QG Airsoft

Palácio do Planalto, 25 de agosto de 2010

Excelentíssimo senhor presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva,
Excelentíssimos senhores ministros de Estado,
Excelentíssimo senhor senador Roberto Cavalcanti,
Excelentíssimo senhor deputado Beto Albuquerque,
Excelentíssimo senhor comandante da Marinha, almirante-de-esquadra Julio Soares de Moura Neto,
Excelentíssimo senhor comandante do Exército, general Enzo Martins Peri,
Excelentíssimo senhor comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro-do-ar Juniti Saito,
Excelentíssimos senhores oficiais-generais do alto comando das Forças Armadas,
Excelentíssimos senhores ministros… senhor Presidente do Superior Tribunal Militar e seus ministros,
Excelentíssimos senhores secretários do Ministério da Defesa,
Senhora presidente da Anac,
Senhor presidente da Infraero,
Demais autoridades,
Senhoras e senhores,

Presidente, isso tudo que estamos fazendo hoje, que Vossa Excelência está assinando no conjunto de sanção da alteração da Lei Complementar 97, como também da Medida Provisória, como também dos outros decretos que foram assinados, como também dos projetos enviados, faz parte exatamente do redesenho da Nova Defesa.

Tudo isso, senhor Presidente, começou em 2007, logo depois que assumimos o Ministério da Defesa, em uma conversa longuíssima com o deputado José Genoino. Depois, desenvolvemos essa conversa com o almirante Othon e, depois, com o doutor [incompreensível] Barbosa e com o doutor Pedro Celestino.

A partir dali, felizmente, tivemos a concorrência do ex-ministro Mangabeira Unger e dessa conversa iniciou longa discussão que envolveu todas as Forças, todos os Estados-Maiores, os comandantes, para começarmos a repensar essa estruturação da Nova Defesa.

O Ministério da Defesa era de 1999. As condições políticas da época somente permitiam o desenho de 1999. Mas já em 2010, nós tínhamos condições de ter um redesenho. Este redesenho, Presidente, tem como característica a alteração dessa Lei Complementar 97, com inclusão do Ministério da Defesa… do ministro da Defesa na cadeia de comando das Forças.

Antes, o ministro ficava na lateralidade como um chefe administrativo, agora ele passa a ser incluído também na cadeia de comando.

Cria-se o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, e com isso altera-se a doutrina das ações combinadas, antigas de [19]99, para alterações conjuntas a partir de 2010, ou seja, fica muito claro que competirá ao chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas o emprego e, aos comandantes das Forças, o preparo.

Daí porque o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas tem a mesma hierarquia e a mesma linha de prioridade dos comandantes de Forças, sendo escolhido pelo senhor Presidente da República e mantido até continuar com a sua confiança.

Senhor Presidente, reforça-se, efetivamente reforça-se e, nas discussões que travamos durante todo o período de elaboração desse conjunto, reforça-se claramente o Ministério da Defesa: passa o ministro da Defesa a indicar ao senhor Presidente da República os comandos de Força e o chefe do Estado-Maior Conjunto; antes ele era ouvido; indica ao Presidente a nomeação dos cargos de oficiais-generais; formula políticas das diretrizes dos produtos de defesa e elaboração em conjunto com consolidação das propostas orçamentárias para todas as Forças.

O projeto, Presidente, também soluciona alguns problemas que ocorreram com a definição do poder de polícia do Exército, ou seja, define-se com clareza o poder de polícia da Força Aérea, como também se dá poder de polícia à Marinha, que não tinha poder de polícia nas águas jurisdicionais brasileiras, ou seja, as águas internas, como também os 4,5 milhões de quilômetros quadrados de litoral correspondente às águas territoriais brasileiras.

Senhor Presidente, reestrutura-se o Ministério da Defesa, mantém-se a organização… a Secretária de Organização Institucional, mas cria-se uma Secretaria de Pessoal, Ensino, Saúde e Desporto, para exatamente fazer toda a articulação com as Forças e definir principalmente as áreas de saúde.

Cria-se a Secretaria de Produtos de Defesa, onde passará o Ministério da Defesa a definir – não executar compras –, mas definir a política de compras e a política relativa aos equipamentos das Forças no sentido, inclusive, de ampliar a participação do setor civil e da indústria nacional de defesa.

Cria-se a Escola Superior de Guerra, senhor Presidente, que tradicionalmente, há muitos anos, era uma grande sede de pensamento do Rio de Janeiro, passa-se a sua sede a Brasília, e passando para Brasília, cria-se também o campus de Brasília e o campus do Rio de Janeiro, para que possamos ter uma carreira civil de Defesa e, portanto, não fique o Ministério da Defesa, Presidente, sujeito, idiossincrasicamente, aos ministros que eventualmente passarem por ele, mas possa o ministro de Defesa, chegando ao seu ministério, encontrar uma memória montada e uma memória continuada.

E com isso, senhor Presidente, Vossa Excelência, com este ato, e com a disposição que tem Vossa Excelência no enfrentamento dessas questões, acaba, exatamente, de reconfigurar completamente a estrutura de Defesa do Brasil.

Presidente, o decreto que Vossa Excelência assinou, alterando a Estrutura Militar de Guerra, é um decreto que vinha do governo Figueiredo, ou seja, um decreto muito antigo, que não havia sido tocado. Com a mudança e alteração da Estrutura Militar de Guerra da época para a Estrutura Militar de Defesa, nós definimos, (incompreensível) claramente a modernidade necessária para as Forças continuarem servindo ao Brasil e, fundamentalmente, servirem a toda a nação.

Essas, senhor Presidente, são as observações que o ministro da Defesa tem a fazer, e agradece o apoio de Vossa Excelência em todos esses (incompreensível). E é fundamental, volto a repetir, referir a Vossa Excelência a colaboração deste pequeno grupo inicial: Pedro Celestino, Murilo, José Genoino, Sigmaringa Seixas – não obstante com todos os seus gaguejos, mas Sigmaringa participou claramente disso tudo – e do ministro Mangabeira Unger, que trabalhou intensamente na formulação… da formação da Estratégia Nacional de Defesa.

Mas tudo isso também não teria ocorrido, senhor Presidente, se Vossa Excelência não contasse com um trio de comandantes de Força de altíssimo gabarito.

Com a percepção clara sobre o futuro e com a percepção nítida que têm o almirante Moura Neto, o comandante do Exército, Enzo Martins Peri e o brigadeiro do ar Juniti Saito, em relação ao que se quer com o futuro do Brasil, o que se quer para o Brasil.

Volto a repetir e encerro, senhor Presidente, dizendo que o Brasil começa, então, a ter condições de ter aquilo que Vossa Excelência disse ao aprovar a Estratégia Nacional de Defesa: O Brasil terá condições de dizer “sim” quando no mundo tiver que dizer “sim” e quiser dizer “sim”, e precisar dizer “sim”. Mas o Brasil também terá condições de dizer “não” quando precisar dizer “não”, seja a quem for, seja ao Estado que for, na afirmação dos interesses brasileiros e nos interesses de sua soberania.
Parabéns, senhor Presidente!

Para Nelson Jobim, o protocolo adicional do TNP significa ‘ingerências externas’. O Ministro esteve nesta terça (27) em Natal na reunião anual da SBPC. (Foto: Iberê Thenório/G1)

Ministro da Defesa também cobrou satélite para defesa da Amazônia. Ele participou da reunião da SBPC, que ocorre em Natal

Iberê Thenório

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, classificou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) como “assimétrico”, se referindo ao tratamento diferenciado dado às potências nucleares no documento. A declaração foi feita nesta terça-feira (27) durante palestra na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ocorre nesta semana em Natal.
Segundo ele, o acordo atrapalhou o desenvolvimento de tecnologias nucleares pacíficas em países que não tinham bomba atômica na época da assinatura do documento.
“Nós tivemos um aumento dos armamentos nucleares e uma não-capacitação dos países necessária para o desenvolvimento da tecnologia nuclear para energia, propulsão nuclear de submarinos, agricultura e saúde”, afirmou o ministro

Jobim voltou a afirmar que é contra a assinatura do protocolo adicional do TNP, que estabelece mais poder de fiscalização à ONU para a visita de instalações do país. “O Ministério da Defesa se opõe a assinatura do protocolo adicional, pois ele significa ingerências externas”, afirmou.

O TNP entrou em vigor em 1970 para evitar uma possível guerra nuclear, e proíbe países que não tinham bombas atômicas na época a desenvolvê-las. O Brasil é signatário desde setembro de 1998.

Satélites brasileiros

Ilustração exibida por Nelson Jobim na SBPC mostra os locais em que o Brasil precisa de monitoramento de satélites de defesa: à esquerda, em amarelo, as fronteiras da Amazônia; em azul, à direita, as águas brasileiras. (Foto: Ministério da Defesa/Divulgação)

Durante sua palestra, o ministro defendeu desenvolvimento de satélites brasileiros para o monitoramento das fronteiras da Amazônia e da faixa litorânea brasileira – chamada pelos militares de “Amazônia Azul”.

“[O desenvolvimento de satélites] não é coisa de apenas uma geração, e nós não estamos trabalhando”, afirmou o ministro em palestra durante a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ocorre nesta semana em Natal.

Atualmente, o Brasil tem apenas dois tipos de satélite em órbita, operados por meio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Um deles, em parceria com a China, leva câmeras para fotografar a superfície do planeta. O outro captura informações ambientais, como quantidade de chuvas e regime dos rios.

Conheça a estrutura do Programa Espacial Brasileiro

Segundo o ministro, uma das necessidades mais fortes da defesa é ter um satélite geoestacionário (que se mantém sempre na mesma posição em relação ao planeta) para fazer o controle do espaço aereo.
Em sua conferência, Jobim também se disse favorável a aumentar as pesquisas brasileiras na Antártida. Segundo ele, o país não tem pretensões de obter direito a trechos do território antártico – ao contrário dos vizinhos Chile e Argentina –, e a presença de pequisadores reforçaria a ideia de usar o continente apenas para fins científicos.

FONTE: G1

VEJA TAMBÉM:

Evandro Éboli

vinheta-clipping-forteParecer da consultoria técnica do Senado faz uma série de restrições ao projeto do governo que reestrutura o Ministério da Defesa e conclui que a proposta dá poderes em excesso para Nelson Jobim (Defesa) ao dar autonomia ao ministro nas escolhas dos três comandantes das Forças – Marinha, Exército e Aeronáutica – e dos oficiais a serem promovidos generais. Para os consultores, a proposta
gera a “hipertrofia das atribuições e competências do ministro da Defesa e a politização na escolha os oficiais generais”

Esse relatório, chamado de “solicitação de trabalho à consultoria legislativa”, foi pedido pelo senador Heráclito Fortes (DEM-PI), relator da matéria na Comissão de Relações Exteriores. Numa reunião tensa, há duas semanas, no gabinete do ministro, Jobim queixou-se a Heráclito e aos consultores da demora da tramitação. O projeto pode ser votado esta semana, mais de um mês após ser votado na Câmara.

Pela proposta do governo, Jobim, e os ministros que o sucederem, terão poderes de praticamente nomear os três comandantes. Hoje, eles são “nomeados” pelo presidente, “ouvido” o ministro. Pelo texto, os comandantes passam a ser “indicados” pelo ministro e nomeados pelo presidente. A análise dos consultores critica a concessão dessa prerrogativa ao ministro.

“Isso não só dá significativo poder ao ministro, como também acaba por transferir, de fato, o comando das forças àquele, em detrimento da autoridade do chefe do Estado. A escolha dos comandantes, livre ao presidente, passa a ser restrita devido à indicação feita pelo ministro da Defesa”.

O projeto, de setembro de 2009, cria também o Estado Maior Conjunto das Forças Amadas, que substituirá o Estado Maior de Defesa, cargo que pode ser de oficial do último posto, da ativa ou da reserva, também “indicado” pelo ministro e “nomeado” pelo presidente. Esse artigo também foi alvo dos consultores: “Sem dúvida, tem-se aí um grande poder nas mãos do titular da pasta da Defesa”. Para os consultores, o projeto tem o “perfil” de Jobim.

Se aprovado o texto, o ministro ainda terá o controle sobre a nomeação dos generais das três Forças. Hoje, os comandantes apresentam a lista de escolha para promoção aos postos de generais e “indicam” os oficiais para a nomeação. Pelo projeto, eles passarão apenas a “propor” a lista. A palavra final será do ministro, o que, para a consultoria do Senado, é a politização das Forças Armadas.

“O ministro avoca a competência de escolha dos nomes oficiais generais, com risco grave de politização dessa escolha”.

Único deputado a votar contra o projeto na Câmara, Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), afirma que, se o regime é presidencialista, a escolha dos generais deve ser de sua incumbência. Hauly criticou também a criação do chefe do Estado Maior Conjunto.

- É um retrocesso. É colocar um intermediário no diálogo do ministro civil, uma conquista, com os três comandantes militares – disse Hauly.

O Ministério da Defesa rebateu as críticas dos consultores e afirmou que suas posições são “repetidamente reproduzidas por setores absolutamente minoritários da sociedade que ainda se opõem à prevalência do poder civil, democraticamente eleito, sobre as instituições militares”, informou o ministério. Na opinião do ministro, não existe ministério forte e nem ministro forte.

O ministério negou que ocorrerá a politização do ministério se o ministro vier a ter, de fato, poder de escolher os oficiais que merecem ser promovidos a generais. “Pelo contrário, as mudanças dão continuidade ao processo de concentração dos militares nas suas atividades profissionais.

FONTE: O Globo

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Defesa nacional

Merval Pereira

vinheta-clipping-forteApresentado aos parlamentares em setembro do ano passado pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, o projeto de lei complementar que altera o arcabouço jurídico do sistema de defesa nacional foi aprovado seis meses depois na Câmara por um grande acordo interpartidário na semana passada, sem que se desse muita atenção às mudanças fundamentais que ele introduz, e ao significado que tem essa nova estrutura para as negociações de compra de material bélico com o compromisso de transferência de tecnologia, inclusive a compra dos novos caças, cuja licitação está para ser resolvida, não por acaso, nos próximos dias.

Aprovado por larguíssima maioria, o projeto é um exemplo de como governo e oposição podem cooperar em questões de Estado, para o bem da democracia e do país, define o deputado Raul Jungman, membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa da Câmara, que considera esta a maior mudança em talvez um século, na estrutura da Defesa e das Forças Armadas.

Transformando em realidade a atuação do Ministério da Defesa sob comando civil, um dos artigos da lei determina, por exemplo, que o ministro, que antes era ouvido quando da nomeação dos comandantes militares das três forças, agora os indique ao presidente para sua efetivação.

Já o artigo 7º define que compete ao ministro da pasta indicar a lista de promoção de cada uma das Armas, no tocante aos seus oficiais superiores, inclusive generais.

Antes, isso se dava mediante reunião conjunta entre o presidente, ministro e comandantes militares.

Em outro artigo, extingue-se o Estado-Maior da Defesa e em seu lugar é instituído o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.

Este será chefiado por um oficial general no topo da carreira (quatro estrelas), que terá o mesmo status dos demais comandantes, será assessorado pelos chefes dos estados-maiores das três Armas, além de incorporar secretarias estratégicas, antes paralelas.

Todo esse aparato responderá diretamente ao ministro da Defesa. A centralização das decisões de compra de material bélico em uma secretaria do Ministério da Defesa é considerada pelos especialistas medida inovadora, de longo alcance e impacto, superando dois problemas crônicos: a competição das Forças entre si por mais e melhores materiais e equipamentos com exclusividade, e a incompatibilidade entre artefatos, máquinas e tecnologias.

A medida torna mais efetiva a operação conjunta das três Forças, imperativo decisivo da guerra moderna, segundo os especialistas.

A centralização das decisões de compra será de capital importância na redução dos custos, pelo ganho de escala, a redução de estoques e eliminação de supérfluos.

Um objetivo estratégico dessa unificação é incentivar a indústria bélica nacional, atendendo assim a um dos imperativos da estratégia nacional de defesa recentemente aprovada pelo Ministério da Defesa.

Outro ponto fundamental da nova lei é a extensão das prerrogativas de patrulha, revista e prisão em flagrante à Marinha, no mar e águas interiores e à Força Aérea no espaço aéreo, já consignadas ao Exército nas fronteiras, na ausência ou impossibilidade de contar com a Polícia Judiciária.

A medida representa um avanço na luta contra o crime organizado no combate ao tráfico de drogas, armas, crimes ambientais e transfronteiriços, e dá segurança jurídica para a atuação das Forças Armadas em tempos de paz.

A dualidade de foro, civil ou militar, no caso de delitos praticados por integrantes das Forças Armadas quando em missão decorrente de suas atribuições subsidiárias, como a garantia de lei e da ordem e segurança de eventos como Olimpíadas ou eleições, geravam fortes resistências na corporação.

Esses crimes e delitos passam agora a ser competência exclusiva da Justiça Militar, exceto aqueles tipificados como dolosos contra a vida.

A nova lei estabelece também a responsabilidade conjunta do Executivo e do Legislativo pela defesa nacional.

Como define bem o deputado Jungman, na tradição histórica do nosso hiperpresidencialismo, o Executivo detinha o quase monopólio das iniciativas e decisões na área da defesa.

Tal realidade gerou um alheamento do Parlamento que tinha reduzidas responsabilidades sobre o tema e nenhum interesse direto, pois Defesa não dá votos ou cargos.

Esse distanciamento, ressalta Raul Jungman, se transformava em uma ameaça, pois a proclamada projeção internacional do Brasil e suas aspirações à governança global irão requerer pesadas e crescentes responsabilidades na área de segurança em escala regional e, posteriormente, global.

O assunto defesa nacional passará a ser mais e mais responsabilidade de Estado, e não apenas de governo, como até o presente.

O Executivo, destaca Jungman, é a expressão de uma maioria eventual, já o Congresso Nacional representa a toda a Nação.

Com o objetivo de tornar a política de defesa nacional uma política de Estado e não apenas de governo, Jungman propôs ao ministro Nelson Jobim, com o apoio de líderes de todos os partidos, que a estratégia de defesa nacional, atualizada de quatro em quatro anos, fosse enviada, debatida e aprovada pelo Congresso.

E também que o Executivo enviasse ao Parlamento, periodicamente, o Livro Branco da Defesa Nacional, espécie de anuário contendo as principais disposições, composição, organização e condições de preparo e emprego das Forças Armadas.

Essas duas medidas, além de nos equiparar, no plano normativo e institucional, às principais democracias do mundo, representam um avanço extraordinário em termos de transparência e democracia.

Externamente, é um recado explícito aos nossos vizinhos e amigos, sobre as disposições pacíficas do Brasil relacionadas à sua defesa.

FONTE: O Globo

Projeto consolida poder civil sobre militar

Raymundo Costa

Após adiamentos sucessivos, o projeto de reestruturação do Ministério da Defesa deve ser enviado ao Congresso neste mês. Trata-se de um conjunto de medidas para fortalecer a Pasta criada há dez anos para entrosar Exército, Marinha e Aeronáutica sob um mesmo comando. Algumas propostas parecem simbólicas, mas são de grande importância na rotina de forças militares que de uma ou outra forma se confundem com a própria história do país. Representam, sobretudo, a consolidação do poder civil sobre o das armas.

A principal mudança será na Lei Complementar 97, que criou o Ministério da Defesa, em junho de 1999. Entre as medidas acertadas, o ministério ganha poder na confecção do orçamento militar. Atualmente, o orçamento das três Forças é “consolidado” no ministério. O novo texto legal dirá que a proposta será elaborada pelos comandos militares – Exército, Marinha e Aeronáutica – “em conjunto” com a Defesa. Na prática, isso já ocorreu este ano. Mas sem amparo legal e sim por uma conjugação política que se mostrou favorável ao ministro Nelson Jobim na relação com os chefes militares.

Quando assumiu o MD, Jobim procurou cercar-se de oficiais com efetiva representatividade na tropa, caso de generais oriundos do comando da Amazônia ou das tropas brasileiras estacionadas no Haiti. Esses são os dois dos cargos de maior prestígio, atualmente, nas Forças Armadas. Antes esse papel era desempenhado pelo 3º Exército, atual Comando Militar do Sul, devido à disputa da hegemonia regional com a Argentina. Mais de um presidente da República do ciclo dos generais passou pelo comando do 3º Exército.

Na proposta a ser remetida ao Congresso, o secretário do Estado Maior Conjunto do Ministério da Defesa será um oficial de quatro estrelas. Isso tornará o posto equivalente ao dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. “Não são mudanças fáceis em instituições com história e tradição”, disse o deputado José Genoino (PT-SP) ao Valor. O congressista acompanhou praticamente todas as fases de discussão e negociação do projeto de reestruturação do Ministério da Defesa, a curto prazo, e das próprias forças militares a médio e longo prazos.

“É uma demonstração de muito compromisso democrático: discute-se a política de defesa, reestruturação e a memória (caso dos desaparecidos), sem reivindicações corporativas, crise ou pronunciamento militar”, diz Genoino, referindo-se à alternância de golpes de Estado e governos democráticos que marcaram a paisagem política do país, desde a Proclamação da República, que há mais de 100 anos (1889) determinou o fim da monarquia pelo fio da espada.

É nesse sentido a determinação de que as prioridades do orçamento sejam aquelas estabelecidas na Estratégia Nacional de Defesa. O texto da Lei Complementar 97 remete à “Política de Defesa Nacional”. O fato de a palavra “nacional” vir em primeiro lugar não é mero acaso. Outra mudança a caminho: as operações militares deixam de ser “combinadas” e passam a ser “conjuntas”. O que parece eufemismo na prática significa que as manobras obedecerão a uma cadeia hierárquica que mistura integrantes das três Forças – hoje, Exército, Marinha e Aeronáutica mantêm, cada qual, a própria hierarquia, nessas operações.

Segundo fontes da área de defesa, o mérito do ministro Nelson Jobim foi ter envolvido Exército, Marinha e Aeronáutica na elaboração da Estratégia Nacional de Defesa – o antigo chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, contribuiu com algumas ideias, mas na realidade foi mais um redator do documento. Com os oficiais diretamente envolvidos, começou um processo de diálogo e convencimento, quase sempre muito difícil, cheio de arestas ainda não de todo aparadas.

Há mudanças que pareciam fora do alcance há apenas dez anos, quando o ministério foi criado. O melhor exemplo é o que trata da nomeação dos comandantes das três Forças. Atualmente eles são designados pelo presidente da República, “ouvido” o Ministério da Defesa. O novo texto será taxativo: os comandantes serão nomeados pelo presidente “por indicação” do MD.

Há outras mudanças que parecem incompreensíveis para o universo civil, mas são de muita valia no campo militar. Até agora, todos os promovidos a general são apresentados diretamente ao presidente da República. O novo ritual determina que eles sejam primeiro apresentados ao ministro da Defesa, que, em seguida, os apresentará ao presidente. Os comandantes também deixam de marcar encontros diretamente com o presidente.

Rabiscado, o projeto ainda é objeto de consulta aos diversos escalões das Forças Armadas. Em resumo, a estratégia de Jobim é ouvir, discutir e negociar com os militares. Basicamente, o que o ministro faz é o que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pensou quando criou o Ministério da Defesa: racionalizar e entrosar as três Forças, em vez de manter Exército, Marinha e Aeronáutica sob ministérios distintos e mesmo distanciados. Os militares da época aceitaram a indicação de um ministro civil, mas nunca efetivamente levaram a sério o Ministério da Defesa. Oficiais “encostados” eram rotineiramente designados para o ministério.

A reestruturação do Ministério da Defesa implicará a reestruturação das três Forças no médio e longo prazos. O atraso no envio de projetos ao Congresso demonstra que nem todas as arestas foram polidas. O Exército reclama que Marinha e Aeronáutica ganharam submarinos e caças, enquanto a Força terrestre não levou nada, até agora. A Defesa argumenta que é apenas uma questão de cronograma, o Exército será também atendido, na hora certa. Já a Marinha, que mantém elevada a autoestima de “Força intelectualizada” teme perder espaço para o Exército.

Ponto polêmico: as promoções, em cada Força, são enviadas diretamente ao presidente da República. Discute-se se cabe ao Ministério da Defesa interferir em um assunto considerado interno. De um modo geral, as mudanças acertadas estabelecem a autoridade do Ministério da Defesa sobre os comandos.

Haverá um reagrupamento geográfico das tropas na região Centro-Oeste, ponto equidistante da Amazônia, do Sul, do Nordeste e Oeste do país. A concentração no Sul e no Rio de Janeiro é considerada uma concepção ultrapassada. A rigor, o remanejamento de tropas já está em andamento, com discrição.

A brigada do Exército será a unidade de excelência nessa nova configuração. Deve ser acantonada nas mediações de Brasília, assim como a base aérea. Jobim queria transferir a Escola Superior de Guerra (ESG) para a capital da República. Houve reação e o ministro terá de se contentar com a criação de um campo avançado da ESG, em Brasília. A ideia é formar uma elite de intelectuais de defesa.

Na concepção, a política de defesa prevê o emprego das Forças Armadas como poder dissuasório. Mas flexíveis o bastante para se transformar em forças de ataque, em caso de necessidade.

O projeto em curso tem repercussão internacional, como a parceria privilegiada com a França. Ainda é nítida na retina dos militares brasileiros as dificuldade que os argentinos enfrentaram na guerra das Malvinas, quando foram isolados pelas forças da Otan (EUA à frente). Os argentinos nem sequer conseguiam comprar peças de reposição para o míssil exocet, que fez estragos nas forças navais inglesas, no início do conflito.

“Parceria estratégica na compra de equipamentos. Nenhuma Força compra isoladamente submarinos, helicópteros e, claro aviões – a parceria com a França permitiu que eles oferecessem mais que o Estados Unidos e Rússia”, afirma um interlocutor de Jobim. A Rússia, além da instabilidade política, não não tem estabilidade em relação à manutenção de equipamentos. Os Estados Unidos, por seu turno, têm restrição à transferência de tecnologia. O avião de treinamento supertucano, por exemplo, fabricado pela Embraer, não pode ser vendido a certos países porque tem tecnologia americana. A França não tem vetos. Acima de tudo, a França tem assento no Conselho de Segurança Nacional da ONU, um lugar cobiçado e perseguido pelo governo Lula.

Os projetos para reequipar as Forças Armadas devem ter em vista o programa nacional de desenvolvimento. A tendência do governo Lula é favorecer empresas nacionais, inclusive incentivar a criação de um parque industrial de defesa. O mote é que toda linha de produção militar tem uma interface civil. Quase uma centena de empresas já atendem a projetos em curso.

Além da Lei Complementar 97, a reestruturação da Defesa requer decretos a serem baixados pelo presidente da República, mas sobretudo mudanças na Lei 8.666, que trata das licitações. O objetivo é permitir aos militares contratar, sem licitação, empresas que julgarem estratégicas para o desenvolvimento de produtos sensíveis. Há promessa de transparência em compras feitas sem licitação, o que é incomum nesse mercado, para dizer o mínimo.

Uma empresa do grupo Fiat, a Iveco, por exemplo, desenvolve em Minas Gerais o carro de combate sobre rodas Urutu 3. Encomenda do Exército. Outra empresa desenvolve um equipamento de radar móvel, que pode ser transportado pelos soldados. “Busca-se nas Forças Armadas necessidades que possam ser usadas para estimular a atividade econômica”, disse fonte ligada ao Ministério da Defesa.

Jobim tem a cumplicidade das Forças à medida que o governo Lula promete dinheiro para equipar Exército, Marinha e Aeronáutica. O Ministério da Defesa na criação de um fundo para assegurar os recursos ou na criação de uma regra que impeça o contingenciamento de recursos previstos no Orçamento Geral da União. As Forças serão beneficiadas com o dinheiro do pré-sal que será destinado à ciência e tecnologia; mas especificamente a Marinha terá dinheiro para o submarino nuclear.

A lei que permite à Aeronáutica abater aeronaves também será mudada. Atualmente, a Força Aérea pode abater ou fazer pousar um avião, mas não pode prender tripulação e passageiros, o que é atribuição da Polícia Federal, no caso de traficantes. Semana passada, depois de disparar rajadas de metralhadoras de aviso, a FAB conseguiu que um pequeno avião pousasse nas mediações de Brasília. Acionada, a PF chegou mas encontrou apenas o avião carregado de drogas: a tripulação fugira. Com a mudança, os militares também poderão prender traficantes, que desde a promulgação da Lei do Abate trocaram boa parte das rotas aéreas pela rede de rios e estradas secundárias da Amazônia.

FONTE: Valor Econômico, via Notimp

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Projeto cria órgão para coordenar ações do Exército, Marinha e aeronáutica; comandanteseria escolhido pelo presidente Ministério da Defesa teria secretaria para centralizar compra de armas; proposta ainda precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aprovou ontem a reformulação da área de Defesa, inclusive com a criação de um Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, a ser comandado por um oficial de quatro estrelas (o mais alto da hierarquia militar), com a função de articular a doutrina, exercícios e as operações comuns a Exército, Marinha e Aeronáutica.

Trata-se, de certa forma, de uma reconstituição do antigo EMFA (Estado Maior das Forças Armadas), que existiu durante os governos militares e foi extinto pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, quando foi criado o Ministério da Defesa, que coordena as três Forças, e que irá coordenar também o novo órgão. A diferença é que o EMFA era essencialmente burocrático e o seu sucessor será operativo.

A tendência é que o primeiro comandante do novo órgão, responsável por sua implantação e transição, seja o almirante de esquadra João Afonso Prado Maia de Faria (quatro estrelas), que atualmente ocupa a chefia do Estado Maior da Defesa.

Não há norma sobre o processo de escolha do comandante do órgão, mas a tradição, desde o EMFA, é que haja rodízio entre almirantes, generais e brigadeiros, sempre de quatro estrelas, por escolha direta do presidente da República.

O projeto de reformulação está em gestação há pelo menos um ano e meio, mas precisou de intensas negociações dentro das Forças até ser acatado pelos respectivos comandantes. O novo chefe terá o mesmo status hierárquico que eles.

A questão foi levada ontem a Lula pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, cujo projeto prevê também mudanças no próprio ministério, com a criação de uma secretaria exclusiva, vinculada ao ministro, para centralizar os projetos de compras das Forças Armadas.

Hoje, a Marinha planeja e executa compras de submarinos. A Aeronáutica é responsável pela aquisição de aviões de caça, e o Exército, de tanques.

A secretaria segue um modelo aproximado ao da DGA (Delegação Geral de Armamento), da França, que Jobim visitou no início de 2008, e que tem um orçamento anual de cerca de 10 bilhões, para todas as compras militares do país.

Outro ponto considerado fundamental no projeto aprovado por Lula ontem é uma mudança operacional: a Aeronáutica e a Marinha vão passar a ter poder de polícia nas áreas de fronteira terrestre e marinha. Hoje, só o Exército tem.

Todas as mudanças dependem de votação no Congresso, porque alteram a lei complementar 97/117, de 1999, que criou o Ministério da Defesa.

FONTE: Folha

FOTO: (lançamento da Estratégia Nacional de Defesa em 2008) – Agência Brasil

Para começar a sexta feira com bom humor (ou mau humor, dependendo do ponto de vista em relação ao conhecimento dos parlamentares sobre a Defesa e outros assuntos).

Nesse vídeo de quase 8 minutos, originariamente trecho do programa CQC da TV Bandeirantes, a parte diretamente relacionada aos 10 anos do Ministério da Defesa começa aos 4 minutos e vai até os 5 minutos e meio, aproximadamente.

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