a confusão conceitual. Confunde-se liberdade com bagunça, vale-tudo. Democracia é o regime da maioria, com o reconhecimento às minorias, mas não só: é o regime da lei, sem a qual nem as maiorias nem as minorias estão seguras de nada.

Sem o estrito cumprimento da lei, a democracia não sobrevive. Torna-se rito de passagem, presa fácil dos aventureiros que dela se servem para aniquilá-la. O truque é antigo, previsto já por Lênin: usar as facilidades que a democracia oferece como meio de chegar ao poder, para então bani-la. É o que assistimos.

Há anos, o Brasil vive sob o domínio do gramscismo, estratégia de tomada do poder concebida pelo teórico italiano marxista Antonio Gramsci, que defendeu a manipulação da cultura como meio mais eficaz de promover a revolução.

Nessa engenharia maléfica, todos os polos de produção cultural -mídia, universidades, editoras, meio artístico- têm de ser dominados por um pensamento hegemônico. No caso, o socialista. Tudo o que a ele se contrapõe recebe o selo de “direita”, que não significa nada, senão a maldição política e moral.

A questão ambiental, há anos, foi encampada por esses grupos, e não porque de fato os interesse. É apenas mais um meio de desestabilizar o país, enfraquecendo uma de suas maiores fontes de receita, o agronegócio, responsável pelos superavit na balança comercial do país e por um terço dos empregos.

Nem sequer conhecem o tema que abordam. Basta ver o que dizem a respeito para constatar que nem leram o projeto que será votado no Senado. O Código Florestal não anistia ninguém nem estimula o desmatamento, muito pelo contrário.

Impõe a recomposição de áreas degradadas e pune quem novamente as degradar. É inútil argumentar. São somente massa de manobra de interesses bem maiores que eles próprios desconhecem.
KÁTIA ABREU, 49, senadora (PSD-TO) e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, escreve aos sábados, a cada 14 dias, neste espaço.

FONTE: Folha de São Paulo

Sergio L. Y. dos Guaranys

Sociedade Brasileira é o conjunto total da população do Brasil. Inclui os permanentes no Brasil, excetua os que estão aqui a serviço de outros países e acrescenta os cidadãos brasileiros noutros países. Possui Mídia, Políticos, Empresas, Funcionalismo, Escolas e Centros de Pesquisa. Contém Polícia, Sistema Judiciário, Legislativo e Executivo. Possui para felicidade geral Forças Armadas e o Pessoal delas.

A mídia mostra o Governo eivado por desvio de dinheiro público, impunidade para quem o desvia e irresponsabilidade para fiscais omissos dos desvios. Eleição e regra eleitoral da criação do Governo desfrutam indefinição jurídica, seja por Lei, cujo Princípio é a Constituição Federal, onde prepondera intenção permissiva sobre a restritiva, seja por Instituição onde Congresso e Tribunais Superiores atuam por votações específicas insubmissas a quaisquer instrumentos anteriores.

Assim o Governo é intocável e destemido porque qualquer membro se preocupa apenas com eleição. Ato público indevido não recebe sanção por eleitores porque inscrição e campanha de candidato são prerrogativa de partidos. Operação dos partidos os expôs aos eleitores, mas os temerosos fogem deles discutindo limites deles à escolha de candidatos. Sem limite para tributar, o Governo paga prazerosamente cobranças, salários, gratificações e remunerações a quem quiser. Concessões, vantagens, preferências não têm freio, têm majestade, onde a presidencial serve promocionalmente ao Presidente, convivendo com injunção estrangeira bem sucedida.

Enquanto a tributação prejudicar apenas o empresariado ou elementos menos favorecidos, o Governo não se moverá em proteção da Economia. Recentes investidas argentinas, colombianas, equatorianas, paraguaias, peruanas ou venezuelanas foram declaradas justas a vista de ações anteriores brasileiras. O país deixou de revidá-las. Dá-se ao desfrute de não cumprir obrigações que não deseje. Vive interminável campanha eleitoral. O próprio Governo plantou semente da rejeição social a ele.

Essa rejeição cresce a cada exibição de incúria revelada nos desastres climáticos e em congestionamento de qualquer tráfego minando esperança de governo. A incúria abrange o sistema policial, cujo pessoal rateia com homogeneidade o produto da criminalidade e, portanto exorbita para julgamento o policiamento e a prevenção de crimes.

Policial participando do produto de crime e exercendo julgamento do criminoso é tudo que impede a segurança do cidadão. São fadados a insucesso entendimentos de congressistas, juízes ou governantes a fim de corrigir essas deformações. Tumultos, turbas, motins, revoluções serão invariavelmente inócuos porque qualquer mudança pretendida tem exemplo pregresso na deformação que a sugeriu. Não cabe recurso a correções tumultuadas, valem apenas as estruturadas.

Quer dizer que a bagunça empolgante do Brasil é irrecorrível? Que nenhuma entidade, corte, câmara ou organização conseguiria endireitar algo que esteja sendo feito errado? Além de ser demasiado complexa, a solução fica inviável porque antes de beneficiar alguma fração da Sociedade, outra fração não atendida consegue impedi-la.

Se alguém que ignore essa inviabilidade descobre que haja outro capaz de tentar, trata de enfraquecer quem lhe pareça melhor afamado ou mais coeso. Dentre todos componentes da Sociedade apenas as Forças Armadas sofrem ação redutora governamental por terem retrospecto elogiável e potencial temível. A incapacidade governamental genérica devia ser temível pelos danos causados ao país onde o mais avassalador é a propagação da ignorância, mas permanece aceitável perante o efeito conjugado de infelicidade mundial com riqueza brasileira.

Tudo começou com a ingenuidade marxista leninista que enxergou ninguém sabe por que circunstâncias venturosas para um regime dela nos desgovernos brasileiros. Foi sobre militares cada tentativa dela instalar-se aqui. Eles não souberam extirpá-la e pagam com desconforto essa deficiência.

Digamos daqui em diante idiotas quando nos referirmos aos marxistas leninistas, com vantagem de escrita e leitura para definir nível de inteligência deles. Os idiotas caíram no engodo de substituir “Comando Supremo” por “Comando” ao Criarem o Ministério da Defesa, sonhando substituir militares numa atividade qualquer.

Não creio que algum conheça a tese de Miguel Seabra Fagundes sobre Comando Supremo nem alguma outra tese. Nunca transitarão sem cicerone em meio militar. Não são temíveis pelos militares, mas pelos danos à tecnologia bélica brasileira. Aliás, são nocivos a cada expressão de poder brasileiro, fazem alegria do mundo inteiro, seja asiático, europeu ou americano. Militares podem governar civis, civis jamais podem comandar militares.

Militares são peculiares por terem chefes de mesma espécie, com três décadas de prestação de serviço, quase sempre com experiência pluriapta. Podem ocorrer chefes menos aptos porque viveram carreiras menos diversificadas, mas uma década de direção setorial na última parte do serviço impede ocorrência de inaptos.

Exceto por esses Chefes, os militares cometeriam comportamentos civis, cancelando leis adversas e trocando por insatisfação os Chefes. Militares menos modestos que a média relutam em concordar com a tolerância dos Chefes às ações marxistas leninistas ou, mais modernas, gramscinianas. Sabem os Chefes que: 1- não têm estrutura para criar governos de exceção; 2- o país agüenta direção pelos idiotas, não cabe propor aventuras militares.

Para encerrar, idiotas não sabem que os militares são da Sociedade, da população. Imaginam que sejam extraterrestres, tal a disparidade de comportamento.

Sergio L. Y. dos Guaranys é Cientista social.

FONTE: Monitor Mercantil Digital

 

Bombeiros, Forças Armadas e polícia são as três únicas instituições que cresceram na confiança dos brasileiros nos últimos 12 meses. É o que mostra a pesquisa do Ibope Inteligência, cujo levantamento anual aponta as oscilações na relação de confiança da população com as instituições. Entre os grupos sociais, a família, como em todos os outros anos, liderou como mais confiável.

Os brasileiros estão menos confiantes na Presidência da República e em governos federais e municipais do que estavam no ano passado.

Considerados os três últimos anos, a pesquisa mostra que a instituição presidente da República teve uma queda de nove pontos em comparação a 2010. Em 2009, o índice registrado foi de 66 pontos. Subiu para 69 em 2010 e em 2011 recuou para 60 pontos. Para Malu Giani, gerente de planejamento do Ibope Inteligência, a queda se explica pela troca de presidente, uma vez que Luiz Inácio Lula da Silva gozava de grande empatia com a população.

O governo federal, que havia melhorado seis pontos de 2009 para 2010 – de 53 pontos para 59 -, perdeu agora sete pontos na confiança da população e foi a 52 pontos. Já os governos municipais mantiveram a tendência de queda que vem desde 2009, quando obtiveram 53 pontos. Em 2010, registrou-se diminuição de três pontos (50) e este ano mais três (47 pontos).

O Congresso Nacional e os partidos políticos, que já tinham os menores índices de confiança junto aos entrevistados desde que a pesquisa começou a ser feita no Brasil, em 2009, caíram ainda mais, para 35 e 28 pontos, respectivamente. O Judiciário perdeu quatro pontos percentuais.

A instituição sistema público de saúde foi a que apresentou maior queda. Tinha 49 pontos em 2009, passou para 47 em 2010 e desabou para 41 pontos em 2011. Foi seguida por escolas públicas, que perderam sete pontos de popularidade de 2009 para cá, e meios de comunicação, que perderam seis pontos.

A pesquisa do Ibope Inteligência foi realizada também em Porto Rico, Argentina e Chile, este último pela primeira vez. No Brasil, foram realizadas 2.002 entrevistas. A composição do índice é feita utilizando-se uma escala de quatro pontos, em que é possível medir muita confiança, alguma, quase nenhuma ou nenhuma confiança.

FONTE: Valor Econômico

Domenico Losurdo

Doravante mesmo os cegos podem ver e compreender o que está a acontecer na Líbia:

Cartoon de Vicman.1. O que se passa é uma guerra promovida e desencadeada pela NATO. Esta verdade acaba por se revelar até mesmo nos órgãos de “informação” burgueses. No La Stampa de 25 de Agosto, Lucia Annunziata escreve: é uma guerra “inteiramente externa, ou seja, feita pelas forças da NATO”; foi “o sistema ocidental que promoveu a guerra contra Kadafi”. Uma peça do International Herald Tribunede 24 de Agosto mostra-nos “rebeldes” que se regozijam, mas eles estão comodamente instalados num avião que traz o emblema da NATO.

2. Trata-se de uma guerra preparada desde há muito tempo. O Sunday Mirror de 20 de Março revelou que “três semanas” antes da resolução da ONU já estavam em acção na Líbia “centenas” de soldados britânicos, enquadrados num dos corpos militares mais refinados e mais temidos do mundo (SAS). Revelações ou admissões análogas podem ser lidas no International Herald Tribune de 31 de Março, a propósito da presença de “pequenos grupos da CIA” e de uma “ampla força ocidental a actuar na sombra”, sempre “antes do desencadeamento das hostilidades a 19 de Março”.

3. Esta guerra nada tem a ver com a protecção dos direitos humanos. No artigo já citado, Lucia Annunziata observa com angústia: “A NATO que alcançou a vitória não é a mesma entidade que lançou a guerra”. Nesse intervalo de tempo, o Ocidente enfraqueceu-se gravemente com a crise económica; conseguirá ele manter o controle de um continente que, cada vez mais frequentemente, percebe o apelo das “nações não ocidentais” e em particular da China? Igualmente, este mesmo diário que apresenta o artigo de Annunziata, La Stampa, em 26 de Agosto publica uma manchete a toda a largura da página: “Nova Líbia, desafio Itália-França”. Para aqueles que ainda não tivessem compreendido de que tipo de desafio se trata, o editorial de Paolo Paroni (Duelo finalmente de negócios) esclarece: depois do início da operação bélica, caracterizada pelo frenético activismo de Sarkozy, “compreendeu-se subitamente que a guerra contra o coronel ia transformar-se num conflito de outro tipo:   guerra económica, com um novo adversário:   a Itália obviamente”.

4. Desejada por motivos abjectos, a guerra é conduzida de modo criminoso. Limito-me apenas a alguns pormenores tomados de um diário acima de qualquer suspeita. O International Herald Tribune de 26 de Agosto, num artigo de K. Fahim e R. Gladstone, relata: “Num acampamento no centro de Tripoli foram encontrados os corpos crivados de balas de mais de 30 combatente pró Kadafi. Pelo menos dois deles estavam atados com algemas de plástico e isto permite pensar que sofreram uma execução. Dentre estes mortos, cinco foram encontrados num hospital de campo; um estava numa ambulância, estendido numa maca e amarrado por um cinturão e tendo ainda uma transfusão intravenosa no braço”.

5. Bárbara como todas as guerras coloniais, a guerra actual contra a Líbia demonstra como o imperialismo se torna cada vez mais bárbaro. No passado, foram inumeráveis as tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro, mas estas tentativas eram efectuadas em segredo, com um sentimento de que se não é por vergonha é pelo menos de temer possíveis reacções da opinião pública internacional. Hoje, em contrapartida, assassinar Kadafi ou outros chefes de Estado não apreciados no Ocidente é um direito abertamente proclamado. O Corriere della Sera de 26 de Agosto de 2011 titula triunfalmente: “Caça a Kadafi e seus filhos, casa por casa”. Enquanto escrevo, os Tornado britânicos, aproveitando também a colaboração e informações fornecidas pela França, são utilizados para bombardear Syrte e exterminar toda a família de Kadafi.

6. Não menos bárbara que a guerra foi a campanha de desinformação. Sem o menor sentimento de pudor, a NATO martelou sistematicamente a mentira segundo a qual suas operações guerreiras não visavam senão a protecção dos civis! E a imprensa, a “livre” imprensa ocidental? Ela, em certo momento, publicou com ostentação a “notícia” segundo a qual Kadafi enchia seus soldados de viagra de modo a que eles pudessem mais facilmente cometer violações em massa. Como esta “notícia” caiu rapidamente no ridículo, surge então uma outra “nova” segundo a qual os soldados líbios atiram sobre as crianças. Nenhuma prova é fornecida, não se encontra nenhuma referência a datas e lugares determinados, nenhuma remessa a tal ou tal fonte: o importante é criminalizar o inimigo a liquidar.

7. Mussolini no seu tempo apresentava a agressão fascista contra a Etiópia como uma campanha para libertar este país da chaga da escravidão; hoje a NATO apresenta a sua agressão contra a Líbia como uma campanha para a difusão da democracia. No seu tempo Mussolini não cessava de trovejar contra o imperador etíope Hailé Sélassié chamando-o “Negus dos negreiros”; hoje a NATO exprime seu desprezo por Kadafi chamando-o “ditador”. Assim como a natureza belicista do imperialismo não muda, também as suas técnicas de manipulação revelam elementos significativos de continuidade. Para clarificar quem hoje realmente exerce a ditadura a nível planetário, ao invés de citar Marx ou Lénine quero citar Emmanuel Kant. Num texto de 1798 (O conflito das faculdades), ele escreve: “O que é um monarca absoluto? Aquele que, quando comanda: ‘a guerra deve fazer-se’, a guerra seguia-se efectivamente”. Argumentando deste modo, Kant tomava como alvo em particular a Inglaterra do seu tempo, sem se deixar enganar pela forma “liberal” daquele país. É uma lição de que devemos tirar proveito: os “monarcas absolutos” da nossa época, os tiranos e ditadores planetários da nossa época têm assento em Washington, em Bruxelas e nas mais importantes capitais ocidentais.

27/Agosto/2011

Domenico Losurdo é um marxista convicto.

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